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Braço-de-ferro

  • Cancer4Cure
  • El-P
  • Fat Possum

Crítica Ípsilon por:

Gonçalo Frota

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1 de 1 pessoas acharam útil a crítica que se segue.
"Cancer4Cure" é disco de um homem que dorme com uma consciência a alfinetar-lhe a cabeça

Quando El-P se juntou ao pianista Matthew Shipp em 2004 para um prodigioso encontro entre o hip-hop instrumental e o jazz de vanguarda, a tendência natural foi pegar num bisturi e retirar com normalidade da biografia de Jaime Meline o pormenor que fornecia a ponte óbvia entre os dois: o facto de o músico de Brooklyn ter por pai o também pianista de jazz Harry Keys, aliás Harry Meline. Algo que, injustamente, desviava a atenção do que realmente interessava em "High Water": a partilha de universos obsessivos, saturados, desesperados até, numa cópula furiosa e culpada com as sombras. Tanto os desenhos harmónicos de Shipp como a manipulação sonora de El-P sempre soaram igualmente claustrofóbicos e, no limite, quase insuportáveis de digerir.

Muito desse espírito de "High Water" é espelhado na restante discografia de El-P e "Cancer4Cure" - ou não carregasse pesadamente um título deste calibre - não lhe escapa ao manto de penumbra. O álbum, processo de luto transposto para a música, é assumido por El-P como um braço-de-ferro entre si e a lugubridade, numa luta para não se deixar invadir totalmente. E não sendo tão arrojado quanto foram as primeiras gravações dos Cannibal Ox e de Aesop Rock para a sua Def Jux - editora que durante uma década foi fundamental no contraponto underground a um hip-hop aburguesado e amarfanhado pelo estilo de vida Hollywoodiano -, El-P mantém-se firme e independente no seu percurso singular.

Depois de escarrapachar no anterior "I''ll Sleep When You''re Dead" uma latejante veia rock - com participação de Trent Reznor (Nine Inch Nails), Omar Rodríguez-López e Cedric Bixler-Zavala (Mars Volta), James McNew (Yo La Tengo) ou Cat Power -, "Cancer4Cure" retém desse registo uma constante energia rock que perpassa todo o disco, com guitarras a nascerem como cogumelos mas sem tomarem as rédeas. A par disto, El-P afia a língua antes de falar e não se limita às banalidades inofensivas e inconsequentes escutadas pela maioria dos microfones. Em "For My Upstairs Neighbor" ("Mums the Word"), por exemplo, coloca-se num interrogatório policial como potencial testemunha de uma situação de violência doméstica descambada em crime, para logo a seguir, longe dos ouvidos da polícia, voltar atrás no tempo e ouvir-se sussurrar ao ouvido da sua vizinha vítima de abusos repetidos que, se um dia responder à letra, ele não a denunciará: “If you kill him I won''t tell”.

"Cancer4Cure", que será sempre mais facilmente recordado pelo vício que é ouvir até à exaustão "The Full Retard", é pois disco de um homem que dorme com uma consciência a alfinetar-lhe a cabeça. Culpa? Apenas a de eventualmente não escrever e dizer o que lhe vai lá dentro. Fazendo-o prolongará sempre o braço-de-ferro.