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De volta ao mundo

  • A Um Deus Desconhecido
  • Sétima Legião
  • Capitol, distribuição EMI

Crítica Ípsilon por:

Jorge Mourinha

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7 de 8 pessoas acharam útil a crítica que se segue.
Aproveitando a recente reformação para uma série de concertos, a seminal discografia dos Sétima Legião vê finalmente reedição digna

Aproveitando a recente reformação dos Sétima Legião para uma série de concertos, a seminal discografia de um dos projectos mais singulares da música moderna portuguesa vê finalmente reedição digna (enfim, relativamente) do seu estatuto. E bastaria apenas o restauro do som para a recomendar fervorosamente: os CD originais de "A um Deus Desconhecido", "Mar d''Outubro" e "De um Tempo Ausente" datavam dos primórdios do formato, e podemos agora finalmente ouvi-los como nunca os ouvimos (nem mesmo em LP) e descobrir todas as subtilezas da produção sábia de Ricardo Camacho.

Mas há outra questão: redescobrir estes álbuns, agora, todos estes anos depois, será possível? Será possível distanciarmo-nos o suficiente de uma obra cujos momentos mais conhecidos e populares se instalaram de tal modo na memória colectiva que talvez já não seja possível ouvi-los como se nunca os tivéssemos ouvido?

Talvez seja por isso que, dos cinco, os que melhor resistiram ao tempo sejam o primeiro e o último. "A um Deus Desconhecido" (1984) estava no ponto exacto de intersecção entre as influências vindas de fora e o individualismo ferrenho de fazer algo pessoal e intransmissível. É o “elo perdido” entre os “urbano-depressivos” britânicos do imediato pós-Joy Division e as vanguardas europeias do romantismo existencialista que os bretões Marc Seberg encarnaram como ninguém. 15 anos depois, "Sexto Sentido" (1999) estava no ponto exacto de intersecção entre as electrónicas ambientais e texturadas e o fascínio da tradição popular. É o encontro improvável entre a iconoclastia folk dos Gaiteiros de Lisboa e as bandas-sonoras inexistentes de Hector Zazou, contemporâneo do "Megafone" de João Aguardela, num momento em que o grupo já se desintegrara numa série de núcleos criativos autónomos.

Não ouvir os álbuns “intermédios”, no entanto, equivale a não perceber como é que, de um a outro, era da mesma banda que se falava. Ao quarteto do primeiro álbum, em formação clássica guitarra/baixo/bateria, sucedeu-se a partir de "Mar d''Outubro" uma formação de octeto multi-instrumentista que quase imediatamente se começou a dispersar por aventuras paralelas, simultaneamente alimentando os Sétima Legião e desviando trunfos para os projectos pessoais.

Menos consistentes mas tão influentes quanto a estreia, "Mar d''Outubro" (1987) e "De um Tempo Ausente" (1989) parecem dividir-se em partes distintas - por um lado, extraordinárias canções entre a nobreza austera do primeiro LP e uma ambição de power-pop contido, por outro intrigantes esboços instrumentais que exploram as dimensões revisionistas da tradição, numa dicotomia cuja esquizofrenia fazia também a sedução do projecto. Em ambos os casos, consegue-se distinguir o germe daquilo que Rodrigo Leão traria aos Madredeus e depois perseguiria a solo, das experiências irreverentes dos Gaiteiros de Lisboa, ou das aventuras electrónicas de Paulo Abelho nos Golpe de Estado e Gabriel Gomes no Projecto OM e nos Tjak.

No interim, contudo, os Madredeus dispararam mundialmente e "O Fogo" (1992) é o disco da “ressaca” de ter Leão e Gomes ausentes no “outro grupo”. Francamente melhor do que nos recordávamos, não deixa por isso de ser um disco a meio-gás: ora “piloto automático” que se refugiava nos próprios lugares-comuns que o grupo fixara (O Regresso quase é pastiche do que ficara para trás), ora antevisão premonitória do que viria a seguir ("Os Dias do Futuro" e "A Voz do Deserto" a inaugurarem os percursos que desabrochariam em "Sexto Sentido"). Não surpreende que a longa pausa que se lhe seguiu tenha levado a uma ressurreição dos Sétima Legião do único modo possível: como um colectivo puramente de estúdio, mas recuperando por artes quase mágicas a sensação estarmos a ouvir algo de genuinamente novo.

A resposta à pergunta é, por isso, positiva: sim, é possível reouvir estes discos como se nunca os houvéssemos ouvido antes e (re)descobrir um dos percursos mais apaixonantes e seminais da música portuguesa.

Por opção do próprio grupo, estas reedições deixam de fora o decepcionante disco ao vivo "Auto da Fé" (1994), e são acompanhadas pelo lançamento de uma compilação, "Memória", que nada traz de novo à excepção de um DVD histórico com um concerto de 1990 e os vários telediscos feitos ao longo da carreira. Extras só nos três primeiros álbuns: "A um Deus Desconhecido" inclui o memorável single de estreia "Glória/A Partida", mas "Mar d''Outubro" traz apenas a versão longa de "Sete Mares" e "De um Tempo Ausente" uma dispensável remistura de "Ascensão", tanto mais inexplicável quanto as contribuições do grupo para as homenagens a José Afonso ("Cantigas do Maio") e aos Xutos & Pontapés ("Longa se Torna a Espera") mereciam ser redescobertas. As edições não trazem notas contextualizadoras e adaptam os grafismos originais de modo algo descuidado, com as cores das capas de "Mar d''Outubro" e "De um Tempo Ausente" significativamente diferentes das originais.