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Ruta Sepetys e a identidade perdida

10.11.2011 - José Riço Direitinho
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“Um Longo Inverno” é um testemunho da crueldade do regime de Estaline para com os lituanos deportados para os “gulags” e para os campos de trabalho siberianos. Mas é também o resultado do esforço da americana Ruta Sepetys para completar a sua identidade

A americana Ruta Sepetys (n. 1967), de ascendência lituana, é a autora do romance "Um Longo Inverno" - que narra as agruras e sofrimentos de Lina, uma jovem de 15 anos, que foi deportada durante as purgas estalinistas para campos de trabalho siberianos, como centenas de milhares de lituanos, depois de o país ter sido anexado à URSS em 1940. Muitas das histórias narradas foram inspiradas em relatos de sobreviventes, homens e mulheres, alguns deles seus familiares, que ela conheceu quando se encontrava em trabalho de investigação. Com todo o material recolhido, incluindo documentação manuscrita e fotografias, a autora poderia ter escrito um livro de não-ficção. O que a levou a optar pelo romance? "Quando comecei a entrevistar os sobreviventes, eles não falavam sobre aquilo que lhes acontecera desde há 60 anos. Estavam ainda cheios de medo. Era como se Estaline ainda existisse, e a sua sombra fria se mantivesse estendida sobre eles". E continuou: "Eles disseram-me: ‘Ruta, conto-te o que se passou mas tu tens que me prometer que não usas o meu nome.' Para honrar esse compromisso, tive que criar personagens ficcionais a viverem as situações pelas quais eles de facto passaram. Mas não há dúvidas de que quando essas pessoas lêem o livro, elas dizem: ‘este sou eu'. Eles sabem."



Experiência extrema

A investigação feita não se limitou a entrevistas e arquivos. Ruta visitou lugares, imaginou as condições dos campos, e quis saber das condições dos deportados, para isso sujeitou-se a uma experiência "extrema": ficar fechada durante 24 horas numa antiga prisão soviética na Letónia, com um grupo de alunos universitários letões (também no papel de prisioneiros), e, claro, não podiam faltar os "carcereiros" a desempenharem o seu papel. "Eu estaria a ser desrespeitosa se dissesse que experimentei qualquer coisa como um ‘Gulag'. Aquilo não era, nem se aproximava disso. Mas pensei que seria interessante estar numa prisão, sentir o tamanho das celas. Era pura investigação física. Sentir a brutalidade física e mental de uma prisão soviética." Mas obviamente que as condições não poderiam ser reproduzidas, a duração da "brincadeira" seria de apenas 24 horas, e nesse tão curto período não se pode experimentar a fraqueza física que a falta continuada de alimentação, aliada ao esforço do trabalho, trazem.

"Eles tinham que nos levar para um nível de fraqueza próximo do nível dos prisioneiros reais. Então recorreram à brutalidade física. Eles batiam-nos. Eu não estava preparada. Quando aquilo aconteceu, mudei, transformei-me numa pessoa completamente diferente. Eu pensava ser corajosa. Mas fui cobarde e não fui capaz de ajudar ninguém." Uma experiência que lhe deixou marcas profundas, confessa: "Até hoje, continuo chocada comigo própria. Numa atmosfera de crueldade, eu fui cruel. Isso ainda hoje me perturba bastante, saber que poderia ter ajudado alguém e que não o fiz. Eu só estava preocupada comigo própria. Quando comecei a pensar em escrever o livro, achei que ia descobrir factos históricos que não conhecia, mas acabei a descobrir-me a mim própria. Esta ‘experiência' deu-me um respeito ainda maior por aqueles que ajudaram outros, com grande risco da própria vida, como me contaram os sobreviventes."

"Um Longo Inverno" (o título original é "Between Shades of Gray"), mais do que uma história de sofrimento e esperança, ou de um relato ficcionado da vida dos deportados lituanos por um regime opressor e ocupante de um país, é uma tentativa de reconstruir uma parte da identidade da autora. Filha e neta de refugiados, com um nome que na América sempre lhe soou estranho, foi à Lituânia mais em busca de "memórias" do que de histórias para contar. Apesar de ter encontrado familiares, não encontrou as fotos que lhe faltavam para completar um puzzle identitário. "Fui à Lituânia para encontrar membros da minha família pela primeira vez. E achei que seria interessante que eles me mostrassem algumas fotografias do meu pai. Nós não temos fotografias do meu pai em criança, porque a partir de determinada altura ele viveu em campos de refugiados. Pensei, também, que talvez tivessem retratos dos meus avós. Quando pedi para ver fotografias da família, tiradas antes desses anos, eles entreolharam-se e disseram: ‘Ruta, nós tivemos que queimar todas as fotografias do teu pai e dos pais dele, porque o teu avô era do exército lituano e estava na lista de Estaline. Se eles descobrissem, pelas fotos, que nós tínhamos laços familiares seríamos também seriamente punidos." Acabaram por sê-lo, cada um à sua maneira. Mas "Um Longo Inverno" veio salvar-lhes as memórias de um tempo que ainda não foi esquecido.