Entrevista

Rogério Casanova, aliás "Rogério Casanova"

27.02.2009 - Pedro Mexia
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Vai deixando uma ou outra pista biográfica mas resguarda a sua identidade civil. Não aparece em eventos públicos e prefere ser desenhado do que fotografado. É autor do melhor blogue português, "Pastoral Portuguesa". Uma selecção desses textos acaba de ser publicada

"Pastoral Portuguesa" é o melhor blogue português. Estilo, cultura, graça e inteligência, um cocktail perfeito. O autor do blogue assina "Rogério Casanova", mas é possível que seja um anagrama. Presumivelmente nascido em 1980, Casanova vai deixando uma ou outra pista biográfica mas resguarda a sua identidade civil. O sucesso dos seus textos na blogosfera valeu-lhe convites da imprensa, e é desde há alguns meses crítico literário no "Expresso" e colunista da revista "Ler". Agora, a Quetzal publica uma selecção de textos de "Pastoral Portuguesa" e torna mais conhecido o homem que mantém o nome de guerra, não aparece em eventos públicos e prefere ser desenhado do que fotografado. Há semanas, Casanova foi encarregado de entrevistar Peter Carey. Sugeriu uma entrevista via Messenger. O escritor australiano nem levou a sério tal hipótese. Propusemos então que o esquivo Casanova desse ao Ípsilon precisamente uma entrevista por Messenger. Ele aceitou logo.

Com um nome como "Casanova" estaríamos à espera de um blogue menos cerebral e mais carnal. 

O nome Casanova acompanha-me antes de eu saber o que era "carne" ou até "expectativas". Mas também não concordo nada que o blogue seja cerebral.

Digamos que a maioria dos leitores portugueses não acompanham com avidez a obra de Bernard Malamud [escritor judeu americano, muito citado por Casanova].

Isso é uma questão que eu vou resolver eventualmente. Devem ler-se todos esses judeus velhos. Todos, todos.

E gostar acima de todos do [Thomas] Pynchon não é uma paixão cerebral?

Não. Eu comecei a gostar do Pynchon quando li uma cena em que uma invasão a um canil terminava com um gajo a meter o pé dentro de uma sanita.

O facto de esta entrevista ser ilustrada com um desenho e não com uma fotografia é uma homenagem ao mestre?

A minha intenção era fingir surpresa, e dizer que ninguém me pediu uma fotografia.

"Não aparecer", como se diz, pode ser uma estratégia, até de "marketing."

Aqui há tempos uma pessoa, digamos, "do meio", passou meia-hora a explicar-me que os, digamos, "autores", deviam aparecer, que isso só ajudava, só ajudava, nunca prejudicava, etc. Foi na mesma semana em que esgotou a edição do Herberto Helder. Mas eu juro que só não apareço porque não consigo tirar uma foto tipo passe decente desde 1996.

O gosto por anagramas vem de ser uma mistura entre o intelectual e o lúdico, tal como tudo o que escreve?

Sim, exacto. Era mesmo isso que eu ia responder, caso a pergunta fosse só "de onde é que vem o gosto por anagramas": é uma mistura entre o intelectual e o lúdico, tal como tudo o que escrevo. 

E a anglofilia? Há quem diga que esta geração tem anglofilia a mais

A anglofilia é uma coisa terrível: é tão fácil ser ridículo quando se está a ser anglófilo. Ando a tentar arranjar defesas para isso, mas não tem sido fácil. E depois há a anglofilia selectiva, que só gosta de uma versão daquilo baseada no pior livro do Waugh, mas nunca fala de cavalos e porridge, por exemplo. A minha anglofilia também era muito em função de estar lá a viver. 

Os anglófilos tendem a ser muito antifranceses, e acho que cita poucos franceses no seu livro. 

Ao contrário da maioria dos anglófilos que conheço, eu sou uma nódoa em francês: não consigo ler mais do que o "L'Equipe", e mesmo assim com grandes dificuldades. Para a literatura francesa estou totalmente dependente do Pedro Tamen e tenho lacunas enormes no currículo por causa disso. Mas não tenho assim nada contra eles, genericamente. Aliás, uma vez estive em França e achei tudo, como diria o Gonçalo Cadilhe, "muito bonito".

