Caim

Católicos dizem que Saramago é "ignorante" em relação à Bíblia

20.10.2009 - Luís Miguel Queirós e Natália Faria
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Saramago volta a provocar a ira da Igreja. Católicos qualificam críticas do autor de Caim como "operação de publicidade". A controvérsia parece estar nos genes do escritor.

É uma espécie de sequela de um filme já visto no passado. O protagonista mantém-se: José Saramago. E o tema também: a religião. A diferença é que as palavras que reacenderam o rastilho da polémica surgiram a propósito do livroCaime não deO Evangelho segundo Jesus Cristo.

A partir de Penafiel, onde decorreu domingo o lançamento mundial do seu livro, o Nobel da Literatura de 1998 referiu-se à Bíblia como "um manual de maus costumes, um catálogo de crueldade e do pior da natureza humana". O Corão "é a mesma coisa", segundo o escritor: "Imaginar que Corão e a Bíblia são de inspiração divina? Francamente! Como? Que canal de comunicação tinham Maomé ou os redactores da Bíblia com Deus, que lhes dizia ao ouvido o que deviam escrever? É absurdo. Nós somos manipulados e enganados desde que nascemos."

Estas palavras abriram um caudal de críticas. Da comunidade judaica, o rabino Eliezer di Martino arrumou Saramago como mais um dos "milhões de autores que fazem um esforço enorme para falar mal da religião, sobretudo das religiões bíblicas". Assim, "o mundo judaico não se vai escandalizar pelo que escreve o senhor Saramago", garantiu Di Martino, para quem o escritor "não conhece a Bíblia nem a sua exegese", limitando-se a fazer "leituras superficiais" do livro.

Ao PÚBLICO, o secretário da Nunciatura Apostólica de Lisboa garantiu que não haverá uma reacção oficial do Vaticano. Já o porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa, Manuel Morujão, classificou as críticas de Saramago como "uma operação de publicidade" para aumentar as vendas do livro. "Um escritor da craveira de José Saramago deveria ir por um caminho mais sério. Poderá fazer as suas críticas, mas entrar num registo de ofensa não fica bem a ninguém, sobretudo a quem tem um estatuto de Prémio Nobel", admoestou.

"Seria espantoso que um escritor como José Saramago, ateu professo, encontrasse algo de divino na Bíblia ou no Corão. Mas esperar-se-ia que reconhecesse o valor de obras que estão entre os grandes textos do património literário da Humanidade", condenou, por seu turno, Peter Stilwell, director da Faculdade de Teologia da Universidade Católica.

O bispo do Porto, D. Manuel Clemente, também ouviu Saramago e concluiu que as incursões bíblicas do escritor revelam "uma ingenuidade confrangedora". "Bastava ler a introdução de qualquer Bíblia para lhe dar uma significação bem diferente da que lhe quis dar", reagiu.

D. Manuel Clemente protagonizou, em 1991, um debate com Saramago a propósito do lançamento do Evangelho segundo Jesus Cristo. Na altura, o Governo, presidido por Cavaco Silva, juntou-se ao descontentamento da Igreja Católica e vetou o nome de Saramago como candidato ao Prémio Literário Europeu. O escritor zangou-se com o país e auto-exilou-se na ilha de Lanzarote, onde ainda reside com a mulher, Pilar del Rio.

Esta foi apenas a primeira de uma longa sucessão de controvérsias, muitas delas sem relação directa com os seus livros, o que parece contrariar a tese dos que querem ver nas suas polémicas uma deliberada estratégia publicitária. Para referir apenas algumas das provocações mais recentes, Saramago enfureceu Israel ao comparar a situação na Palestina a Auschwitz, irritou Berlusconi com uma série de artigos em que lhe chamava "vírus" e outras coisas igualmente desagradáveis, aborreceu os seus camaradas de partido ao demarcar-se da liderança cubana - quando o regime condenou à morte três responsáveis pelo desvio de umferry- e indignou alguns portugueses com a sua previsão de que Portugal fará um dia parte de Espanha. Outras vezes são os próprios livros que geram discussões, nas quais o autor só participaa posteriori, e, diga-se, raramente para as tentar esvaziar. Saramago teve sempre uma costela de polemista e provocador. Quando a TVI censurou um anúncio à sua peça de teatroIn Nomine Dei,em 1993, reagiu com este voto: "QueDeus lhe dê uns bons açoites."


