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Jazz

Chama imensa

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Crítica Ípsilon por:

Nuno Catarino

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6 de 6 pessoas acharam útil a crítica que se segue.
Magnífico manifesto de liberdade, poesia e emoção

Ouve-se um rugido de saxofone, que grita sozinho, poderoso. Pouco depois chegam piano e percussão (levezinha, ao fundo), tentando articular um diálogo, que vai crescendo lentamente. Passados uns minutos entram os outros: vários sopros, um turbilhão sonoro; mas acabamos por voltar ao início, lá está o saxofone como âncora. Ao segundo tema chega a voz, de início trémula, depois segura, num registo spoken word, dilacerante sobre um tapete instrumental. É assim que arranca o álbum, que logo nas duas primeiras faixas desvenda uma ampla diversidade de sons e ambientes.

Este disco está estruturado numa narrativa de escravatura, contada a partir da primeira pessoa. Trata-se do capítulo inicial da ambiciosa série "Coin Coin" (estão prometidos doze volumes), com a saxofonista Matana Roberts a edificar um sólido manifesto sobre liberdade, aplicando a mesma à sua música. Partindo de uma base jazzística (fora do cânone oficial), esta música dilui fronteiras, articulando a ferocidade do free jazz, evocando a alegria das marching bands de New Orleans, integrando um carácter profundamente espiritual.

Para este álbum a saxofonista natural de Chicago reuniu uma improvável big band, um grupo de músicos oriundos não só do universo jazz, também dos mundos do rock e da improvisação. Independentemente das origens, os músicos adoptam uma postura operária, construindo colectivamente uma música que, além da beleza e poesia intrínsecas, se caracteriza pela capacidade de explorar as emoções. Este conjunto de composições convoca sentimentos à flor da pele, atravessando estados de espírito sempre no limite: mágoa, raiva, alegria, lamento ou ternura (ouça-se a dedicatória à mãe, no tema redentor que encerra o álbum).

Poderá ser enquadrada na tradição de intervenção social ou mesmo celebração/lembrança da história, mas a música vale por si mesma e Matana já nada deve ao passado - nem aos clássicos. Se como instrumentista já tinha confirmado o seu altíssimo valor (palhetista criativa, ayleriana, revelada em discos como "The Calling", "The Chicago Project" e "Live In London"), este magnífico monumento musical confirma-a como astuta líder e compositora minuciosa, que aqui alcança a sua primeira obra-prima. Ser saxofonista é ter na alma uma chama imensa.