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O que faz correr Valter Hugo Mãe

06.10.2011 - Inês Nadais
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Em 2006 escreveu um livro sobre a maldade e ganhou um prémio. Agora está disposto a trocar os prémios pela felicidade - não a dele, mas a das suas personagens, em quem já estava farto de dar porrada. “O Filho de Mil Homens”, admite, é o céu para onde vão as pessoas boazinhas: mas só depois de algum inferno e de muito purgatório

Quando a primeira frase do novo romance - "Um homem chegou aos quarenta anos e assumiu a tristeza de não ter um filho" - fez o seu "aparecimento muito inexplicado", Valter Hugo Mãe não achou exactamente que o que tinha pela frente era uma autobiografia, apesar de não estar muito longe dos 40 e de assumir que, enfim, "talvez não fosse um disparate ter um filho". Mesmo assim, é da vida dele que estamos a falar neste fim de tarde de segunda-feira em Vila do Conde, como se "O Filho de Mil Homens" fosse não a história do Crisóstomo, o pescador que adopta o filho de uma anã e depois se apaixona pela mulher de um homem maricas (e viveram todos, homem maricas incluído, felizes para sempre), mas a história do próprio Valter Hugo Mãe. É e não é: "Pela primeira vez, quis que um livro meu coincidisse com a minha vida, estivesse atempado comigo. Senti que essa frase podia ser a minha vida a transformar-se em ficção, a ter uma resposta literária. Mas depois tudo o que acontece ao Crisóstomo tem mais a ver com o que eu gostava de ser do que com o que eu sou. Eu sou demasiado angustiado, atormentado, feio e a engordar para ser esse homem de maravilha que é o Crisóstomo".

Escrever este livro, admite Valter já que puxámos o assunto, foi como sonhar acordado - agora que está nas livrarias e que as personagens estão a salvo, o pesadelo pode continuar. Não as massacrar, como massacrou outras personagens em romances anteriores, "foi muito difícil": "Tenho tendência para lhes complicar a vida. Desta vez fiz um pacto de não-agressão com o Crisóstomo e comprometi-me a fazer tudo o que fosse possível para ele ser feliz". O céu a que têm direito as pessoas boazinhas, portanto, mas só depois de algum inferno e de muito purgatório: "Se o livro fosse só o primeiro capítulo eles já seriam felizes para sempre. Tudo o que lhes acontece a seguir é pura maldade. Mas talvez saibamos proteger melhor a felicidade depois da experiência da tristeza; conhecer o sofrimento talvez nos torne mais atentos e menos levianos na administração da sorte que temos". Ele já conheceu o sofrimento - e a sorte - em livros anteriores. "Ganhei um prémio [o Prémio Literário José Saramago 2007, com "o remorso de baltazar serapião"] quando escrevi sobre o ódio, a matéria-prima literária por excelência. Com este livro acho que não ganho nenhum - mas gostava, isso que fique registado".

Estamos entendidos: é mais "kitsch" - e menos sexy - passar um fim de tarde a falar sobre "o incondicional dos afectos" e pessoas boazinhas que acreditam, mais do que em Deus, umas nas outras, do que a salivar em cima do mal. Paciência: "O Filho de Mil Homens" (diz ele: "o meu livro mais delicado, mais sensível, onde se procura o discurso mais terno", o que definitivamente não é conversa de cama nem para lá caminha) é o retrato de Valter Hugo Mãe aos 40 anos (uns 40 anos muito impressionáveis): "A mim impressiona-me muito a fidelidade. Nunca abandono ninguém, sou sempre deixado - ao fim de alguns anos, sou sempre demasiado feio e demasiado gordo. Este livro é uma tese para a estabilização dos amores".

Da família

Para ser verdadeiramente o céu, isto que acontece em "O Filho de Mil Homens" (o amor incondicional, a família finalmente reunida à mesa: "Parecia uma carrossel de gente em torno das cores alegres dos pratos e das comidas. Faltava que girasse. Tinha de ser uma festa, talvez fosse mesmo uma festa") tinha de acontecer ao "tipo mais à deriva" - um pescador, mas não das Caxinas, embora ande lá perto. "Estive quase para situar o romance categoricamente em Vila do Conde, mas depois achei que este ainda não era o livro das Caxinas. Ando a prometer-me a mim mesmo um dia escrever um livro passado nas Caxinas. Este ainda é muito irreal para ser de respeito para as pessoas de lá".

Ainda assim, "O Filho de Mil Homens" começa na casa de um pescador, numa noite em que ele decide que "se a natureza fosse burra não seria tão esplendorosa" e lhe pede um filho. "Eu julgava que esse primeiro capítulo talvez viesse a ser um conto ilustrado para os mais novos. Mas depois achei que não era suficiente e prossegui. Os capítulos seguintes também se comportam como contos - as personagens aparecem de forma avulsa e de repente eu vou buscá-las na sua dispersão, que é na verdade o propósito do livro. Como se até as pessoas mais díspares e mais improváveis pudessem resultar numa família", explica. Como se até ele pudesse ter um filho: "Para surpresa minha, tenho vontade de ter um filho, ou gostava de ter um filho, ou talvez não fosse um disparate ter um filho".

