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NUNO FERREIRA SANTOS
Opinião

Terá a universidade monopolizado a vida cultural?

04.05.2012 - Diogo Ramada Curto
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É urgente que a universidade assuma as suas responsabilidades em relação à sociedade. Mas para isso é preciso que rompa com o autismo que as disputas de carreira impuseram, com as pretensões narcísicas do marketing e com os confinamentos disciplinares

Levei tempo a perceber. Durante a minha licenciatura em História em finais dos anos 70, pairava uma espécie de desprezo, que chegava a transformar-se em ódio, em relação às ideias dos chamados "ensaístas". António Sérgio, à cabeça, com a sua dispersão de interesses e a sua aparente desatenção às fontes, era um deles. É certo que ele próprio dera o flanco, pois, para sublinhar uma prática de pesquisa crítica e problematizadora, denunciara a "sabença fictícia do pseudoculto", ou seja, a erudição e os saberes confinados. Mas os mesmos ataques pesavam também sobre Jaime Cortesão, de quem cheguei a ouvir dizer - da boca de um professor, bem medíocre, aliás - que não passava de um autor de ensaios, que careciam de verificação documental. Completava o elenco, de forma nunca totalmente explícita, mas como se se tratasse de uma insinuação acerca de outro autor de ensaios, Vitorino Magalhães Godinho. Numa análise a empreender, um dia, acerca das imagens malditas dos ensaístas, terá também de se incluir, tanto pela sua dispersão como pela sua suposta falta de carácter sistemático, Alfredo Margarido.

Como muitos outros da minha geração, desde os meus tempos de liceu, tinha começado a ler Sérgio e Cortesão. E passei os meus anos de licenciatura a perguntar-me por que razão não ensinava Magalhães Godinho no Departamento de História. Ora, se começo por falar da minha experiência particular, é apenas porque acho que ela faz parte de uma questão mais geral, a saber: porque é que a universidade, com as suas tentativas de se fazer reconhecer como uma instituição central de produção e de difusão de um saber legítimo, procurou, nos últimos 40 ou 50 anos, monopolizar a vida cultural?

À primeira vista, a resposta a uma tal questão parece ser simples: a universidade, com as suas hierarquias, os seus protocolos auto-referenciais e os seus projectos científicos, ter-se-á estabelecido, pura e simplesmente, contra uma configuração de saberes e de formas de comunicação anterior, na qual os ensaístas tinham ocupado lugar e destaque. Sérgio e Cortesão, por exemplo, sem dúvida dois dos maiores intelectuais portugueses da primeira metade do século XX, tinham trabalhado e exercido a sua influência fora da universidade. Enquanto Godinho e Margarido, uma geração abaixo, foram marginalizados pela universidade portuguesa, tal como ela se organizou desde a Segunda Guerra Mundial. Marginalização que os levou ao exílio, ao desemprego e a uma série de ocupações precárias durante o fascismo - ou seja, a integração universitária destes dois últimos acabou por ser feita, mas fora de Portugal, o que lhes valeu o estatuto de estrangeirados. Estrangeirado foi também tido - mas noutros domínios - esse outro maldito, enquanto homem difícil, quase impossível de aturar, que foi Jorge de Sena.

Na década de 70, Jorge Borges de Macedo - professor da Faculdade de Letras de Lisboa e um dos representantes máximos de uma cultura oficial, que se pretendia conservadora - veio sustentar, contra António Sérgio, que a dinâmica da cultura portuguesa pouco ou nada era tributária do papel dos estrangeirados. Um argumento polémico desta natureza tem valor indiciário: como se os saberes universitários, representados pelas faculdades de letras e de orientação bem conservadora, para se afirmarem, tivessem de anular o trabalho dos ensaístas e dos estrangeirados. Dois coelhos eram, assim, mortos de uma só cajadada...

Claro que durante os anos 80 e 90, no Porto, em Coimbra e em Lisboa, universidades e institutos organizaram-se, muito para além de uma tal orientação conservadora (esta sempre receosa do que se fazia lá fora e sempre solícita na afirmação de uma qualquer tradição nacional). É, pois, indiscutível reconhecer que a universidade cresceu depois do 25 de Abril. E as possibilidades abertas pela contratação de jovens assistentes e investigadores criaram, sem dúvida, a sensação de que se iniciava uma nova época, que corresponderia a uma espécie de crescimento sem limites. Do ponto de vista da investigação histórica, o maior dinamismo parecia estar, pelo menos potencialmente, no contacto com as ciências sociais - sociologia e antropologia à cabeça. Aqueles foram anos dourados também para a antropologia e a etnografia, conforme pode ser demonstrado por essa grande lição de profundidade analítica, de abertura e de trabalho colectivo que foi a colecção Portugal de Perto, dirigida por Joaquim Pais de Brito e editada pela Dom Quixote.

Apesar da minha dificuldade em definir aqueles anos como uma espécie de idade dourada, reconheço que, se existiu então uma série de potencialidades, elas foram contrariadas por outras forças. Ora, é destes obstáculos que gostaria, agora, de falar. Pois são eles que explicam em que moldes é que essa mesma universidade se organizou para moldar, pelo menos em parte, a vida cultural.

