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Brilhante meio disco

  • Is Your Love Big Enough?
  • Lianne La Havas
  • Warner

Crítica Ípsilon por:

Gonçalo Frota

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3 de 3 pessoas acharam útil a crítica que se segue.
A subtileza que andava a escapar à soul nos últimos anos

Mais do que com qualquer outro exemplo antes, o aparecimento de Michael Kiwanuka tornou repentinamente óbvio que a música soul no presente não precisa de, com carácter de absoluta inevitabilidade, rodear-se de batidas fabricadas em computador por uma turba de produtores que as produz a metro, a pedido, a tudo. As melodias não precisam de bambolear-se infinitamente nem de parecer querer conquistar o mundo à força. Há em Kiwanuka, e agora em Lianne La Havas, uma subtileza que andava a escapar à soul nos últimos anos, ocupada a tentar fabricar fenómenos da ordem de Amy Winehouse e Joss Stone. Até que chegou Adele, desavergonhadamente indecisa entre soul, pop e folk, e tudo começou a caminhar para outro fim.

Antes de Lianne La Havas já Corinne Bailey Rae se tinha aventurado por uma proposta semelhante. Mas aquilo que em Bailey Rae era delicadeza em excesso, uma inocência tão acentuada que fazia da cantora inglesa porta-estandarte de uma sensaboria inconsequente, em Lianne La Havas o registo acústico e pouco histriónico é garante de interpretações verdadeiramente arrebatadoras - basta ouvir "Is Your Love Big Enough?", "No Room for Doubt" (sublime dueto com Willy Mason) e "Lost and Found", acrescido de não ter problemas de surdez, para perceber que Lianne La Havas está fadada para grandes voos.

Aquilo que falha em "Is Your Love Big Enough?" é, na verdade, muito pouco. Trata-se de um irritante desequilíbrio no alinhamento: até meio, marcado pela brilhante e nervosa "Forget" - com a mãozinha de Dave Sitek, dos TV on the Radio, na produção -, Lianne La Havas é autora de um disco que nos puxa sempre para a sua proximidade, até lhe ouvirmos a respiração. A partir daí, sobretudo nas dispensáveis incursões ao piano que parecem vulgarizá-la instantaneamente, perde fôlego e quase nos faz esquecer que, minutos antes, estávamos a tremer ao ouvi-la repetir uma e outra vez o refrão de "Lost and Found": “You broke me and taught me how to truly hate myself”.