"Betweeen Waves", o novo disco de David Fonseca, é folk-pop psicadélica, cheia de arranjos roubados à obscuridade pop. É o disco da independência de um tipo que ainda ouve à antiga e pensa à moderna.
Para alguém tido como consensual, David Fonseca é um homem com mais contradições do que a sua persona pública, sem sombras e ponderada, aparenta.
Não nos referimos a demónios internos, antes a detalhes. Fonseca é conhecido pela sua nostalgia dos anos 80 e pelo seu apego àquela época em que uma carreira se jogava numa canção: ele é, por tudo o que já disse publicamente sobre o assunto, um dos últimos românticos do single enquanto arte.
Mas por muito romantismo que tenha em relação àqueles objectos redondos de vinil que se ouviam em 45 rotações, sabe que "há muita gente que não [o] conhece senão dos singles". É por esta razão, diz abertamente, que quando escolhe um single só tem uma regra: "Não repetir o single anterior", para que quem só o conhece da rádio não tenha a sensação de repetição em relação à sua obra.
Aliás, num país em que fica mal ter sucesso, Fonseca é extraordinariamente honesto em relação aos singles: "Não há nenhuma razão específica para escolher esta ou aquela canção", diz, acrescentando sem pudores que no caso de "Between Waves", o seu mais recente disco a solo, escolheu "A cry for love" por achar que "tinha mais hipóteses de passar na rádio".
De um lado temos romantismo, do outro pragmatismo. O romantismo está lá: nos últimos anos o autor de "Sing Me Something New" tem editado "os singles com lados B, à antiga, em vinil, com remisturas e etc." É uma forma de "tentar restabelecer de novo o contacto com o objecto", não uma questão de dinheiro vivo e imediato, porque estes singles "têm venda escassa". Mas é uma questão de gestão de carreira quando encarada no grande esquema das coisas - porque "estes singles têm grande alcance dentro da comunidade" que o segue.
Disco de arranjador
Aqui temos um homem com um pé no passado e outro no futuro. Tanto a nível musical como na contabilidade da mercearia.
No primeiro plano, o musical, o nostálgico Fonseca nunca soou tão de agora como hoje: "Between Waves", à excepção de quatro proto-baladas, é um conjunto de canções pop que disparam para todos os lados, cheias de ganchos, arranjos improváveis, curvas e contra-curvas, a alta velocidade. Mas olhe-se de perto e esses arranjos - de xilofone, violino, acordeão, guitarra slide - parecem ter vindo da folk espacial do final dos 60, início dos 70, devidamente trazidas para o presente após um tratamento pop.
Pode dizer-se sem margem para erros que é disco de "arranjador", mais que disco de escritor de canções. Ele admite que gosta "muito de fazer arranjos" e que isso o "liga mais às canções".
Fonseca não é daqueles que acham que grandes canções são apenas aquelas que se aguentam com guitarra e voz. "Essa ideia vem da moda dos ‘Unplugged'", lembra, "que diz que uma boa canção tem de ser tocada com uma viola num vão de escadas. Mas as coisas não são obrigatoriamente assim" - para Fonseca cada vez mais "o arranjo é parte integrante da canção".
Melómano atento, dá exemplos que corroboram a sua opinião. "Há pouco tempo ouvi uma versão acústica do ‘Paranoid Android', dos Radiohead, sem os arranjos de guitarra, e não resultava. O ‘Let Down', dos Radiohead, é um exemplo de como uma canção pode transformar-se com os arranjos - sem o arranjo é uma ‘lullaby'. O último disco do Bill Callahan é outro exemplo: os arranjos condicionam o que a canção é e condicionam bem".
Em termos da escrita, este cuidado com o arranjo implica ser "muito criterioso na escolha dos sons, muito mesmo", porque na prática, diz, as suas canções "são muito clássicas" e "quando já se tem muitos discos editados é essencial procurar outras formas de chegar à canção que não as habituais, de chegar a algo mais que ao osso da canção". Por isso procura "encontrar sons que dêem uma personalidade à canção que não aquela que ela tinha ao início".
Perde algum tempo a explicar como é que hoje compõe. "É preciso ver que gravo isto em casa, às camadas", explica, antes de confessar que o estúdio se tornou, entretanto, um quebra-cabeças: "O problema das camadas é que se a primeira e a segunda não estiverem perfeitas vai tudo abaixo à medida que acrescentas coisas. E o problema do estúdio é que é mesmo tudo possível. Podes pôr um elefante a entrar numa canção."
Diz que compor assim é viver "um bocado no caos": no meio da quinquilharia sonora que vai guardando e produzindo tem de "conseguir sempre perceber o que é que [quer] ouvir". É um processo de tentativa e erro: "Quando soa bem sigo aquele caminho e se no dia seguinte continuar a gostar, mantenho o caminho".
Viver no caos implica não ter um método cartesiano, uma fórmula mágica, pela que "todas as canções nascem de forma diferente. Exemplifica com "There's nothing wrong with us", que "nasceu de um riff de guitarra que tinha muitas influências dos anos 80, daquele rock descontraído da época". A canção foi crescendo à volta disso, mas Fonseca decidiu que queria "começar de forma mais orgânica", pelo que foi repescar uma melodia de xilofone - "tinha sido a segunda parte adicionada à canção, logo a seguir ao riff". Como era "a parte mais melódica" pô-la à frente, "como chamariz, à antiga".
Por alguns compassos a canção soa um pouco a Violent Femmes, mas depois explode. "Eu queria que a canção se tornasse uma festa instrumental, com sintetizadores, tudo, que no fim a canção nem precisasse de voz. Escrevi as partes instrumentais como se estivesse a tocar ao vivo".