O ensino e a investigação nas áreas de ciências sociais e das humanidades reproduziram a antiga lógica das faculdades de letras, ou seja, desenvolveram-se em departamentos estanques, onde os cruzamentos interdisciplinares sempre tiveram valor de fachada. Esta departamentalização dos saberes - a revelar uma cultura bem institucionalizada do medo, do dividir para reinar e da falta de abertura em relação aos valores democráticos promotores do mérito - acabou por servir duas finalidades. Por um lado, promoveu uma série de chefes de escola de quarta categoria que, com um misto do pequeno poder dos porteiros de boîte e de zelo burocrático, se mostraram ufanos do seu reconhecimento mais narcísico. Por outro lado, o quotidiano das universidades passou a estar determinado por hierarquias de quem chega primeiro e ocupa o lugar, gerando um individualismo desenfreado. Enquanto organizações, as universidades acabaram, assim, por esquecer os critérios mais meritocráticos, por suscitar os sentimentos associados ao oportunismo e aos golpes, contrariando a formação de qualquer espírito crítico e de uma cultura mais colectiva de seminário e de discussão. Em suma, a educação universitária no contacto com a investigação, a centralidade do livro e da leitura vigilante e a formação de um espírito colectivo de entreajuda nunca se impuseram dentro dos muros da universidade. A sebenta, o livro único, o despotismo da palavra do professor, com as suas verdades narcísicas, uma retórica associada a malabarismos da memória continuaram a impor-se, como sucedera nas antigas faculdades de letras.

Claro que, neste cenário catastrófico, sempre existiram ilhas de excepção. Mas os obstáculos que a universidade produziu assumiram um papel central e não se limitaram a meras questões de organização interna. Há que procurá-los num plano das ideias ou das correntes de pensamento. Mais concretamente, um certo entendimento do que foi o pós-modernismo, enquanto orientação de uma New Age estilhaçada em fragmentos, acabou por contribuir também para um reforço de duas tendências (quando a mesma orientação poderia ter sido utilizada para a formação de articulações mais experimentais entre saberes). Primeiro, a fragmentação foi tomada por uma justificação das divisões de saberes, ou seja, foi posta ao serviço da referida departamentalização; assim, as carreiras encontraram uma base de legitimidade no isolamento das especialidades e das subdisciplinas, na ausência de inter-relações e de um modo de funcionar cruzado ou colectivo. Segundo, o exacerbamento das representações contribuiu para um empolamento do estatuto das disciplinas e dos seus chefes de escola, considerados como os principais agentes do conhecimento, em detrimento da função do real.

A propósito das representações, uma outra associação de valor indiciário pode ser enunciada: como é que a universidade e os universitários se relacionaram com os meios de comunicação? A este respeito, e com a força da simplificação, não terá sido por acaso que se assistiu a uma multiplicação dos programas de ensino e de investigação em comunicação, os quais adquiriram uma cotação desmesurada no mercado académico. A sua institucionalização académica processou-se, no entanto, nos mesmos moldes em que se reproduziram os velhos modelos das faculdades de letras, ou seja, a partir de uma lógica bem departamentalizada e confinada disciplinarmente. Num outro sentido da mesma relação entre academia e imagem, vários foram os casos de professores e investigadores que, na sua ânsia de aparecer nos meios de comunicação e na sua disponibilidade para construir a sua imagem a partir dos órgãos de comunicação social, se convenceram de que correspondiam na realidade às imagens de marketing que sobre eles foram produzidas. Tudo isto num regime de submissão a uma lógica que estará mais próxima do festival da canção ou do mercado das audiências do que da intervenção ética e política responsável.

Para concluir, talvez valha a pena voltar a Sérgio, Cortesão, Godinho e Margarido. O exemplo dos seus ensaios - da sua abertura a um conhecimento crítico, das suas preocupações científicas em relação à enunciação de hipóteses e à utilização de instrumentos de prova que, ao contrário do que me diziam durante a licenciatura, sempre os preocupou - estimula-nos a pensar numa configuração de saberes orientados para a interrogação do real e, sem cair em anacronismos, para um modo de pôr os problemas a partir das grandes interrogações do presente. É urgente que a universidade assuma as suas responsabilidades em relação à sociedade, rompendo com uma espécie de autismo que as ansiedades internas pelas carreiras impuseram. Para isso, tem de fugir às pretensões narcísicas favorecidas pelas imagens de marketing, bem como ao circunstancialismo dos confinamentos disciplinares, enquanto ponto de fuga de carreiras de um cinzentismo evidente, e recuperar os ensinamentos de tantos estrangeirados. Sobretudo, dos mais jovens. Esta última tarefa - em parte já empreendida nas áreas das ciências exactas e de laboratório - impõe-se com particular urgência, num momento em que a retórica da internacionalização, que invadiu as universidades e os institutos de investigação, continua a esconder, numa grande maioria dos casos, pequenas estratégias de defesa de conhecimentos e de modos de organização bem paroquiais...