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DANIEL ROCHA

Somos o que recordamos

27.06.2012
Por: Rui Lagartinho
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O cemitério dos livros esquecidos pôs uma nova geração de leitores a amar Barcelona. Uma cidade literária, labiríntica e misteriosa que ao ser reinventada por Carlos Ruiz Zafón se tornou reconhecível em todo o mundo.

A primeira viagem que Carlos Ruiz Zafón fez a Lisboa durou um só dia. Entre dois aviões, um que chegou cedo e outro que partiu tarde, o dia foi passado num hotel a promover o seu mais recente romance, O prisioneiro do céu, o terceiro volume dos quatro que constituem a tetralogia O cemitério dos livros esquecidos. Antes de iniciar a maratona de entrevistas pediu para caminhar meia hora pelo centro de Lisboa. Fez o percurso entre o Jardim de S. Pedro de Alcântara e o coração do Chiado. Pelo caminho foi reparando nas lojas de sumos, de gadgets, de roupa que também se podem encontrar em Barcelona. Transportou-se para a pele de um lisboeta exilado na sua cidade, cercado de turistas num parque de diversões global.

Uma sensação familiar, semelhante àquela que ele próprio viveu há dez anos em Barcelona e que em parte esteve na origem do nascimento de A sombra do Vento. Há onze anos o exilado rebelde reinventou, com o que a geografia lhe dava, novos caminhos para a sua cidade. É o autor que mais vende no seu país, e os 25 milhões de livros vendidos em todo o mundo fazem da sua obra um fenómeno global.



Foi um instinto de sobrevivência que o fez escrever A sombra do Vento?

Também. Até ali dividia o tempo entre a escrita de romances para um público jovem e experiências como guionista. Mas achava que ainda não tinha escrito o romance que queria. Um dia que olhei com mais atenção para a paisagem que me rodeava, Barcelona, resolvi arrancar com esta saga com base num território que conheço e que respeito historicamente. Para mim a fantasia chega, encosta-se à realidade e amplia-a. Dá-lhe novos territórios sem a desvirtuar. Todas as ruas, lojas e demais espaços físicos do romance existem ou existiram.

O cemitério dos livros esquecidos não.

Essa é a grande metáfora que vai atravessar a tetralogia. Em 1998 estava em Los Angeles e dei comigo a pensar no facto de estar a viver numa sociedade onde a memória se apaga cada manhã. Parece que quem lá vive faz questão de esquecer tudo o que viveu na véspera. Havia tacitamente um processo de destruição da memória. Ao mesmo tempo, sempre que viajava pelos EUA encontrava livrarias que eram verdadeiras grutas cheias de tesouros que ninguém parecia querer folhear e muito menos levar para casa. Esta destruição da memória fez-me reproduzir um local onde todos os livros são preservados, acabando por definirem em conjunto, todos eles, a nossa essência. No fundo somos aquilo que recordamos.

A empatia que conseguiu junto do público é um facto. Mas não foi fácil convencer os editores a publicarem A sombra do vento.

Diziam-me que os meus livros não se iriam vender e que ninguém procurava aquele tipo de histórias com os livros e a literatura como centro da trama. Mesmo assim deram-me uma oportunidade de publicar o fruto do meu exercício de liberdade criativa. Os leitores ávidos de descobrirem novas histórias fizeram o resto. Podemos concluir que os leitores são mais inteligentes e curiosos do que aquilo que pensam os editores.

Como é que com um romance cheio de símbolos, de chaves, de códigos se tornou tão popular?

Estes são livros sobre o mundo dos livros: sobre leitores, sobre escritores sobre editores e sobre livreiros. Desde o início queria que interpelassem os leitores a diversos níveis. A fruição que cada um pode ter ao lê-los depende da bagagem que traz, quando se senta frente a eles. O jogo muda conforme a pessoa que tenho à frente, o que tem também como consequência que o resultado muda.

Há quem se lembre de Borges e dos seus labirintos, há quem pense nos romances góticos vitorianos ou nos livros de Dickens mas também há quem se entregue, num atitude de tábua rasa, à espera de ver o que acontece sem um guião organizado. Tentei meter toda a literatura ali dentro para que ninguém se sinta a mais, e todos se encontrem no prazer que dever ser a leitura.

Nas raras ocasiões em que dá autógrafos, a segurança é reforçada para organizar o caos de fãs. São importantes estes encontros, não se sente às vezes prisioneiro da sua condição?

Ouvir os leitores é sempre importante, embora não me desvie da linha que tracei. Todos estes livros nasceram de uma imagem forte que eu persegui e de uma ideia de conjunto que os envolve. Neste momento quando estão publicados três dos quatro volumes da saga, sinto-me como se estivesse a caminho de acabar uma catedral. Sou um hóspede destes livros e de certa forma prisioneiro da saga. Os leitores não podem ser enganados nem defraudados. Mas podem ser honestamente iludidos. Conduzidos por atalhos. Como no jogo do gato e do rato.

