Leia também
Jazz

A coisa

  • Sleeper: Tokyo, April 16, 1979
  • Keith Jarrett
  • ECM, dist. Distrijazz

Crítica Ípsilon por:

Rodrigo Amado

diminuir aumentar
votarvotarvotarvotarvotar
2 de 2 pessoas acharam útil a crítica que se segue.
Clássico instantâneo numa gravação recuperada de um concerto em Tóquio com a mais celebrada das formações de Jarrett: o seu quarteto europeu

A vibração é, de imediato, escaldante. Torna-se evidente, às primeiras notas da audição de "Sleeper" que esta é, das muitas gravações inéditas, ao vivo, de Jarrett, uma das mais importantes, justificando totalmente a urgência da sua recuperação para edição discográfica. Aquela que é a mais celebrada das formações do pianista - o quarteto que manteve com Jan Garbarek (saxofones), Palle Danielsson (contrabaixo) e Jon Christensen (bateria), também conhecida por quarteto europeu, junto pela primeira vez em "Belonging", de 74 - está aqui em pico de forma, soando como raramente os ouvimos.

Numa gravação de qualidade irrepreensível, os quatro músicos destilam versões definitivas de alguns dos temas mais amados do pianista, como "Personal mountains", "Chant of the soil" ou "New dance", a maioria dos quais já registados nos álbuns ao vivo "Nude Ants", também de 79, gravado um mês depois, e "Personal Mountains", também gravado em Tóquio, em 79, mas só editado 10 anos depois. O ambiente geral é de grande emotividade e criatividade, com os músicos a arriscarem forte na (re)criação musical dos temas. Garbarek, particularmente, parece aqui eliminar todo o excesso de lirismo que algumas vezes lhe era apontado, registando uma performance escaldante, do princípio ao fim das quase duas horas de música. Ouça-se a sua longa improvisação em "So tender", tema que Jarret havia já gravado na superlativa série "Standards", em trio com Peacock e DeJohnette. Ao longo de sete extensas versões, a maior das quais com 28 minutos, o quarteto deixa no ar a sensação de que existe ainda espaço para uma reavaliação histórica da sua importância e impacto na história do jazz. No início de "Oasis", aqui numa versão com 28 minutos de duração, Garbarek pega na flauta e, em conjunto com as percussões de Christensen e do próprio Jarrett, constrói uma vibração tribal de suaves tonalidades orientais que, parecemos senti-lo, deixa siderada a audiência japonesa. Claro que, tendo como suporte a secção rítmica absolutamente extraordinária de Danielsson e Christensen, Jarrett não deixa, como habitual, de dominar por completo a música.

Incentivando frequentemente os músicos com gritos de entusiasmo, o pianista define o ritmo endiabrado da sessão, aproveitando depois para incorporar toda essa energia nas suas geniais improvisações. O quarteto é o contexto que melhor parece equilibrar os lados humano e cerebral de Jarrett e "Sleeper" celebra efusivamente esse facto, tornando-se a referência ao vivo para esta formação.