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Prémio PT

Para que a rotina não deixe que se banalize a desigualdade

10.11.2011 - Isabel Coutinho
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Vencedor do Prémio Portugal Telecom de Literatura 2011 conversou com o PÚBLICO, por telefone, a partir do Rio de Janeiro. Conta como nasceu a ideia de “Passageiro do fim do dia”, o romance que recebeu esta madrugada o prémio.

O vencedor do Prémio Portugal Telecom de Literatura 2011, o escritor brasileiro Rubens Figueiredo ri-se do outro lado da linha telefónica, nesta conversa entre Lisboa e o Rio de Janeiro, quando lhe perguntámos se passou a ser só escritor e tradutor a tempo inteiro. "Não, sou professor. [risos] É o que mais gosto de fazer."

É professor de Português e tradução literária numa escola pública do Rio de Janeiro. Foi de lá que, no dia seguinte à atribuição do Prémio Portugal Telecom ao seu romance "Passageiro do fim do dia" (Companhia das Letras), contou ao PÚBLICO como nasceu a ideia deste livro em que quis abordar a questão da desigualdade social e da dificuldade de vermos os outros como iguais a nós mesmos. Nada melhor do que uma viagem de autocarro, do centro da cidade para a periferia, na hora de ponta de um dia de semana, para se abordar este tema. O autocarro percorre várias localidades da cidade e reúne pessoas numa determinada situação: em que se observam, pensam, têm experiências. Enfim, essa foi a ideia de que partiu Rubens Figueiredo para criar a sua obra.

Este livro, que já tinha sido considerado em Agosto o melhor livro do ano pelo Prémio São Paulo de Literatura, e voltou a ser premiado, na madrugada desta quarta-feira, na cerimónia de atribuição dos prémios Portugal Telecom em São Paulo, ainda não foi publicado em Portugal. Também não está disponível para compra em versão digital no "site" da editora Companhia das Letras. Mas o autor, que nasceu em 1956 no Rio de Janeiro, assinou recentemente um contrato com a sua editora brasileira para o lançamento de todos os seus livros em ebook. O seu único romance publicado em Portugal, "Barco a seco" (ed. Cotovia) recebeu o Prémio Jabuti 2002 de Melhor Romance. E aquele que é o seu editor português, André Jorge da Cotovia, poderá vir a publicar também este "Passageiro do fim do dia". Com o livro de contos "As palavras secretas" Rubens Figueiredo recebeu também, em 1998, os prémios Jabuti e Arthur Azevedo. Como se vê, o professor não é novato nesta questão de prémios e arranja tempo para ser também um dos melhores tradutores brasileiros: traduziu obras de norte-americanos contemporâneos e de autores clássicos russos (directamente do russo para o português). Rubens Figueiredo publicou um outro livro de contos, "O Livro dos Lobos", em 1994, está representado no livro "Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século" e na antologia "Geração de Noventa", organizada por Nelson de Oliveira. A sua carreira literária começou em 1986, com a publicação do romance "O Mistério da Samambaia Bailarina" no ano seguinte saiu "Essa Maldita Farinha" e, em 1990, "A Festa do Milénio".

Neste seu último romance, "Passageiro do fim do dia", a personagem Pedro apanha um autocarro do centro para a periferia, na hora de ponta, no final de um dia de semana, para ir visitar a sua namorada Rosane. A história do livro passa-se dentro deste "ônibus" urbano e durante a viagem, Pedro deixa os seus pensamentos fluírem misturando recordações com o que vai vendo à sua volta. Ao mesmo tempo está a ler um livro sobre Charles Darwin e as viagens que o cientista fez naquela região do Brasil.

"Como acontece em muitos casos a ideia deste livro partiu de uma experiência pessoal. Essa experiência é minha porque sempre andei de ‘ônibus', especialmente nos 25 anos em que dei aulas num colégio e tinha de pegar dois ‘ônibus' para ir e dois ‘ônibus' para voltar. Embora seja pessoal na origem, ela não é pessoal na própria experiência, que é muito abrangente, muito presente no nosso quotidiano", explica Rubens Figueiredo.

