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Ficção

O Egipto de Mahfouz na pensão de Mariana

  • Miramar
  • Autoria: Nahuib Mahfouz
  • Civilização Editora

Crítica Ípsilon por:

Margarida Santos Lopes

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4 de 4 pessoas acharam útil a crítica que se segue.
Em Miramar, o único árabe Nobel da Literatura conduz-nos a duas revoluções que mudaram o Egipto. Uma história com 4 versões que homenageia um país agora numa nova encruzilhada.

Em 1919, aos 7 anos, testemunhou da sua janela a revolução contra a ocupação britânica, vendo soldados ingleses a dispararem sobre manifestantes. Em 1952, sentiu-se “feliz” com a revolução de Nasser que derrubou a monarquia, “ainda que não tenha oferecido a democracia”. Como é que Naguib Mahfouz, o único árabe Nobel da Literatura, olharia para o Egipto, hoje governado por um Presidente da Irmandade Muçulmana e uma “junta militar”? Várias vezes esta pergunta emerge ao longo das 188 páginas de Miramar, romance em que o “Balzac do Cairo” aloja numa pensão de Alexandria a velha e a nova geração de um país cobiçado por diversas forças, no final dos anos 1960.

Miramar foi publicado, originalmente, em 1967, data humilhante no calendário árabe, quando Israel triunfou na “guerra dos seis dias” (ou 6 horas), ocupando a península do Sinai (restituída ao Egipto em 1981), a Faixa de Gaza, a Cisjordânia, Jerusalém Leste e os Montes Golã. A guerra não entra na outrora elegante a agora decadente hospedaria de Mariana, madame de 65 anos a quem o “esplendor não desamparou”, apesar das “costas arqueadas, mãos descarnadas e comissuras dos lábios” (pág. 6). Mas nos quartos da grega de olhos azuis albergam-se intensos conflitos, que terminarão numa misteriosa morte.

A história, dividida em cinco capítulos, tem quatro versões e, como é distintivo de Mahfouz, mestre da linguagem, cada um dos narradores usa um vocabulário próprio, realçando as suas diferentes origens sociais, culturais e políticas. A apresentação é feita por Amer Wagdi, repórter reformado, membro do Partido Wafd - a personagem mais próxima do autor. Mahfouz era um assumido defensor deste movimento nacionalista, liderado por Saad Zaghlul (1860-1927), cujo exílio forçado incentivou a revolução de 1919 - e obrigou os britânicos a reconhecerem a independência do Egipto em 1922.

Em várias entrevistas, Mahfouz confessou que, de tudo quanto fez na vida, o seu envolvimento com o Wafd (Partido da Delegação) “foi o mais importante”, ainda que tenha recusado ser um militante filiado, porque queria manter “ liberdade total”. Não se estranhe também que Miramar tenha o aroma de uma novela policial - Mahfouz revelou que a sua maior influência literária foi Hafiz Najib, autor de mais de 20 livros com estórias de detectives.

E nós detectamos facilmente a admiração e ódio pelo Wafd (dissolvido em 1952, após a revolução dos Oficiais Livres que pôs fim ao poder dinástico do rei de Farouk I) em dois personagens: o grandriloquente Amer Wagdi, e o ressentido Tolba Marzuq. Interpelado sobre os erros políticos de Zaghlul, primeiro-ministro de Janeiro a Novembro de 1924, Wagdi defende-o: “Tinha estudado em al-Azhar [centro do islão ortodoxo sunita], assim não era de admirar que desempenhasse as funções de mazoun [celebrava e registava contratos de casamento] cuja missão na vida é realizar um compromisso, uma aliança legítima entre o Oriente e o Ocidente.” E quando confrontado com o combate que Zaghlul travou, simultaneamente, contra os comunistas e os Irmãos Muçulmanos, replicou: “Foi um período de indecisão. Depois deu-se a revolução que soube apoderar-se do que de melhor havia em cada um destes grupos.” (Página 40).

Marzuq, um bey, título de cortesia mas inferior ao de effendi, ostentado por Wagdi, não suporta o Wafd. Tinha sido subsecretário do Ministério do Wafq” (que geria fundos para fins de caridade), membro de “uma das mais insignes famílias” e de um dos partidos ligados à família real. As suas terras foram confiscadas: “Perdi toda a minha riqueza por causa de uma brincadeira momentânea! (...) Necessitavam pura e simplesmente do meu dinheiro. (...) Há uma causa longínqua na extremidade da corda enrolada em torno dos nossos pescoços. Saad Zaghlul! Ao semear a discórdia entre as pessoas, ao se revoltar contra o rei, ao lisonjear o povo, plantou uma erva daninha que não mais parou de proliferar e de crescer qual cancro incurável que nos destruiu a todos.” (Páginas 21-23)

Ainda que figura secundária, Marzuq é importante para o enredo genialmente imaginado por Mahfouz - o escritor que já publicara 80 livros quando começou a ser pago (graças à brilhante Trilogia do Cairo, em 1957), que escrevia à noite até se reformar da função pública aos 60 anos. Na pensão da viúva Mariana, “contra-existem” ainda Hosni Allam, jovem rico, depravado e reacionário, cujos bens foram poupados à expropriação; Mansour Bahi, 25 anos, locutor da Rádio de Alexandria e ex-comunista que só escapa à prisão porque o irmão é chefe da polícia (vivendo atormentado com a ideia de que é um traidor); Sarhan al-Biheiri, militante socialista e defensor da revolução de Nasser, mas também um hipócrita e oportunista; e finalmente Zohra Salama, linda fallaha (camponesa) do Delta do Nilo que chega a Miramar fugida de um casamento forçado e determinada a instruir-se. Todos se apaixonam por ela, mas a ela só interessa o fallah Sarhan, ainda que ele apenas queira ser amante, para se casar com a professora de Zohra, de mais elevada condição social e económica.

Zohra é o Egipto. E que melhor palavra poderia Mahfouz escolher para definir a sua pátria que não “a variante dialetal do árabe clássico zahra, com o significado de ''flor''”?, como revela Badr Hassanein, o exímio tradutor da obra original. Sem as suas múltiplas e primorosas notas de rodapé, quase um dicionário, o leitor sentir-se-ia perdido. Por exemplo, quantos fãs da cantora Umm Kalthoum (ou Qulthoum), mais que diva, uma divindade no Médio Oriente, sabem que ela era tratada carinhosamente como Thouma?

E por que é que Zohra simboliza o Egipto? Porque rejeita o chauvinismo da sociedade (é cortejada pelos quatro narradores: Amer, Hosni, Mansur e Sarhan), mas preserva o seu carácter obstinado e independente. Ninguém a verga. O Egipto de Mahfouz, destacou o académico palestiniano Edward Said, num ensaio publicado em 2011, “é um cúmulo imenso de história, que remonta há milhares de anos e que, apesar da surpreendente variedade dos seus governantes, regimes, religiões e raças, ainda consegue manter a coerência da sua identidade. Mais importante: o Egipto detém uma posição única entre as nações. Objecto de atenção de conquistadores [Alexandre, César, Napoleão], aventureiros, pintores, escritores, cientistas e turistas, este país é incomparável na posição que assumiu na história da humanidade, e a visão quase intemporal que granjeou.”

Ou como constatou Eça de Queirós, em O Egipto, “Ali, as coisas imensas têm a perfeição das coisas delicadas: o mar lembra uma pervinca; o céu uma ametista... aquela região é a pátria das almas.”