Comentários
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comentario23.10.2009 - 10:42 - João Bosco, Porto, Portugal
Por volta de 1468, Heinrich Kramer e Johann Sprenger, ilustres Dominicanos, escreveram um livro intitulado Malleus Maleficarum que se tornou desde logo no mais popular manual de caça às "bruxas." Entre as muitas recomendações, aconselhavam que, entre as sessões de tortura, as mulheres estivessem sempre acompanhadas de guardas afim de impedir que "o diabo as faça matarem-se." Tudo isto foi feito milhares de vezes a milhares de mulheres (mas também homens) que sofreram horrores às mãos de carrascos comandados por homens cuja autoridade, mentalidade e práticas emanavam da colecção de textos que formam o livro a que Saramago chama um "manual de maus costumes." Os crimes da Igreja e daqueles que agiram em nome de Cristo são inumeráveis. O próprio rabi Joshua, Iesus ou Jesus, se alguma vez existiu, e se por milagre voltasse à terra, a primeira coisa que faria seria renegar o Cristianismo e os Cristãos sob todas as suas formas. Se um tal Jesus existisse, eu não me importaria de cear com ele, e ele ficaria sem dúvida aliviado por eu não ser Cristão. Saramago tem razão, e saberem que ele a tem é a razão do amargo de boca que as suas palavras representam para os Cristãos.
comentario22.10.2009 - 22:43 - Paulo Belinsky, Espinho
A morte natural é o suicídio da natureza, ou melhor, a aniquilação do mais racional dos seres pelo mais irracional dos elementos a que está amarrado. Só uma luz religiosa pode fazer parecer o contrário, porque então, como o quer a justiça, a razão superior (de Deus) proclama as ordens às quais a razão inferior tem de vergar-se. A razão insondável de Deus encobre a não-racionalidade do Caos: hoje o principio destinado a tornar suportável o estreito e breve espaço-tempo da existência ultrapassa os limites que tornam viável este espaço-tempo, pacificando o além. A razão controla o armistício entre a lógica e o absurdo, as pretensões da ordem e a sua brevidade e estreiteza. A Ligação entre sociedade e religião nada tem de contingente. A religião e a sociedade são uma só; a sociedade sem religião fica incompleta e condenada, incapaz de se defender perante seja que tribunal for. Garante de todas as significações, mas sem sentido ela própria – suporte de todos os fins, mas ela própria sem finalidade -, a sociedade perderia o processo no momento em que fosse intimada a defender-se, acusada da autoria e da responsabilidade dos seus actos. Se não somos capazes de nos confrontar com o Abismo, é varrê-lo do nosso campo de visão. É isso precisamente que faz a sociedade/religião. A sociedade tem necessidade de Deus, porque exaspera por ordem e sentido.
comentario22.10.2009 - 20:30 - Maria, Bristol, UK
Nao sou uma grande fa dos livros de Saramago... mas neste aspecto... partilho do mesmo ponto de vista dele
comentario22.10.2009 - 18:25 - Octopus, Zona
A autêntica liberdade do ser humano é permanecer “não contaminado” por superstições e crenças injustificadas que deformam a percepção da realidade.
comentario22.10.2009 - 18:23 - Octopus, Zona
Liberdade de expressão é a liberdade para os outros dizerem não apenas o que consideramos gravemente falso, mas também o que consideramos inadmissível, ofensivo e indesejável. Se começarmos a policiar o pensamento alheio, mostrando-nos muito ofendidos e dizendo que certas afirmações são intoleráveis, não estamos a explicar por que razão tais afirmações são falsas, estamos apenas a fugir do assunto, dizendo que é inadmissível promover a independência da mente.
comentario22.10.2009 - 15:46 - Daniela, Porto
"não conhece a Bíblia nem a sua exegese"?! E ele, conhece?! Que absurdo, estes religiosos a fingirem extraír algo mais destes textos primitivos. Como se Deus lhes tivesse dado algum código de interpretação diferente. Chega de absurdidades, meus senhores!
comentario22.10.2009 - 14:28 - Anónimo, Gaia
Saramago apenas diz verdades claras. Mas, como seria de esperar, quem desde pequenino sofre lavagem cerebral não consegue entender a simplicidade da verdade dita por Saramago. Então, escondem-se atrás de uma suposta intelectualidade superior para ler a bíblia de uma for «profunda», ou seja, manipulada.
comentario22.10.2009 - 13:08 - (...), Porto
Saramago apenas demonstra que se não fosse um excelente escritor, seria um excelente publicitário. Não tenham dúvidas que as vendas vão disparar à custa da polémica.
comentario22.10.2009 - 11:59 - Luis, Porto
Uma crença que continua a viver no seculo passado, com valores do seculo passado, e ideias que nao se coadunam com a velocidade a que a sociedade moderna evolui nao pode chamar ignorante a ninguem. Cresçam, mudem os seus valores, modernizem-me e assim que o fizerem vao reparar qe desapareceram.
comentario22.10.2009 - 11:23 - Anónimo, Aveiro
Saramago tomou o gosto aos prémios. Agora candidata-se fortemente ao conceituado Prémio IgNóbil 2009, atribuído anualmente e amplamente divulgado.
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