Real Combo Lisbonense
ENRIC VIVES-RUBIO
Real Combo Lisbonense

Com saudades de nós, inventamos um presente

17.07.2009
Por: Mário Lopes
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Apanhámos o Real Combo Lisbonense a cantar bossa yé yé e vimos mais que canções esquecidas do Portugal da década de 1960. Desde há um par de anos que algo acontece na pop portuguesa. Não é só o português que cantam Tiago Guillul, Samuel Úria, os Aquaparque ou os Tornados. É como o cantam e o mundo que reflectem.

O vocalista pega na vocalista e os dois transformam-se num par. O combo de teclas e metais, de congas, baixo e bateria, toca música para bailar e, enquanto o par dança, outra voz canta a canção que lhes serve o bailado. Coisa de classe, como denunciam os impecáveis fatos deles e os elegantes vestidos delas. Eles, lá em cima, dançam e tocam. Cá em baixo, naquelas sete da tarde de um domingo, em frente ao Coreto do Jardim da Estrela, em Lisboa, vê-se um casal em fato de gala branco ensaiando passos de dança de salão, vêm-se crianças correndo entre as pernas de quem assiste e uma rapariga bonita de olhar perdido e feliz, qual Jean Seberg a dançar um yé yé de Françoise Hardy.

Lá em cima está o Real Combo Lisbonense, banda montada por João Paulo Feliciano e o irmão Mário Feliciano, que anda a mostrar canções que alguns já não se lembravam que existiam, que outros descobrem como se fossem inventadas agora. Canções como "A borracha do rocha" ou "Pepe fado", canções nascidas no Portugal dos anos 1960, quando não existiam bandas, existiam combos e conjuntos, quando não existia globalização, antes umas linhas regulares da TAP que faziam com que, por aqui, a bossa se misturasse com o fado, a Jovem Guarda da de Roberto Carlos se fizesse rock'n'roll português, a soul gritasse "all around Lisbon" e a loucura dançante com grito definido ("Tequilla!") fosse convenientemente adaptada a um país, digamos, mais recatado. Ouvimo-los então. Metais ao alto, primeiro; metais silenciados, depois. Que exclamem os vocalistas: "Laranjina!"

Portanto, temos uma matinée no Jardim da Estrela, com uma banda chamada Real Combo Lisbonense a tocar para muita gente de muitas idades e, enquanto um par de ar "cool" - óculos escuros à Velvet incluídos - se entrega com fervor ao twist de "Banho de lua", cantado por Ana Brandão, e a rapariga com corte à Jean Seberg repete "o fado é bom pra xuxú!" que ouvimos da boca de Márcia Santos, o nosso olhar alarga-se. É que estes Real Combo Lisbonense que agora se estreiam em EP, não são um acontecimento isolado.

Olharam para trás, para um passado esquecido da música portuguesa e recuperaram-no: não é um movimento meramente nostálgico, não é só preservação de memória, não é coisa kitsch. Um dia depois do concerto, João Paulo Feliciano, artista plástico, músico que, com os Tina And The Top Ten, fez parte da geração sónica da década de 1990 - musicalmente, não podiam estar mais distantes deste Real Combo Lisbonense -, diz-nos que "em temos de motivação, existe um ponto de contacto" entre as duas bandas: "Fazer algo apropriado a um momento histórico e cultural". Explica que, "quando apareceram os Tina And The Top Ten, o rock português estava fechado sobre si próprio." O que fizeram, então, foi inserir-se "num momento de abertura àquilo que se fazia lá fora". "Passados todos estes anos estamos ligados a tudo em tempo real e é como se houvesse a necessidade de olhar para nós próprios, para a nossa história e identidade."

Como a TV cabo

Nas palavras do seu fundador, o Real Combo Lisbonense, inspirado na carioca Orquestra Imperial, "recupera o património, faz bailes e põe o pessoal a bailar".

E porque é que não são um fenómeno isolado? A resposta é simples. Basta elencar nomes, todos eles nascidos ou revelados no último par de anos: os do eixo Flor Caveira, como Tiago Guillul, Samuel Úria, B Fachada, João Coração ou os Pontos Negros; os da Amor Fúria d'Os Golpes e d'Os Quais; os vindos de Braga, como os Smix Smox Smux (também Amor Fúria) ou os Peixe:Avião; o rock em Alfama dos Feromona ou as tascas bejenses dos Virgem Suta. E esses Tornados que, estimulados pelo rock'n'roll português dos anos 1960, andam por aí a pôr "catraias" a bailar com órgãos Farfisa, ou os óptimos Aquaparque que descobriram uma nova galáxia onde a modernidade dos Animal Collective se reveste de algo nosso, mas intangível (é só ouvir "Fantasma" ou "De dentro de uma baleia", do álbum de estreia "É Isso Aí").