Mas no fundo deixou de ser um homem livre. Não sente que pode ter vendido a alma ao diabo? Quando inventou Julian Carax, um escritor que quer destruir o seus livros como forma de se destruir a si próprio, não pensou em si e na sua condição?

Bem... Senti-me muitas vezes interessado na forma como um acto criativo modifica a alma de quem o faz.

Em O prisioneiro do céu há uma personagem que quase é atropelada por um eléctrico. Como o arquitecto Gaudí. Explora este jogo da verosimilhança de certos episódios com a história?

Sim. É uma homenagem que faz parte do grupo das citações mais explícitas à história de um dos génios de Barcelona.

Falou de imagens fortes como motor de arranque dos romances. Qual foi a fotografia que tirou da sua cidade, no dia em que decidiu escrever O prisioneiro do céu?

Foi o castelo de Montjuic e essa fossa de mortos em que se transformou durante os anos em que foi prisão política franquista e em que a repressão sobre Barcelona foi mais forte, o início da década de 40 do século passado. São os anos da vingança. Em Barcelona os anos que se seguiram à Guerra Civil Espanhola (1936-1939) foram tão maus ou piores que os da guerra. Franco estava convencido que a Europa se iria transformar numa espécie de parque temático fascista. Acreditava que a Alemanha ia ganhar a guerra e isso deu-lhe a liberdade de actuar com certa impunidade na selecção dos alvos a abater.

Neste sentido o ambiente desta vez é menos gótico que nos outros romances e o horror que nasce da realidade histórica e política é cruel, mas não tão fantasioso.

A sombra do vento, o primeiro livro de um conjunto de quatro, é a porta de entrada da tetralogia, o segundo, O jogo do anjo, é a descida aos infernos de um homem e da sua loucura. O prisioneiro do céu, sem revelar muito da trama, pode definir-se como o livro em que um homem renasce.

E o arranque é menos tenso. Durante alguns instantes parece que vamos ler um romance pícaro, uma comédia de costumes da década de 50 em Barcelona.

O livro é uma memória de Férmin Romero de Torres (um mendigo de luxo, personagem secundária de
A sombra do vento) e como é uma personagem picaresca, todo o romance tem um tom mais ligeiro próximo da comédia de costumes. O livro tem de ser a voz de Férmin.

Tudo isso desaparece quando ele relembra a sua prisão em Montjuic.

Sim. Todo o livro é um entrelaçar de dois tempos: um sem esperança, o início da década de 40 em Barcelona, e de alguma luz ao fundo do túnel que é o final da década de 50.

É o romance de um sobrevivente.

Férmin renasce e vai querer ser uma pessoa melhor. Muitos leitores vão perceber o paralelismo da fuga com Alexandre Dumas e o seu O conde de Monte Cristo. Mas aqui Férmin, uma vez fora da prisão, não se vai querer vingar.

O seu realizador preferido, Orson Welles, era também homem de narrativas labirínticas. Já disse que a sua escrita deve muito ao cinema.

Durante grande parte do século XX a gramática que o cinema utiliza vem da literatura. O cinema alimentava-se de muitas linguagens: filosofia, jornalismo. A grande tradição do romance europeu emigra para o cinema que se nutre do seu fôlego narrativo. O romance secou e por isso é importante devolver-lhe tudo o que lhe roubámos. Subestimámos muitas vezes a nossa capacidade de absorção de emoções múltiplas. Há que tentar deixar que te estimulem todos os estímulos nervosos do cérebro e não apenas dois.

E somos uns felizardos com o que temos à nossa volta. O filósofo Alain de Botton refere num dos seus últimos livros que se calhar Dante na melhor das hipóteses leu dez livros na vida, visto eles não abundarem, nem circularem na sua época.

Sim. Eu alimento-me de muitas fontes. A minha forma de escrever por exemplo é muito influenciada pela arquitectura musical e os seus labirintos. Vejo a prosa como uma composição musical onde o texto tem diversas capas: há uma orquestração, há contrapontos, há texturas e timbres orquestrais, secções que se misturam. E soluções, problemas que se resolvem.

Suponho que também se alimenta daquilo que os seus colegas escrevem. Que livro traz consigo?

Um policial do escritor americano James Lee Burke e um livro sobre o império bizantino, período sobre o qual tenho andado a pesquisar.

Percebe-se que é dono do seu tempo. Quando pensa concluir a tetralogia do Cemitério dos livros esquecidos?

Estou em processo de maturação e espero ter a quarta parte publicada dentro de dois anos. Já me disseram que é muito tempo, e eu sei que há leitores ansiosos para saber como termina a história, mas vão de ter esperar. Vou procurar não os desapontar.