"O Homem Livre: Mito, Moral e Carácter numa Sociedade Ameríndia", de Filipe Verde, é um dos grandes livros da antropologia portuguesa. Os índios Bororo, diz, são "coisa do passado" - mas o trabalho da antropologia consiste exactamente em resgatar os mundos que o século XX varreu do mapa.
Professor no ISCTE, o antropólogo Filipe Verde interessou-se pelos Bororo, índios do Brasil que já tinham lugar destacado nos "Tristes Trópicos" de Lévi-Strauss. Mas não tem ilusões: a cultura Bororo, como todas as culturas "primitivas", é uma coisa do passado. Olhar para o que ficou para trás, acredita, é a melhor maneira de nos conhecermos a nós próprios - coisa que a antropologia portuguesa, da qual é um crítico feroz, não tem sabido fazer nos últimos anos.
Li "O Homem Livre" e imaginei-o dividido. Diz que a antropologia é "um tema dispensável" para aquilo que o livro "quer mostrar". Por outro lado, é fiel às "convenções narrativas da etnografia, dá toda a importância aos mitos, procura "os aspectos vivenciais da realidade" Bororo, tal e qual os mestres da antropologia. O que o livro "quer mostrar" não é tão antropológico como a maneira como ele está escrito?
O interessante não é a antropologia mas o que ela estuda. O que me importava eram os Bororo e a sua espantosa inteligência ética, não as diatribes metodológicas ou anti-metodológicas da antropologia, que na maior parte das vezes não fazem mais do que tornar os mundos pelos quais se interessa inacessíveis a uma curiosidade autêntica. Sim, talvez esteja dividido, mas sem hesitações sobre o que me interessa. Na antropologia interessa-me o legado descritivo e interpretativo dos mundos que a história do século XX varreu do mapa, ou seja, a etnografia e não a teoria antropológica, seja lá isso o que for para além de um discurso abstracto, sujeito a modas e por fim estéril - só vale a pena embrenharmo-nos nele para termos a autoridade de o descartar. Como etnografia, a antropologia é tributária não da "teoria" mas das vivências de contacto desses tais "mestres": da sua sensibilidade, tacto, bom gosto, do seu talento, em suma. Foi isso que tornou possível, ao lermos os seus textos, re-compreender os mundos de que nos falam.
Continua informado sobre a situação dos índios Bororo? Essas pessoas têm ainda alguma coisa a ver com o que lhe interessa, a cultura Bororo, que é coisa do passado?
Pouco informado, já estou distante. Aquele é desde há muito um mundo parado, entregue a uma imobilidade triste e sem horizonte. As suas terras continuam a ser cobiçadas pelos fazendeiros, continua instalado um vazio existencial que me parece sem remissão. A cultura Bororo (como as demais culturas "primitivas"), é uma coisa do passado, tal como os Assírios e a Grécia Clássica são coisas do passado - os antropólogos não gostam de ouvir isto, mas é incontornável. Permanecem vivas não localmente, onde só subsistem ruínas, mas na medida em que continuem a suscitar o nosso interesse, e vão sendo por nós apropriadas para com elas aprendermos o que só por via delas podemos aprender.
Os salesianos, de quem diz que desde 1895 dedicaram anos "ao desígnio de destruição da cultura Bororo", são hoje os grandes responsáveis pela sua defesa? Desistiram de cristianizar?
É verdade, desistiram de cristianizar. Na escola da missão o que se ensina hoje, para além das competências básicas da cultura escrita, é a tradição Bororo, que alguns missionários do passado fixaram. O papel dos missionários é fundamentalmente assistencialista, sendo agentes políticos centrais da defesa dos direitos índios. Papel que assumem correndo riscos, porque aquele é um meio violento e onde a vida pode ter pouco valor. Conheci dois missionários que são pessoas extraordinárias: Gonçalo Ochoa, colombiano que terá hoje cerca de 80 anos, e Mário Bordignon, um veneziano há muitos anos no Brasil. Foram iniciados pelos Bororo e ostentam o seu nome nativo, estou certo, com orgulho.
Chama à filosofia de vida dos Bororo "naturalismo ético". Para eles não há moral sem compreensão da natureza e do lugar dos humanos na natureza? Ou basta dizer que no pensamento Bororo aquilo a que chamamos "moral" não existe?
Não quero resumir o que se condensa na ideia de "naturalismo ético", nem é esse o propósito da pergunta, suponho. Há que ler o livro para ter uma visão da coisa. Mas no essencial trata-se do seguinte: um corpo de ideias sobre o homem e a acção pela qual o conformar dos comportamentos às necessidades da vida social (a renúncia à mera lei do desejo e da violência) é concebido não como o resultado de uma aprendizagem cultural ou de submissão a uma coerção social, mas como expressão e manifestação de propriedades centrais da natureza e dos processos vitais (natureza que é a mesma para homens, jaguares e aranhas). Nesse sentido, a compreensão da natureza é aquilo a que nós chamamos "moral". Uma moral que está presente, e como!, de uma forma que permite conciliar o inconciliável: enorme liberdade individual com uma ordem e paz social que roça a nossa ideia de utopia, mas uma moral que nunca se formula como tal. É uma moral do mesmo tipo que encontramos na Grécia de Homero, antes de Sócrates e Platão a terem tornado uma coisa prescritiva, e de a moral se ter casado com a religião e com a filosofia, que a ergueram contra a natureza e nos tornaram muito inautênticos, cada vez menos livres. E muito neuróticos.