Resumindo: de há um par de anos para cá, parece haver um novo Portugal pop em embrião. Une-os o português que cantam, mas, no fundo, apenas isso. Jacinto Lucas Pires, o escritor, dramaturgo e cronista que descobrimos como vocalista d'Os Quais, fala de um encontro de vontades: "Cada um está a fazer aquilo que quer, com referências diferentes". André Abel, que forma com Pedro Magina o duo Aquaparque, estabelecerá uma comparação curiosa: "Às vezes isto parece um bocado a tv cabo. Há um determinado canal para diversos nichos, há várias identidades". E o radialista Henrique Amaro, divulgador incansável das movimentações da música nacional, dir-nos-á que "a ideia de portugalidade que hoje se utiliza é plural". Isso, considera, "é o mais interessante".

Não se trata simplesmente de utilizar o português, que sempre o fomos ouvindo - "o hip hop adoptou-o desde o início, o punk nunca o largou", aponta Amaro. O ponto central é este: "A utilização da língua de uma forma contemporânea e plural". "Não é a língua por si própria que credibiliza", acentua, "é a sua utilização contemporânea". São os jogos com a métrica e as referências inesperadas de Tiago Guillul ou Samuel Úria, as narrativas surpreendentes de B Fachada ou o imaginário surreal dos Aquaparque. São a linguagem de rua dos Smix Smox Smux, as curtas-metragens feitas canção dos Feromona, o romantismo e as exortações d'Os Golpes ou a "nostalgia progressista" (expressão de João Paulo Feliciano) do Real Combo Lisbonense: na investigação do repertório que recria, descobre "muitas letras ‘incantáveis'", "disparates que não se podem cantar hoje em dia." "Um passo atrás, dois à frente", assim se intitulou o espectáculo do combo no último Serralves em Festa, no Porto: "Acrescentar em vez de substituir. Não fazer por acumulação, mas por triagem".

Há aqui qualquer coisa

A verdade, repetimos, é que nada disto é homogéneo. Não se constrói num mesmo movimento. Ou seja, ouvimos os Real Combo Lisbonense cantar que, "no fundo, temos saudades de nós" (em "Dois estranhos"), e, mergulhando em entrevistas anteriores, deparamos com Manuel Fúria, vocalista d'Os Golpes, afirmar a necessidade de fazer com que "o rock seja uma coisa passível de nascer aqui como se não houvesse mais nada". E B Fachada a apontar que "a língua maternal flui com uma violência que não se consegue noutra qualquer", e os Smix Smox Smux sem perder tempo a explicar de onde lhes vem o verbo: "não há quaisquer referências, é tradição oral".

Mergulhando recuperamos novamente Fachada - "nos últimos dez anos praticamente não houve música portuguesa, só Pedro Abrunhosa, Clã e Ornatos" - e chegamos a Samuel Úria. Enquanto conversava com o Ípsilon sobre "Em Bruto" (EP editado em 2008), disparou: "A culpa é dos anos 90. Os anos 90 vieram dar cabo disto". Disto? A palavra ao jornalista e crítico João Lisboa. "O que acontece agora aconteceu na geração dos anos 80, com os GNR, os Heróis do Mar ou os Xutos. Mas já acontecia antes com o José Mário Branco e o Sérgio Godinho. E o Zeca Afonso cantava em português, o nacional cançonetismo era em português. O corpo estranho são os anos 90, em que apareceram mais bandas a cantar inglês. Agora, é o regresso à norma". E para este pessoal, justificá-lo é, pegando em palavras de Samuel Úria, "quase como o Bjorn Borg ter que explicar porque usava uma raquete para jogar ténis". André Abel: "Nos anos 90, os Blind Zero e outros estavam sempre a ser questionados sobre o inglês e eu achava que fazia sentido confrontá-los com isso. Agora inverteu-se o ónus e temos que nos justificar por cantar em português..."

Teoria: depois do "boom" dos anos 1980, em que se tentou criar uma identidade de acordo com a contemporaneidade pop, passámos os anos 1990 a imaginar que o nosso lugar era o mundo, era Londres e Nova Iorque - sonhando com a tão batida internacionalização. Um sobressalto antes do tal "regresso à norma".

Claro que, como o tempo passa e a realidade se altera, esta norma de final da primeira década do século XXI é algo necessariamente diferente. João Lisboa: "isto não são produtos de fábrica preparados por um AR [o responsável por Artistas e Repertório de uma editora] para vender não sei quantos mil discos. Não sei o que acontecerá no futuro, mas há aqui qualquer coisa."

Pessoas que fazem coisas em casa

Dia 1 de Julho, Cabaret Maxime, em Lisboa. Em palco está Jónatas Pires, vocalista e guitarrista dos Pontos Negros. Acompanhado por músicos como Samuel Úria, o baterista David Pires (também dos Pontos Negros, irmão de Jónatas) ou Walter Benjamin, nas teclas (que edita em nome próprio ou como membro dos Jesus, The Misunterstood), Jónatas toca as canções de "Vestido Preto", EP a solo que ali apresentava. São canções algures entre o Dylan de "Desire" (o violino de Miriam Macaia guia-nos até ele) e o sentido épico de uns Arcade Fire, que surge matizado em tons acústicos e pose de trovador pop.