Essa viagem de autocarro, que o escritor fez repetidas vezes no seu passado, era num certo sentido parecida com a viagem do livro. "O que ocorreu comigo é que só depois de muito tempo comecei a perceber certas coisas [que aconteciam nessas viagens]. Percebi não só certas coisas, mas percebi também como eu havia demorado a percebê-las. Esses dois aspectos é que se somaram para que eu escrevesse este livro", conta.

De um lado, existiam os factos e as relações concretas que aconteciam nessas viagens e de outro a dificuldade que o autor tinha em percebê-las. "Por causa da repetição, da rotina, que banaliza os factos e os torna vazios de significado à primeira vista. E também pela própria diferença social que estabelece uma relação de certo temor entre as diferentes partes", explica.

É por isso que uma viagem de autocarro para desenvolver a acção do romance pareceu-lhe interessante. Reunia "num pequeno espaço uma certa diversidade de pessoas" e, além disso, tinha "o sentido do deslocamento do lugar onde as pessoas trabalham para o lugar onde elas dormem; do lugar onde elas são exploradas para o lugar onde elas deveriam viver mas apenas refazem as forças do trabalho."

O professor considera que essa viagem do centro para a periferia, que as pessoas repetem todos os dias, já é em si uma opressão. "A própria viagem é uma lição que elas aprendem todo o dia. É essa a sua vida. Isso está aqui, está aí, todo o dia acontece e temos dificuldade em enxergá-lo e aceitá-lo como relevante, como significativo" Esse foi o grande motivo para que escrevesse este livro em que a grande questão é a desigualdade. Mas a desigualdade em si, explica o escritor, é uma questão simples: enquanto uns têm muito, outros não têm nada ou pouquíssimo. "Qual é o problema disso? Onde está a complicação?", pergunta Rubens Figueiredo que quis ir mais além. Quis ir até aos mecanismos que criam e produzem essa desigualdade e aos mecanismos que a escondem e que fazem com que nos esqueçamos que ela existe. "O complicado é como esses mecanismos permeiam pequenas acções quotidianas, estão presentes em situações que vivemos repetidamente como situações banais e vazias", acrescenta.

Como queria de alguma maneira dar uma perspectiva histórica e mais abrangente às situações "tão imediatas à primeira vista" que estava a contar no seu livro colocou a sua personagem a ler um livro sobre Darwin. "Numa época, Darwin passou no Brasil e escreveu sobre essa viagem. Deixou anotações interessantes e polémicas sobre como via a sociedade ‘escravocrata' que encontrou. Assim eu podia trazer [para o meu livro], ainda que marginalmente, a questão da escravidão e a questão do colonialismo britânico", explica. "E havia mais um motivo pelo qual considerei interessante incluir Darwin, era a questão da ciência. Como a ciência e a literatura podiam servir de instrumentos para aquele mesmo processo de dominação e de justificação da desigualdade." Ou como a teoria da evolução poderia servir para justificar a desigualdade, deixando de ser uma questão científica para ser uma questão social: "Que mecanismos existem para justificar as desigualdades, para justificar milionários? Tentei colocar tudo isso, dar uma abrangência ao livro."

Este aproveitamento do Darwin é ficcional, não se trata de um romance histórico. Rubens Figueiredo conta que até os logradouros mencionados no seu livro são ficcionais. A descrição física que faz dos locais também é imaginária. A personagem não diz o nome do lugar onde está nem sequer o país. Mas diz que Darwin passou ali.

"Podem dizer que não faz sentido... mas eu acho que faz. Embora os nomes dos logradouros não correspondam a nenhum logradouro real, e ele nunca mencione a cidade onde está, nem mesmo o país, há uma coisa que vai ficando implícita e que não está ostensiva. Os elementos concretos que compõem esse cenário são esses que a gente reconhece, todos nós reconhecemos quando olhamos em volta. Então, o nome é o que menos importa."