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RUI GAUDÊNCIO

Compreender Pessoa

20.06.2012 - José Paulo Cavalcanti Filho
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Na sequência da crítica publicada por Teresa Rita Lopes neste mesmo suplemento, ainda a polémica em torno de Fernando Pessoa, uma quase autobiografia.

A professora Teresa Rita Lopes é, sem dúvida, uma grande especialista em Fernando Pessoa. Por isso a entrevistei em sua sala, à Universidade, na preparação de meu livro Fernando Pessoa, uma quase autobiografia (Porto Editora, 2012). Conversa agradável, de quase uma tarde. Ao fim dela, levando à porta a mim e a minha mulher, advertiu (as palavras seguramente foram estas, ou quase): "E o senhor se prepare que, em Portugal, os intelectuais gostam de brigar dando cotoveladas". Sabia do que falava, agora se vê. O que não esperava é que falasse de si. Só que vai brigar sozinha. Primeiro, porque não tenho mais essa alma juvenil da professora. E, desde muito, substituí a linguagem rude, própria dos tempos de estudante, por um estilo mais contido. Diferentemente de seus cabelos vermelhos, os meus são já brancos. Não tenho mais prazer em duelos como os da cavalaria. Fui ministro da Justiça, o que num país como o Brasil não é fácil. E, hoje, sou um dos sete membros da Comissão da Verdade, designada pelo Congresso Nacional e pela Presidenta da República, para reescrever a história do país, nos anos de chumbo da ditadura. Segundo, porque o tempo me fez bem. Ensinou a ser tolerante com os outros, a compreender que nos enriquecemos com as diferenças, sobretudo ensinou a contemplar a natureza humana com mais serenidade. Apesar disso, em respeito aos leitores, vejo-me obrigado a uma resposta.

Antes de tudo, para quem ainda não leu o meu livro, relembro que Octavio Paz, comparando a insignificância de sua vida com a grandeza da obra de Pessoa, diz que "a sua obra é sua biografia". Isso é verdade, claro. Mas não é verdade inteiramente. Porque, atrás da obra, há um homem que dorme, acorda, se veste, trabalha, almoça e sonha. E quem seria, afinal, este homem? A obra de Pessoa está já bem estudada. Inclusive por autores como a professora. O homem não. Permanece quase um desconhecido. Foi em busca deste homem que consumi quase dez anos de minha vida, com paixão, buscando a exactidão humanamente possível. Contratei historiador e jornalista, em Portugal, para colaborar no texto, evitando erros. E o resultado foi bom. O livro ganhou todos os prémios literários no Brasil, inclusive o da Academia Brasileira de Letras. Todas as críticas em revistas (com pelo menos quatro páginas cada), bem como os 102 artigos de jornal em dois meses, todos em página inteira ou meia, foram favoráveis. Estavam todos errados, agora se vê. A crer nas palavras da professora.

É que queria saber o que pareceu sempre desimportante aos autores portugueses. Quem era mesmo aquele homem que compensava o desastre do físico com uma extrema vaidade no vestir. Sem dinheiro para tanto, reitero. Em seu diário se podem ler frases como "sem jantar, por não ter dinheiro". E os homens vestidos de vermelho da Procural, empresa especializada em cobranças de clientes morosos na arte de pagar suas contas, viviam em seus calcanhares. Qual a tabacaria da Tabacaria (a Habaneza dos Retrozeiros). Quem era o dono da Tabacaria (Manuel Ribeiro Alves). E quem era o Esteves que com ele conversava (um vizinho, Joaquim). Por aí. A professora imagina que isso corresponde a "avacalhar" Pessoa. Desde muito não escuto essa palavra. E não é. Resulta só num exercício de amor incondicional ao génio absoluto que é Pessoa. Para a professora, melhor seria aprisionar o homem num arquétipo, um modelo ideal de perfeição. Mesmo sabendo que isso corresponde a algo falso. De minha parte, respondo com a verdade. Quase tudo está documentado. Ou foi já descrito por outros autores portugueses. O mais foi resultado de um trabalho de mouro conferindo fontes, lugares e textos de Pessoa em algo que bem poderia ser definido como "arqueologia literária" . Se isso existir, claro.

Como não será possível responder a tudo, por falta de espaço, escolho alguns temas. A começar pelos heterónimos. E começo por referir algo até engraçado. É que usei, na definição desses heterónimos, exacta e precisamente os mesmos critérios definidos pela professora na sua obra fundamental a todo estudioso, "Pessoa por conhecer". Os mesmos, rigorosamente. Assim estão os que assinaram livros de sua biblioteca particular. Os que assinaram poemas e charadas em seus jornaizinhos. Ou assinaram textos. Problema, para a professora, é que ela leu com pressa. Aliás, as primeiras críticas escreveu sem mesmo ler o livro. Depois pediu um exemplar à editora. Mas seria impossível ler com calma tantas páginas, a tempo de publicar essa crítica.

