Minta & The Brook Trout

O primeiro álbum do resto da vida de Minta

21.10.2009
Por: Mário Lopes
diminuiraumentar
Minta, que é Francisca Cortesão, não demora a explicar que o que a intriga são as pessoas e as relações entre elas. Em "Minta & The Brook Trout", ouvimos o início da segunda vida dela.

Onde é que isto começa? Começa na capa de "Minta & The Brook Trout", que é o que vemos primeiro. Descobrimos-lhe a origem. Francisca Cortesão a ouvir uma canção de Tom Waits no iPod, "The party you threw away", e a ouvir nela algo que não ouvira antes: "In a portuguese saloon", canta algures o bardo com voz de whiskey. Eis então Francisca, pouco depois, a deparar na net com uma conversa entre Waits e o Monty Python Terry Gilliam. Gilliam diz a Waits que ele escreve letras estranhas. Refere uma: "on the porch, geese salute". Waits ri-se, explica que o que canta realmente é "in a portuguese saloon" - mas acrescenta que "on the porch, geese salute" é melhor ainda. Francisca também achou e é por isso que, na capa de "Minta & Brook Trout", sucessor do EP "You" e álbum de estreia de Minta, vemos precisamente gansos num alpendre. Foram "encomendados" a João Maio Pinto e não parecem tão divertidos quanto intuímos pelo erro de tradução de Terry Gilliam. O que, de resto, faz todo o sentido. O traço simples e a insularidade da paisagem casam bem com a música de Minta (que é Francisca Cortesão e a banda que a acompanha: Manuel Dordio na guitarra, Mariana Ricardo no baixo, segundas vozes e ukelele, e José Vilão na bateria). João Maio Pinto percebeu tudo muito bem.

Portanto, é aqui que isto começa. A guitarra acústica e a voz que não espera para aparecer. "Singalong" a que se junta o ukulele, a guitarra eléctrica que balança entre as palavras, o ritmo gentil de baixo e bateria e os versos que há muito caminham canção dentro: "Give it up for those who have the guts / to hurt who they love / And they really have to".

O humor pode morar na vida de Francisca Cortesão, não tanto na sua música. Diz-nos gostar muito dos contos de Roald Dahl (autor de, por exemplo, "Charlie e a Fábrica de Chocolate"), que aprecia o humor negro que não pede um gargalhar imediato. Depois, acrescenta: "Às vezes tenho pena de não fazer música com maior sentido de humor, que é uma coisa de que gosto muito na literatura ou no cinema". "Enfim", suspira, "talvez lá chegue". Enquanto não chega, tem todo um mundo a explorar. Ou melhor, todo o mundo - o de ontem, hoje e amanhã, citando despropositadamente José Cid.

Segunda vida

O material de Francisca Cortesão usa nas canções está mesmo ali ao lado: "O que me intriga são as pessoas e as relações entre elas. Sempre tentei usar a música para tentar perceber as coisas que não estão bem na minha vida. Não sei escrever sobre mais nada". Não se leia ali um sufoco existencial traduzido em mulher amargurada, eternamente introspectiva. Francisca Cortesão não corresponde ao estereótipo de "singer songwriter" obcecada com o negrume insuportável da vida. Nem, de resto, a sua música, onde não cabem loiça a voar pela casa e berraria insuportável. Ela, que nos fala de Laura Viers e Lambchop, de Lisa Germano ou Elliot Smith, da Gillian Welch de hoje e do Gram Parsons de ontem, inquire e observa, conta histórias que são sempre a mesma, vista de perspectivas diferentes. O talento reside, claro, na forma como isso se transforma em canções que nos iludem - é que parecem novas estas "velhas" histórias que nos conta.

Resumindo e repetindo, é portanto aqui que tudo começa. No "in a porch, geese salute" e na música que por trás disso se revela. Certo? Quase.

A Francisca Cortesão que vemos em pequenos concertos, ela que escolheu estrear-se em álbum com uma edição de autor, fez o percurso ao contrário. No início desta década, encontrávamo-la no catálogo da EMI. Tinha 17 anos e formava com Filipe Pacheco os Casino. Gravou um álbum que agora não consegue ouvir, andou a tocar em grandes salas, a fazer primeiras partes dos Silence 4 e a achar que tudo aquilo era demasiado: "Não tínhamos nenhuma experiência de palco, eu desafinava imenso e irritava-me por estar nervosa e não conseguir cantar melhor". Aconteceu tudo no tempo errado. O álbum chegou às lojas logo depois do 11 de Setembro, eles eram dois miúdos sem qualquer experiência e a indústria musical começava a evidenciar a agonia comercial em que hoje vive. Fizeram um segundo álbum que não chegou a ser editado (essa ela já consegue ouvir) e, frustrados, acabaram.

Francisca desapareceu do olhar público e continuou a compor canções para a gaveta. Até que chegou este novo mundo de Myspace e afins e ela abriu-a. Começou esta segunda vida que, tudo bem medido, é verdadeiramente a primeira.

"Há alguns anos, não era capaz de identificar cinco bandas portuguesas de que gostasse muito", confessa. "Neste momento não é nada difícil fazê-lo". Não por acaso, encontramos no seu disco Manuel Dordio e Walter Benjamin, dos Jesus The Misunderstood!, e Mariana Ricardo - a banda deles e as canções a solo dela são "duas das coisas" que Francisca mais gosta de ouvir neste momento. Mais: "As pessoas libertaram-se da ideia de que para chegar a determinado ponto tem que se arranjar uma EMI ou uma Universal. Há outras maneiras de abordar a questão e que não passam pela validação de pessoas que não fazem música, que são muito mais velhas e que estão numa onda completamente diferente, a tentar forçar-nos a entrar naquele buraquinho que é a ideia do que deve ser feito". Conclui: "Hoje os músicos estão a fazer exactamente aquilo que lhes apetece e, curiosamente, há público para isso".

Então, e por fim, é aqui que tudo começa. "Minta & The Brook Trout", "in a porch, geese salute". Canções curtas e concisas que expõem mais do que lamentam. Nunca verdadeiramente frágeis, de uma elegantíssima melancolia.