Clássica

Rigor e ousadia

  • Obra para Piano
  • Schoenberg
  • Madalena Soveral (piano) Açor EMTCD 133/08

Crítica Ípsilon por:

Cristina Fernandes

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1 de 1 pessoas acharam útil a crítica que se segue.
Sólido contributo no âmbito da escassa discografia da obra pianística de Schoenberg

O lugar relativamente reduzido que a música de Schoenberg ocupa na vida musical actual contrasta com o forte impacto que esta teve no desenvolvimento da linguagem do século XX.

Uma interessante reflexão sobre esta questão é fornecida pelas notas explicativas de António Pinho Vargas que acompanham o recente CD de Madalena Soveral. A discografia é também bastante parca no que diz respeito às peças pianísticas de Schoenberg, contando todavia com marcos importantes nas versões de Pollini e Glenn Gould. Merece igualmente atenção o registo de Peter Hill na Naxos.

Neste contexto, o disco de Madalena Soveral (pianista com uma forte afinidade com a música do século XX) é um caso único no panorama português e reveste-se de alguma singularidade a nível internacional. Mas a ousadia não serviria de muito se não fosse acompanhada pela consistência e pela qualidade da interpretação. Ao contrário do que os melómanos que continuam a viver confortavelmente no período temporal que vai de Bach a Rachmaninov possam pensar, a música de Schoenberg é muito pianística e um mundo que revela novas surpresas em cada audição.

Tem também a particularidade de acompanhar todas as etapas criativas importantes do compositor: o atonalismo livre e o Expressionismo nas Três Peças op. 11 (1909) e nas Seis Peças op. 19 (1911), o dodecafonismo nas Suites op. 23 e op. 25 e a súmula de tudo isto nas Peças op. 33A e op. 33B (1930). Madalena Soveral opta por uma leitura bastante objectiva e incisiva de todo o conjunto, incluindo das op. 11, abordadas por outros pianistas de forma mais poética e com um tratamento mais minucioso da sua imensa paleta dinâmica.

O rigor dos detalhes e a transparência polifónica imperam nas restantes obras e a verve rítmica da pianista quadra-se bem com a Suite op. 25, onde se destaca a Musette e a Giga. Soveral é igualmente convincente na expressão instantânea dos aforismos da colecção op. 19 e confirma o sua proficiência técnica nos grandes desafios das Peças op. 33.