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JP Simões tornou-se o grande escritor de canções de um país que gostaria imenso que os grandes escritores de canções não tivessem a desconfortável mania de desvelar as pequenas hipocrisias que nos fundam.Depois de dois discos com os Belle Chase Hotel e um com o Quinteto Tati, J.P. Simões lançou-se a solo com "1970", extraordinário disco de homenagem à canção Chico Buarqueana, que colheu os moderados encómios que um país pequeno, medíocre e mesquinho pode dispensar aos seus génios (desde que eles não incomodem).
"1970" trazia um Simões menos atreito à ironia amarga e mais adulto no sentido em que deixou de esconder a tristeza em que as suas canções sempre se fundaram. Alguma "inteligentsia blasé" perguntou-se, com certo temor existencial, se depois de disco tão honesto este moço pouco confiável voltaria ao porto seguro do bom cinismo.
Mas o famoso problema do difícil segundo disco foi resolvido de maneira inóspita: "Boato" é a gravação de dois concertos ao vivo no Jardim de Inverno do Teatro São Luiz (Lisboa), e do seu alinhamento contam canções do segundo disco dos Belle Chase ("Toillete des Étoiles"), do Quinteto Tati, de "1970" e uma data de canções nunca gravadas, que pertenciam à "Ópera do Falhado" (que JP escreveu e levou à cena) e outras que estavam esquecidas na gaveta - todas traduzidas para piano, guitarra e a ocasional trompete. Há duas excepções: as canções que abrem e fecham o disco vêm de um concerto a solo de há muitos anos e nelas JP é acompanhado por uma orquestra. Deus, como o luxo, fica bem a este vagabundo da melancolia: em "Canção do jovem cão" (em que é acompanhado por Manuel João Vieira) a linha melódica dos violinos tem flautas em contra-ponto capazes de pôr meninas coquetes a chocalhar ombros desnudos, em fundo há uma deliciosa linha de baixo, as vozes assentam na perfeição e na ponte há metais e sopros com cheiro a cabaret. É uma tremenda canção e, presume-se, reside aqui o futuro de JP. No resto do disco temos um desfilar de preciosas melodias que vestem tristes sinas e anónimas tragédias.
As canções vindas da "Ópera do Falhado" distinguem-se pelas suas longas frases melódicas em ascensão, trespassadas por uma angústia seca. Entre os inéditos domina uma doce e sedutora melancolia, seja quando a canção se veste de tango ou de vaudeville ou de bossa: não há uma melodia fraca, não há dicção que não seja imaculada.
JP Simões tornou-se o grande escritor de canções de um país que gostaria imenso que os grandes escritores de canções não tivessem a desconfortável mania de desvelar as pequenas hipocrisias e misérias que nos fundam. Talvez JP devesse escrever umas coisas positivas.. Como a Madonna. Ou assim.
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