Leia também
Ficção

Uma viagem redonda

  • Os Dias de Davanzati
  • Autoria: Hector Abad Faciolince
  • Quetzal (Trad. Margarida Amado Acosta)

Crítica Ípsilon por:

Rui Lagartinho

diminuir aumentar
votarvotarvotarvotarvotar
2 de 4 pessoas acharam útil a crítica que se segue.
Em 2000, Os Dias de Davanzati tornou Hector Abad Faciolince um escritor famoso. Nem todos conseguem misturar lixo e literatura e sair ilesos

Tudo começa com uma curiosidade demasiado humana: “E não há nada como alguém querer guardar um segredo para que outros o queiram logo descobrir.”


Em Medellín, no prédio onde vive, o narrador desta história descobre que tem por vizinho um certo Davanzati, escritor promissor que um dia caiu no silêncio e no esquecimento sem ter atingido a glória. As campainhas de alarme soam quando vê Davanzati regressar a casa com uma resma de papel. Um longo silêncio pode estar a chegar ao fim.

Passados alguns dias, o lixo começa a regurgitar papéis mais ou menos íntimos: “Eu sei perfeitamente que quando um escritor se desprende de algum papel não o faz para alguém o resgatar ou ler a seguir, pelo contrário fá-lo para que ninguém jamais o leia.” Contrariados os pruridos, o miolo do lixo de Davanzati vai, depois de lido e transcrito, ser o miolo do romance.

Os primeiros papéis aproximam-se da confissão e da condição de um náufrago que não quer afundar-se: “Escrevo porque tenho o vício incurável de escrever, escrevo como quem urina, nem por gosto nem a seu pesar, apenas porque é natural, algo com que nasci, que tenho de fazer diariamente para não morrer, mesmo que esteja a morrer. Porque urina um moribundo? Porque escreve quem agoniza? E no entanto, urina. E no entanto, escrevo.”

Se nos mantivéssemos por aqui, Os Dias de Davanzati depressa resvalaria num precipício. Os caminhos onde se cruzam a literatura e a vida têm tanto de previsível como de perigoso. E é aí que entra o engenho de um romancista experiente e tudo menos falhado: Hector Abad Faciolince.

Senhor de um talento e de uma elegância subtis, Faciolince consegue-nos fazer atravessar uma série de textos em que Davanzati luta com temas difíceis como o suicídio ou a pequenez daquilo com que se ocupam poetas, romancistas ou filósofos: “amor, desejo, inveja, ambição, humildade, orgulho, desamor, abandono, adultério, pecado, medo, angústia, ira, insónia, sexo, maldade, sono.” Os papéis de Davanzati disparam em todas as direcções: desde o esboço de conto ao esqueleto do romance, passando pelo ensaio auto-ficcional e até pelo delírio de alguns poemas em prosa em noites de bebedeira: “Não sejas enfático”, ou “No silêncio descansa o silencioso”.

Apesar da torrente de palavras sôfregas de quem escreve, transcreve e lê, Os Dias de Davanzati é também um livro de silêncios que se insinuam primeiro e se impõem depois como consequência. Por momentos, quando pensamos nas intenções que movem Hector Abad Faciolince, tentamos colá-lo à pele de Davanzati nalguma das suas preocupações, ou às astúcias do narrador na forma como tenta descodificar a biografia de Davanzati. É por pouco tempo e é uma falsa pista. Concluímos que assim é quando o lixo deixa de ter os escritos de Davanzati e o narrador parte então de mãos livres à procura do rasto de um homem que desta vez parece ter mesmo desaparecido.

É nesta altura que os cabos soltos e dispersos do sexo, do amor e das ambições comezinhas se atam e ficamos com uma visão mais ampla da vida dentro de uma moldura que por sua vez é um retrato possível das últimas décadas da Colômbia.

Uma das características dos escritores colombianos que hoje cruzam a barreira da meia idade é a consistência de um percurso de reflexão sobre a violência e o caos das grandes cidades minadas sobretudo pelos cartéis do tráfico da droga. Outras feridas são o exílio, no exterior, forçado, ou na sua própria terra, auto-imposto; e um savoir-faire para lidar com a memória e os traumas políticos de regimes ditatoriais como o colombiano. Somos o Esquecimento que Seremos, do mesmo autor, também publicado na Quetzal, é sobre isso. Ora, todas estas questões atravessam Os Dias de Davanzati, onde num viciante clima de tensão somos avisados sobre as alturas a que podemos chegar quando pensamos em literatura: “Serei, afinal, aquilo que sempre quis ser, um nefelibata. Viverei por entre as nuvens, e só por nuvens me hei de interessar.” Ou alertados sobre algumas incompatibilidades práticas: “Não se pode esporear um cavalo e, ao mesmo tempo, puxar-lhe as rédeas porque, então, o romance encabrita-se e deita abaixo o autor, ou o seu cavaleiro.”

Os Dias de Davanzati leva-nos o mais longe possível, a pretexto da escrita e da Colômbia, sendo o destino o próximo ponto de partida: “A ciência é capaz de desentranhar quase todos os mistérios que há numa gota de sangue, até a mais remota e curiosa palpitação das mitocôndrias, mas compreende muito pouco o que pensa ou sente um ser humano no fundo do seu coração, onde outrora se supunha estarem alojados os sentimentos mais profundos. Face à emoção que desperta em nós um rosto, uma melodia, uma sequência de palavras, todas as explicações cessam, porque o que se sente é, é assim e é inexplicável.”