Mesmo não sendo ele o Crisóstomo, em parte é a família dele que se senta à mesa neste livro. A estranha língua que se fala em "O Filho de Mil Homens" - uma língua tão próxima das coisas da terra como das do céu, do esterco e do sangue como da epifania desse jantar que parece Natal - é a língua que ele sempre ouviu em casa, conta: "Na minha cabeça, as pessoas falam como as minhas tias e a minha mãe. Essa língua acabou por ser o meu padrão, o meu estilo literário. A maneira como elas se abordam, como contam às coisas umas às outras, como se aproximam da vida, o que dizem de bem e de mal umas das outras... A minha família vem dos arredores de Guimarães, de São Cristóvão de Selho. E em São Cristóvão de Selho as pessoas, sobretudo quando são muitas, geram as conversas mais exuberantes. Há sempre um agente provocador que instiga e por isso a conversa nunca é moderada". Esse excesso é a literatura dele. Vindo do Brasil, da Islândia ou da Cochinchina, Valter Hugo Mãe continua a chegar a casa e a perguntar "o que é que teve a tia Fatinha, como anda a tia Milinha, porque é que o primo já não faz mel, se as galinhas da tia andam a dar ovos...": "Por mais que tenha ataques de sofisticação e desejos de rock'n'roll, chego a casa e o universo familiar das coisas pequenas e o mundo rural onde parte da minha família vive é fulcral para o meu bem-estar. Essas coisas interessam-me - e fazem livros".

Também fazem filhos, mas Valter achou "mais prudente e mais sensato" ter um livro do que ter um filho", embora tudo seja possível, até ele "um dia andar aí de bebé no colo". E se em vez de estarmos a falar do livro que ele escreveu estamos outra vez a falar do filho que ele não teve é porque em Julho Valter foi ao Brasil tornar-se o príncipe encantado da Festa Literária Internacional de Paraty. "Quando eu disse que queria ter um filho não disse que não teria competência para arranjar a respectiva mãe nem que não tenho alguém por perto que possa ser a mãe provável. Por isso não estava mesmo à espera que as pessoas se me propusessem de forma tão categórica, com currículo e rol de bens", diz. Agora que a caixa de Pandora está, mais do que aberta, escancarada, cada entrevista é uma espécie de "interrogatório policial", esta incluída: "Um tipo entra inocente e sai culpado. Cada vez que te fazem a mesma pergunta vais mais longe na resposta". Não poderemos argumentar, em nossa defesa, que se o tipo diz, na conferência de imprensa de lançamento do livro, que está "na expectativa sorrateira de (...) ter uma casa permanente à qual voltar, uns ‘napperons' (...), aprender a fazer contas e a fritar ovos, tirar um filho das bolinhas, ou adoptar um que tenha vindo das bolinhas de outro, não importa", estava mesmo a pedi-las? "É verdade que ‘a máquina de fazer espanhóis' já tinha esta dimensão, por eu ter assumido que o livro tinha a ver com a perda do meu pai. As pessoas talvez se tenham habituado a ler os meus livros à procura de alguma intimidade - e isso agrada-me".

O "casalinho"

Agora que está um homenzinho (até já usa maiúsculas) e teve uma espécie de filho - este livro, que se não lhe trouxe a felicidade encontrou-o, pelo menos, "a achar que a vida se encaminha para uma estabilização apaziguadora e benigna" (resumindo: "Estou esquisito, estou") -, Valter Hugo Mãe vai ter outro. É uma rapariga, Atla, "porque as pessoas devem ter um casalinho", e nasceu na Islândia, onde o escritor passou uma semana em Agosto (veio de lá com uma mensagem tatuada no antebraço: "Takk", como o disco dos Sigur Rós). "Quis ir à Islândia por causa da solidão. Viver na Islândia é estar só, e e nos meus livros reflicto muito sobre essa questão. E depois impressiona-me aquela ligação mística com o espaço: a natureza ali é tão imponente que solicita um socorro espiritual. Isso impressiona-me, e escrevo sempre sobre o que me impressiona", diz. De resto, espera ficar ainda mais impressionado em Janeiro: "Quero ver as auroras boreais. E ter a experiência do Inverno, da violência das tempestades. Depois vou voltar em Junho, para ter a experiência dos dias absolutos".

É no meio dessa violência que Atla vai crescer, e ter o período - "Um escritor tem de perscrutar experiências vedadas" -, à deriva numa comunidade de 300 habitantes. É provável que acabe mal, porque no fundo Valter Hugo Mãe não acredita na felicidade: "O Filho de Mil Homens" foi uma excepção. "A felicidade é uma epifania. É como a história do orgasmo, que é maravilhoso mas terrivelmente efémero, e por isso há que repetir. Corremos todos pela oportunidade de repetir a felicidade".


Comentários
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comentario26.03.2012 - 16:06 - Maria, Brasil
A fotografia é belíssima. Estou a digerir o texto. Vivo experiências de solidão necessária semelhantes e agora tanto no Brasil como no Peru. Tenho comigo dois livros do Hugo. Gosto de ir ter de me quedar a pensar. É meio dia, sol quente e a pique, lagartos a correr no cimento. Vou voltar a ler o artigo de / sobre o Hugo.
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