O último capítulo, aproximando o naturalismo ético dos Bororo e o pensamento de Freud, não é uma espécie de rever Freud como melhor antropólogo do que todos os antropólogos em sentido estrito?
Freud é um caso sempre especial. Ninguém pode lê-lo hoje sem assumir uma feroz distância crítica, porque já estamos inevitavelmente dele distantes, porque escreveu muitos disparates, porque em nome dele se escreveram disparates ainda maiores, porque a psicanálise enquanto terapia foi um logro por vezes com foros de irresponsabilidade. Mas, por outro lado, que grande escritor foi Freud, e quão absolutamente inteligente foi por vezes no seu diagnóstico da modernidade. É o autor mais citado do século XX. A importância dele hoje, ou sempre, tem a ver com a dimensão moral do seu pensamento, que alguns nem deram por existir... Freud é o mais importante pensador moral do século XX, e a sua influência aí é avassaladora. Foi o primeiro a pensar a moral como coisa necessária e necessariamente desligada, para nós modernos, de alguma fonte ou sanção que a tornem mais do que meramente humana. Que responsabilidade deu assim a cada um de nós, responsabilidade que se joga sempre na solidão do nosso eu. Mas a presença de Freud no final do livro (não só Freud, também a herança das éticas arcaica e clássica da Grécia) não tem a ver directamente com isso. Tem a ver com o facto não tão surpreendente assim de por vezes diferentes culturas pensarem questões semelhantes em termos semelhantes. Há uma quase identidade nas premissas ontológicas que guiaram a reflexão de Freud e dos Bororo sobre o homem e a acção humana (que encontramos também em Espinosa). Mais do que isso, nas aldeias Bororo, na Viena de finais do século XX e na Grécia de Homero e de Sófocles, as questões vitais da sociabilidade humana (em última análise questões morais, mais do que políticas, arrisco dizer contra a actual obsessão com o "político") foram trazidas à reflexão em narrativas organizadas em torno do incesto e do parricídio. Encontrei nelas, e nas premissas culturais que as informam em cada contexto, o lugar onde se pode levar a cabo o que a hermenêutica chama de "fusão de horizontes".
O que o interessa naquilo que os antropólogos portugueses fazem hoje? E o que é que não suporta?
Vou ser franco: salvo algumas excepções, quase nada. E o que não suporto é muito, e não é específico da antropologia feita em Portugal, que não é diferente da que se faz fora de Portugal. Não suporto a mediocridade das questões, a insignificância e irrelevância dos objectos da sua curiosidade, a falta de cultura científica e o facilitismo relativista da maioria dos praticantes, que são uma espécie de aplicadores burocráticos do que decidiram considerar como uma "metodologia" ou um "olhar". E depois há a assimilação auto-congratulatória da forma contemporânea do preconceito: o politicamente correcto, de que muitas vezes querem tirar dividendos e autoridade política. E contudo a antropologia é talvez (para mim de certeza, e a par da história) a mais interessante das ciências do Homem, com um legado de valor inestimável para a tradição humanística.
Decidiu estudar antropologia por uma razão especial? Foi a ideia de ir "para o terreno" que o atraiu?
Não, não foi isso. Simplesmente olhava para as fotografias dos mundos "primitivos" e sentia uma curiosidade infinita sobre eles, sobre as suas ideias, a sua forma de pensar, sobre o que é que dá conteúdo ao que chamamos diferença cultural. E intuía que conhecê-los era uma forma rica e fecunda de conhecer o que mais nos importa conhecer, que é sempre a nós próprios.
Valoriza muito a "componente literária" da etnografia. Como é que tenta fazer isso perante os seus alunos no ISCTE? Ou não faz?
Parece-me que é preciso dar a ver os mundos de que falamos, colocarmo-nos e ao leitor lá, porque de outra forma eles permanecem mudos e incapazes de nos comunicar alguma coisa de vital, e o meio para isso é a escrita, porque é através dela que chegamos a compreender e comunicar o que compreendemos. Mas a escrita etnográfica não é um tema que aborde nas aulas, não se ensina, é um trabalhão solitário.
Se não fossem os Bororo, que outra cultura gostaria de estudar?
Não sei. Mas como antropólogo estou muitas vezes se não a estudar pelo menos a ler sobre outras culturas. Lembro-me que numa fase precoce e ainda muito indefinida do meu trabalho me interessava por pensar a violência e a guerra. Teria provavelmente ido parar à Nova-Guiné, porque talvez em nenhum outro lugar de que tenhamos notícia elas tenham sido tão estruturantes da vida humana. Também andei pela Índia, outro destino possível do meu trabalho. O Mahabharata, a epopeia fundadora do Hinduísmo, é uma reflexão magistral sobre a violência (e muitas outras coisas) e a chave da forma singular como a sociedade das castas a integrou no seu seio. Lê-la a par da Ilíada, por exemplo, poderia ter sido um rumo do meu trabalho. Mas acabei por encontrar os Bororo.