Geralmente o antifrancesismo tem uma costela política, mas as suas ideias políticas são um pouco opacas. Cito: "uma espécie de cruzamento entre o rancho de Hunter S. Thompson, a cabeça de Milton Friedman, o palácio de Tibério e a social-democracia sueca".

Não acho que essa salada seja uma coisa muito original: é o truque básico das pessoas que gostam de mostrar que não são de esquerda, mas ao mesmo tempo que são espectaculares a todos os outros níveis.

Há uma referência no livro à Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Foi uma experiência proveitosa?

Estive lá dois anos. Tive dois professores muito, muito bons: o David Prescott, que me deu a conhecer o Gore Vidal, e a Marijke Boucherie, que me perguntava semanalmente o que é que eu estava ali a fazer. Também fiquei em segundo lugar num torneio de matraquilhos. Pela minha saúde, fiquei mesmo.

E apostas, houve?

Isso veio depois, felizmente.

O que são as "zonas de guerra" da Penha de França e da Linha da Azambuja?

As escolas que frequentei - decoradas com um bocadinho de mitomania. Não eram assim tão más, para dizer a verdade. Quer dizer, uma delas ficou péssima, mas já depois de eu ter saído.

Gosta de "guilty pleasures" ("reality shows", filmes bíblicos, o Sporting)?

O Sporting, um "guilty pleasure"? Mas o que é isto? O Sporting e os filmes bíblicos - duas coisas que têm muito em comum - são paixõezinhas de infância. Uma pessoa fica refém disto o resto da vida.

Há uma passagem no livro que mostra pouco apreço pelas "analogias sobre 'relações'". Deduzo que nunca teremos a vida amorosa de Casanova "online".

Bom, a ideia era mostrar pouco apreço por um certo tipo de analogias sobre relações. Há quem faça isso bem, mas eu não faço. E qualquer opinião crítica que eu dê sobre o que quer que seja está basicamente a exaltar aquilo que eu faço bem, e a dizer que aquilo que eu não sei fazer não presta. Idealmente, estas coisas não se confessam, mas suponho que agora é tarde de mais.

As referências ao seu quintal são a costela Rousseau?

É da costela anglófila, evidentemente. Tratar do jardim, só isso. Tenho um quintalinho com cinco laranjeiros, e um marmeleiro, e tenho muito orgulho em ainda não ter deixado morrer nada.

E que insistência é essa no tema da "maionese"?

Por castigo divino, houve uma altura em que o primeiro resultado de uma busca no Google para "manteiga planta" era o meu blogue. Com a maionese nunca lá cheguei.

Finalmente, a questão mais importante do nosso tempo: Joaquin Phoenix no show de David Letterman estava pedrado ou a gozar [está no Youtube]?

A aparição do Joaquin Phoenix no Letterman é uma ilustração perfeita dos motivos pelos quais está aqui um desenho do Pedro Vieira e isto foi tudo feito por Messenger.


Comentários
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comentario06.03.2009 - 10:24 - , Campo de Ourique, Portugal
Não percebo tanta atenção ao Pynchon, bom escritor, sem dúvida, mas completamente sem humor na vida real. Poucos saberão que Pynchon, tal como Robert De Niro, visita Portugal de vez em vez. De Niro gosta de se sentir anónimo quando janta em Sintra, no Solmar nas Portas de Santo Antão, ou numa barraca em Portimão no pestilento Algarve. Pynchon sente-se duplamente anónimo: passa despercebido num país onde passaria despercebido mesmo se as pessoas soubessem quem era. Maravilha. Há alguns anos tive a oportunidade de almoçar com o De Niro no Solmar na companhia de alguns colegas do mundo do cinema. Quando De Niro apresentou o Pynchon ao grupo foi com a confiança de quem sabe que estava entre analfabetos, julgando-me, julgo eu, mero companheiro homossexual de um dos produtores presentes. Longe disso. Resolvi descobrir se a famosa falta de humor do Pynchon era verdade, e contei-lhe a piada votada a mais cómica de todos os tempos pela revista Playboy, e que passo a transcrever: “A man goes into the doctor’s and says, ‘Doctor, my penis is burning.’ And the doctor replies, ‘That’s ‘cause someone is talking about it.’” Ao que Pynchon disse, “There’s a novel in there somewhere.”
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