Dizemos que lembra os Violent Femmes da mesma forma que podíamos dizer que "Stop 4 a minute" tem por lá escondido um riff que retorna o fantasma dos Kinks à vida ou que "Morning tide" promove a ressurreição dos Buggles. Mais que tudo, a voz e alguns arranjos em "Walk away when you're winnig" e "This one's so different" têm tiques do David Byrne pós-Talking Heads. E fazemos uma pergunta minada a Fonseca: há ali essas influências, essas ligeiras pilhagens ou ele já ganhou o direito a dizer que não tem influências? A resposta que se segue é um clássico da persona sem sombras e ponderada: "Nunca se ganha o direito a dizer que já não se tem influências. Eu estou sempre a ser influenciado. E o Byrne é uma pessoa que tenho em alta estima - até foi um dos últimos concertos que vi. Se essa influência se notasse na minha música era óptimo, porque ele nunca desistiu da música, continua a maravilhar-se com escrever uma canção".
Clube de fãs
Não seria menos que justo afirmar que o homem é um conversador nato e consegue sempre ser justo mesmo quando picado. Há nele uma cabeça desempoeirada, sem mentalidade de merceeiro. Pode ser humilde e não ter atitudes de prima-dona (é-o e não tem), mas sabe como gerir o seu futuro e gosta de ser senhor do seu nariz.
Assim, a edição de "Between Waves" adopta os modelos mais recentes de distribuição. É lançado na recém-criada "The Castle of Amazing Cats" e distribuído em vários formatos: uma normal, com o disco, outra em vinil, edição exclusiva no iTunes, etc. Mas as jóias da coroa são dois formatos em regime de pré-venda com bónus: um com CD e um DVD, "Streets of Lisbon Aocustic Live Sessions", em que Fonseca interpreta cinco canções ao vivo e em locais incomuns; outro, chamado "Huge Fan Pack", inclui o CD, o DVD, um EP em vinil com três versões inéditas do single "A Cry For Love", uma fotografia autografada e numerada à mão, um poster desdobrável, uma t-shirt exclusiva.
Pormenor importante: a compra da caixa oferece acesso a concertos exclusivos e intimistas e ainda fornece um cartão de sócio do "Amazing Cats Club".
O "Amazing Cats Club" é uma espécie de clube de fãs acabado de criar, que terá acesso a concertos exclusivos, lados B, "canções que sobram e que não podem entrar no disco seguinte porque têm um som específico da altura em que foram feitas". O que permite a Fonseca "experimentá-las como um tubo de ensaio".
A ideia do "Amazing Cats Club" é "estabelecer uma comunidade" em que os fãs podem trocar experiências, vídeos de concertos, comentar as tais canções não-oficiais. A ideia nasceu da própria experiência de Fonseca enquanto fã: "Faço parte até hoje de um clube de fãs dos REM e ainda pago as quotas. E recebo conteúdos exclusivos de todo o tipo".
"Uma das coisas que mais me atraiu em fazer isto", continua, "é não ter intermediário". O novo disco "já é lançado em regime independente" e esta plataforma permite-lhe "lançar canções novas sempre que quiser, sem depender da indústria musical".
Havia outro problema que Fonseca espera erradicar: "De cada vez que quisesse lançar um disco lá fora tinha de esperar pela resposta da casa-mãe da Universal". Por isso, como o seu contrato com a Universal tinha acabado, resolveu "fazer um novo tipo de contrato" em que tem "a hipótese de fazer contratos lá fora individuais". Ou seja: se alguma editora, imaginemos, neo-zelandesa, quiser editar "Between Waves" o sim ou o não são dados exclusivamente por Fonseca e não por uma entidade inacessível e nebulosa que, sabe-se lá onde, coordena a Universal a nível mundial (e provavelmente nunca ouviu falar dele).
Cá dentro, lá fora
Perguntamos-lhe se está no país errado. Se tivesse nascido nos EUA seria uma estrela indie e não uma figura mainstream que já não tem por onde crescer e ainda tem de levar com o preconceito dos mesmos melómanos que glorificam tipos como Richard Swift (de quem Fonseca é fã) enquanto desprezam o trabalho do antigo líder dos Silence 4?
"Não estou no país errado", começa por dizer. Depois atira com uma ideia que faz sentido: "Se formos a ver bem, o Richard Swift devia ser uma estrela e não é".
Se vivesse lá fora, admite, "se calhar faria música diferente". Por outro lado viver cá "traz outra coisas" para a sua música, coisas a que não teria acesso se fosse americano. Dá ainda como exemplo as idas ao Texas, ao festival South By Southwest: "Quando digo que sou português sou bem recebido. Desse ponto de vista ser português é uma mais valia. No sentido comercial é que não é fácil. Já seria uma grande alegria dar um concerto ou dois nos mercados internacionais".
Mas este tipo de abordagens e classificações, diz, não fazem sentido. "Não acho que eu seja indie ou mainstream", atira. "A ideia de eu ser mainstream parte de eu não ser elitista em relação à forma como edito a minha música. Eu tento de facto chegar ao maior número de pessoas. Mas isso todos o fazem".
E para que não restem dúvidas de como por cá temos muita poeira na cabeça em relação à ideia de chegar ao maior número de pessoas e nos concentramos no que não é essencial, dá o exemplo de St Vincent, mocinha muito apreciável com apenas dois discos no currículo, sendo o segundo bastante experimental (e louvável). No South By Southwest, conta Fonseca, "ela ainda não tinha nenhum disco editado e andava atrás do manager para lhe conseguir entrevistas e contactos. É trabalho, apenas trabalho. E não diminui o valor da música", conclui o tipo que ainda ouve à antiga e pensa à moderna.