Para começar, o leitor verá que há diferença entre o que no livro são nomeados heterónimos, todos indicados por números; e outros que não chegam a tanto, personagens de contos, outros nomes de um mesmo heterónimo, estes indicados por sinal gráfico diferente, asterisco. Impossível confundir as duas relações - postas em ordem alfabética, no livro, só para simplificar a leitura. Qualquer leitor em boa fé poderá comprovar. A professora não viu isso. Só assim se explica ter dito que os nomes estão repetidos. E digo isso em favor da professora. Porque, não sendo assim, então terá escrito sabendo que diz algo incorrecto, só para impressionar os leitores. Em outros casos, só a pressa explica suas palavras. Fico em dois casos. Primeiro o Padre Mattos. Segundo consta, terá mesmo havido certo padre José Lourenço de Matos, nascido em 7 de janeiro de 1893, na aldeia de Folques. Escreveu sete livros, findou seus dias deportado e escreveu no jornal A Palavra. Problema é que, e a professora sabe disso, esse jornalzinho foi escrito à mão pelo próprio Pessoa, em 1902. Em papel tão fino que temi se desfizesse quando o consultei, na Biblioteca Nacional. Assim, para sustentar ser não uma coincidência (como suponho) mas referência a uma pessoa real (como supõe a professora), teríamos o prodígio de que, com pouco mais de oito anos, já ser padre o tal senhor e já ter escrito sete livros. Decida o leitor qual a hipótese mais provável.

Outro é C. Pacheco. Claro que existiu mesmo um José Coelho de Jesus Pacheco, com biografia de sua vida económica por mim descrita, no livro. Problema é saber se o poema Para alem d'outro oceano foi escrito por dito senhor em carne e osso ou por Pessoa, que o assinou aproveitando seu nome - um estilo que se repete com frequência, na sua heteronímia. A favor de ser mesmo do tal senhor, temos que sua neta, Ana Rita Palmerim, localizou em seus pertences uma cópia à mão do tal poema. O que, a rigor, não é prova definitiva. Podendo dar-se que José Coelho, achando curioso o nome do heterónimo, tivesse feito cópia dele. Em favor de ser de Pessoa, temos vários argumentos. O estilo, próximo ao seu. A pobreza literária do José Coelho real, que se vê na revista que dirigiu, A Renascença, de 1914. A carta (de 20 de Fevereiro de 1915), dirigida a Pessoa, em que não fala do poema. O tema, falando em rebanhos de ovelhas, semelhante ao Guardador de Caeiro. Sem contar que Pessoa usou quase as mesmas palavras em poema anterior, Falou Deus, de 1 de Fevereiro de 1913 : "Em que barca vou/ P'ra Além do Oceano". A professora tem certeza do que afirma, sem se dar ao trabalho de opor argumentos. De minha parte, em posição mais humilde, deixo ao leitor decidir. Tanto que encerro esse texto, no livro, dizendo que, caso o leitor considerar ser o poema mesmo do José Coelho, então "anote-se, na extensa galeria dos heterónimos de Pessoa, um a menos". Penso que é mais justo.

Haveria tanto mais a dizer, só que não quero cansar o leitor. Apenas uma observação mais. Não afirmo que Pessoa escreveu os poemas que vendeu ao judeu russo Eliezer Kamenesky. Isso quem diz é o senhor Ernesto Martins, que tem loja de livros raros, a Biblarte, em São Pedro de Alcântara, 71, no Bairro Alto, ao cimo do Elevador da Glória. E está bem vivo. A mim cabe apenas a transcrição de um depoimento. Se for conversar com ele, professora, Martins também lhe dirá em que grau de consumo de álcool chegava nosso poeta à loja, então propriedade do próprio Kamenesky. E se tivesse a ventura de conversar com António, filho do barbeiro Manassés, ou com Carlos "Bate Chapa" Campos, seu amigo, ouviria também relatos similares. Claro que, tendo enorme resistência aos efeitos do álcool, não era um "bêbado", no sentido de alguém que tropeça ou fala enrolado. Enfim, esse debate cabe em outro foro.

Dando os trâmites por findos, apenas acrescento que não tenho interesse em voltar ao tema. Sobretudo porque, para além de eventuais diferenças, há algo maior que nos une, esse amor incondicional pelo génio absoluto que foi, e é, Fernando Pessoa. Viva Portugal, então, que haverá de "cumprir-se", palavras de Pessoa, na sua utopia do Quinto Império. E viva Pessoa, claro. Para sempre.