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No lodo da sensualidade

  • Pornografia
  • Autoria: Witold Gombrowicz
  • (Trad. Teresa Fernandes Swiatkiewicz) D. Quixote

Crítica Ípsilon por:

José Riço Direitinho

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10 de 12 pessoas acharam útil a crítica que se segue.
Um clássico da literatura europeia do século XX, cujo título enganador esconde mais do que desvenda

Quis o destino (por via de um qualquer amigo endinheirado) que, semanas antes de Hitler invadir a Polónia, o escritor Witold Gombrowicz (1904-1969) - que havia meses tinha publicado o romance que viria a ser considerado a sua obra-prima, Ferdydurke (Editora 7 Nós, 2011) - tivesse sido convidado a participar na viagem inaugural de uma nova linha marítima transatlântica. O paquete tinha como destino Buenos Aires, onde o escritor se demoraria cerca de três semanas. Gombrowicz aceitou o amável convite. Entretanto, Hitler invadiu a Polónia, e Gombrowicz deixou-se ficar por terras argentinas durante mais 24 anos, onde escreveu teatro e romances, sempre em polaco.

O último romance escrito na Argentina (1960) foi Pornografia - agora por cá editado e pela primeira vez vertido do polaco (há uma anterior edição da Relógio D''Água, de 1988, traduzida do francês por Aníbal Fernandes). Comparando com Ferdydurke, nota-se que a corrosiva e tragicómica personalidade de Gombrowicz não sofrera alterações: continua o seu processo de corroer tudo o que é falso no mundo, destruindo edifícios morais e culturais obsoletos, até chegar àquilo que considerava verdadeira e genuinamente humano, e, por isso, imaturo. Este romance desconcertante como que procura iluminar o conflito entre dois estados de alma: a vibrante e bela juventude, e a asfixiante maturidade; ou, visto de um outro modo, como a malícia trazida pelo saber da idade é capaz de corromper a jovem espiritualidade. Gombrowicz sublinha assim o seu interesse na construção da identidade e na maneira como o tempo e as suas circunstâncias, ou seja, a História e os seus lugares, condicionam uma determinada forma de viver.

Tendo a guerra e a resistência à ocupação nazi como cenário - a história decorre em 1943, na Polónia -, dois homens de meia-idade, Witold Gombrowicz e Fryderyk, chegam à propriedade rural de um amigo, um aparente idílio pastoril, apesar da guerra. É lá que encontram a jovem Henia - filha do proprietário e noiva de um vizinho advogado, conservador, católico, e rico - e Karol, um outro jovem (com um passado um pouco obscuro na resistência armada). Ambos os jovens se conhecem desde a infância e, aparentemente, não mostram interesse (sexual) um pelo outro. São os dois homens que empreendem uma espécie de “programa estético”, pois atribuem importância e significados a gestos e atitudes insignificantes, como o esmagar de uma minhoca pelos dois (desejo simbólico de esmagar o noivo?), a dobra de uma perna das calças do rapaz por parte da rapariga, a pose coquete para um ensaio de teatro. “Eles não eram excessivamente belos - nem ele, nem ela - apenas tanto quanto é próprio daquela idade, mas formavam uma beleza em si, naquele seu círculo fechado, naquele desejo recíproco e encantamento mútuo. Eles formavam algo vedado a outrem, algo em que ninguém tinha o direito de se imiscuir.”

Por um lado, e apesar das grandes diferenças, Pornografia poderá fazer lembrar a terceira e última parte de Ferdydurke, pois também aqui a ironia de Gombrowicz se vira para o “mundo idílico” do campo - chegou mesmo a afirmar numa entrevista que Pornografia é um “romance rural polaco” - em que há passarinhos a cantar mas também a decadente aristocracia latifundiária e a sua relação de interdependência entre senhores e servos (domínio e subjugação que vão espelhar-se nas várias personagens).

Neste jogo magistralmente coreografado, repleto de implacáveis representações psicológicas, o mote que é dado desde o início ao leitor não é o da exposição do acto sexual em si, mas sobretudo o envolvimento da sexualidade com um qualquer tipo de poder, de dominação, de desejo e de obsessão. O título, que pode ser enganador, e esconde mais do que mostra - em algumas traduções para outras línguas, o termo escolhido para título foi “sedução” - assenta sobretudo no jogo voyeurista e perverso arquitectado pelos dois forasteiros de meia-idade que aos poucos vai alastrando para uma intriga criminal que acaba por resultar em assassinatos. “Era indecente. Era como confessar o seu desejo de que eles se excitassem: façam-no, que assim vão agradar-me; este é o meu desejo... Ele estava a iniciá-los na esfera do nosso desejo, daquilo com que nós sonhávamos para eles.”

Pornografia, que é por muitos considerado um clássico da literatura europeia do século passado, é um romance inclassificável porque pode ser tudo, desde romance de costumes a thriller psicológico. Mas é sobretudo na problemática abordada (juventude, vergonha, imaturidade, máscaras, valores opressivos, instintos, complexidade do pensamento, etc.) que indicia leituras e interpretações (que não se esgotam) no vasto manancial simbólico com que é tecido e nas suas inúmeras filiações filosóficas.