O EP é uma edição caseira, selo Flor Caveira, e foi lançada porque é possível fazê-lo, porque Jónatas tinha as canções preparadas e os amigos disponíveis. Não é preciso mais. Hoje, entenda-se, não é preciso mais - nessa noite, Tiago Guillul passou-nos para as mãos o "split" Tiago Lacrau / Te Voy a Matar, investida electrónica dividida entre ele e Silas Ferreira, teclista dos Pontos Negros (entretanto, Lipe, guitarrista e vocalista da banda, tem também EP a solo disponível). Avancemos.

Jacinto Lucas Pires já conjecturava aventuras musicais com Tomás Cunha Ferreira, seu parceiro n'Os Quais, bem antes da edição, este ano, de "Meio Disco". Concretizou-as pelo ambiente criativo actual, certamente, mas principalmente pela "facilidade que existe hoje em dia para gravar": "há uma certa frescura nestas pessoas que fazem as coisas em casa".

João Lisboa, que vem seguindo as movimentações no eixo Flor Caveira/Amor Fúria, destaca-lhes precisamente o "carácter artesanal". "É um lo-fi à portuguesa: não há ali qualquer sofisticação estética, mas isso nunca estraga a música". Agora que os discos não vendem e enquanto "não se resolver este dilema terrível de toda a gente poder ter música à borla", refere, "o caminho é fazer tudo pelo barato". "Montar estúdios no quarto, na sala ou na marquise e, utilizando esses formatos reduzidos, conseguir fazer algo". Sentencia: "É indesmentível que eles têm conseguido resolver bem essa questão".

Entre Braga e Nova Iorque

Como diria Sérgio Godinho, "isto anda tudo ligado". A evolução tecnológica permite a qualquer gravar em casa ou na marquise. Permite concretizar com um clique uma ideia antiga de António Variações, fazer música entre Braga e Nova Iorque - não por acaso, o autor de "Anjo da Guarda" é referência comum a esta vaga: "o génio dele", diz Jacinto Lucas Pires, "é ter uma cabeça cibernética antes de internet; de Braga a Nova Iorque sem MySpace". Permite, por fim, aceder a mais e misturar, recriar e reciclar tudo de todo o lado. E, nesse movimento, voltar ao início, àquilo que nos dizia João Carlos Feliciano: "a necessidade de olhar para nós próprios, para a nossa história e identidade".

Fazê-lo, acentue-se, abertos a tudo o resto. Os Golpes do recente "Cruz Vermelha em Fundo Branco" apontando os Heróis do Mar em iconografia e Tiago Guillul a explicar que pensava nos Vampire Weekend, em Fela Kuti ou em Stevie Wonder quando gravou "IV" (álbum de 2008). Samuel Úria a citar Lobo Antunes ou um "Outono Cheyenne" de John Ford e os Tornados a falarem-nos de Quentin Tarantino antes de desfiarem um sem número de bandas do rock'n'roll português dos anos 1960, como os Tártaros, os Steamers ou o Conjunto Académico João Paulo. Henrique Amaro: "Nos anos 1980, quem tinha a sorte de ter um disco dos Talking Heads era um vanguardista, agora, como dizia o General D, ‘Pé na Tchôn, Karapinha na Céu'. Estar em Lisboa, em Olhão, onde quer que seja, e reflecti-lo. Mas, ao mesmo tempo, estar ligado ao mundo em tempo real".

Cria-se um presente múltiplo e, ao mesmo tempo, descobre-se e redescobre-se o passado, criando novas leituras da história. Bem a propósito, Jorge Dias, da loja de discos Louie Louie, com representação em Lisboa, Porto e Braga, diz-nos que, nos últimos anos, tem-se intensificado a procura por música portuguesa de décadas passadas. Quem a procura? "A faixa etária dos trinta para cima, pessoal que", pormenor importante, "aprendeu a gostar de coisas de que antes não gostava". Procuram-se os psicadelismos e rocks progressivos de José Cid e a Banda do Casaco e os Petrus Castrus. Procuram-se os GNR, os Táxi e Rui Veloso - "até há pouco tempo encontrava-se facilmente o ‘Ar de Rock' [o primeiro álbum de Veloso], agora já é mais difícil" - e os singles de bandas dos anos 1960 como os Sheiks. Procuram-se até, CDs dos Mão Morta, como "Mutantes S. 21", ou os primeiros dos Da Weasel, edições que não foram alvo de reposição no mercado e que são agora raridades.

Tudo explicado, eis aquilo que temos. Algo que fervilha e que não é ilusão: há nomes que o comprovam. Um novo mundo, no qual nascem novos métodos criativos, novos cruzamentos estéticos, novas expressões. Temos o regresso à norma do português, devidamente adaptada a outra realidade.

Olha-se para trás: "temos saudades de nós". Olha-se em frente: anseia-se pelo futuro. Como nos disse João Lisboa, "há aqui qualquer coisa". Como nos diz João Paulo Feliciano, "o melhor da música portuguesa virá a seguir". Porquê? "Porque a música está muito mais presente, porque há mais gente a querer fazer melhor, com muito mais padrões de referência, com muito mais exigência".

Pé fincado no chão, antenas erguidas ao céu.