Paris Review

Escritores pelo buraco da fechadura

04.11.2009 - Hélder Beja
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"Entrevistas da Paris Review" revela os autores por trás de livros, as suas obsessões, os outros escritores que amam. Carlos Vaz Marques escolheu e traduziu dez conversas para este volume

Pensemos em alguns dos grandes autores da língua inglesa dos últimos 50 anos. T.S. Eliot, William Faulkner, Aldous Huxley, Ernest Hemingway, Henry Miller, Graham Greene, Sontag, Philip Roth. E nos outros: Jorge Luis Borges, Günter Grass, José Saramago, Julio Cortázar, Milan Kundera, Italo Calvino, Céline. Estão todos lá, no arquivo de entrevistas da "Paris Review".

Um pequena parcela do acervo da revista criada nos anos 1950 por um grupo de jovens intelectuais norte-americanos chega-nos no volume "Entrevistas da Paris Review", editado pela Tinta da China, que reúne dez conversas, seleccionadas e traduzidas pelo jornalista Carlos Vaz Marques. "Quis que o livro começasse pelo princípio e achei que a primeira entrevista [a E.M. Forster], que viria a dar o tom para todas as outras, não poderia faltar. Pareceu-me interessante que esta escolha viajasse da cultura pós-vitoriana encarnada por Forster à contracultura transgressora de Jack Kerouac, numa entrevista em que entrevistado e entrevistadores tomam anfetaminas", explica Vaz Marques.

O livro cobre um período de 15 anos (de 1953 a 1968) e tem entrevistas com Greene, Truman Capote ou Lawrence Durrel, todos já desaparecidos. "Pareceu-me que certos nomes do panteão da literatura do século XX não podiam faltar. Estou a referir-me a Faulkner, Hemingway ou Borges", aponta o jornalista da TSF. Para logo avisar que "a ideia nunca foi esgotar todo o potencial do arquivo da ‘Paris Review' e este volume, em momento algum, foi pensado como um ‘best of'". Certamente, porque num "best of" seria difícil deixar de fora entrevistas a Simone de Beauvoir, Vladimir Nabokov ou Harold Pinter, feitas durante o mesmo período.

O volume, também prefaciado por Vaz Marques, pode ser o primeiro de vários, à semelhança do que aconteceu nos EUA. "Depois de avaliado o interesse dos leitores [por estas entrevistas] logo se verá se é caso para reincidir." Nos EUA, a publicação, a cargo da editora Picador, começou em 2006 e a reincidência chegou aos quatro tomos que reúnem dezenas de entrevistas.

Retrato dos artistas

Se pedimos a Carlos Vaz Marques que eleja uma das conversas que traduziu, a escolha recai em Jorge Luis Borges. "Talvez a minha predilecção por Borges ajude. Mas creio que a personagem captada pela ‘Paris Review' é tão literária, tão desconcertante e tão híbrida no cruzamento de factos e ficção como a própria obra do autor." 

Borges foi entrevistado por Ronald Christ em 1967, no seu escritório da Biblioteca Nacional da Argentina. O autor de "O Aleph" já via mal - "Vivo num mundo cinzento, um pouco como um ecrã de cinema. Mas o amarelo resiste". A conversa revela-se um passeio pelos seus livros e os de outros, filmes e memórias em que o autor diz coisas como: "Se não tivesse batido com a cabeça, talvez nunca tivesse escrito contos" ou "Não gosto nada de Tom Sawyer. Acho que Tom Sawyer estraga os últimos capítulos de ‘Huckleberry Finn'."

A postura destes dez entrevistados diverge. Faulkner revela-se um mestre da palavra, controla a conversa e está seguríssimo de si. Ignora os críticos, não sente necessidade de discutir a sua obra com ninguém e, quando o entrevistador lhe diz que há quem não entenda a sua escrita mesmo após uma terceira leitura, Faulkner atalha: "Que leiam quatro vezes."

Hemingway não se importa de ser bruto para o entrevistado, não está ali para fazer fretes e só tem vontade de acabar com a conversa e voltar a escrever os seus livros de pé, como sempre fez (ao contrário de Truman Capote, que se declara "um escritor completamente horizontal", que não consegue pensar a não ser que esteja deitado). 

O autor de "O Adeus às Armas" diz ao entrevistador George Plimpton que certa questão "não era lá muito interessante" e prossegue: "Quando as perguntas são velhas e gastas você arrisca-se a receber de volta respostas gastas e velhas." Há também uma urgência de isolamento no seu discurso, mais ou menos comum a todos os entrevistados. "Quanto mais avançamos na escrita mais sozinhos estamos (...) o tempo de trabalho é cada vez mais curto; se o desperdiçamos sentimo-nos a cometer um pecado sem perdão" (pp. 119).

Lawrence Durrell é dos mais divertidos - "Leio como um jornaleiro e, quando vejo um bom efeito, estudo-o e tento reproduzi-lo. Talvez eu seja, portanto, o maior ladrão que é possível conceber. (...) ‘Panic Spring' era uma antologia, está a ver, com cinco páginas de Huxley, três páginas de Aldington, duas páginas de Robert Graves e por aí adiante". E Saul Bellow é, nas palavras de Vaz Marques, "aquele em que se sente uma maior proximidade em relação à sua voz narrativa; está lá um certo espírito analítico e um sentido de humor que lhe são muito característicos."

Leitores voyeuristas

A curiosidade de um leitor pode ser infinita. Ainda mais quando, como aqui, os autores falam dos seus métodos de trabalho, de como começaram a escrever, da técnica, do estilo e dão muitíssimas referências biográficas, neste livro enquadradas por exemplares notas de rodapé.

Carlos Vaz Marques acha que esta atracção pelo que os escritores dizem tem algo de voyeurista. "É como se nos sentíssemos a espreitar pelo buraco da fechadura. Fingimos acreditar que os autores nos estão a contar quem são realmente fora dos livros que escrevem. Entra em acção um outro mecanismo ficcional e, mais uma vez, eles podem mentir-nos que nós gostamos."

O próprio jornalista vem revelando muita da intimidade de alguns escritores portugueses através das entrevistas que faz, particularmente as publicadas na revista "Ler". E sente-se devedor desta tradição do género de entrevista literária, que parte da "Paris Review". "Todos nós, aqueles que entrevistam escritores tendo em conta o que eles escreveram (também é possível entrevistá-los sem ter lido uma linha dos seus livros, como é sabido), lhes somos devedores." E aponta o facto de as conversas se debruçarem sobre o trabalho dos autores, e não sobre trivialidades do quotidiano, como o traço que as distingue.

Para Vaz Marques, um entrevistador deve ter sobretudo "um agudo sentido de oportunidade", o que significa nunca ser apanhado em falso, saber sempre de que está a falar o entrevistado e ter a presença de espírito necessária à intervenção certa no momento certo. "Também de saber que o protagonista da entrevista é o entrevistado e não ele", lembra.

A fechar, o tradutor fala da maior dificuldade que encontrou: a entrevista a Jack Kerouac, autor de "Pela Estrada Fora" e símbolo da geração beat que a "Paris Review" encontrou um ano antes da sua morte, em 1969. "Embora não tenha chegado ao ponto de tomar anfetaminas para entender por completo aquela conversa, aceitei, pura e simplesmente, que a maior parte do que eles dizem ali não é mesmo para perceber."