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Vamos ajudar SpaceGhostPurrp a ficar rico

06.07.2012
Por: João Bonifácio
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Já disseram que SpaceGhostPurrp era o futuro do underground do hip-hop. Agora há quem diga que é o presente dos vendidos. Mas Mysterious Phonk, o disco de estreia, é dos objectos mais negros e estranhos de 2012. Pode não merecer uma estátua, mas merece a casa com piscina

Liga-se para o número de telefone de SpaceGhostPurrp à hora marcada e nada. Volta-se a ligar e ainda nada. À terceira, tudo: um méne com voz de ter engolido dois oceanos de ópio após ter passado a noite a torcer o pescoço a inocentes coelhinhos berra: "Stop callin' my house, mothafucka, why da fuck u callin' my house, mothafucka?"

Isto é apenas a frase que temos a certeza que ele disse, porque o monólogo foi longo e rebuscado - uma espécie de homenagem ao vernáculo em barroco. Quem quer que fosse, o senhor incitou-nos a práticas homossexuais altamente complexas, o que nos provocou uma risada alarve.

Quando finalmente conseguimos explicar que tínhamos entrevista marcada com SpaceGhostPurrp, o rapaz acalmou, mudou para um tom de voz delicado e passou o telefone ao produtor e rapper. Este, por sua vez, e antes de nos dirigir a palavra, passou um raspanete ao amigo. Depois, com toda a polidez, pediu imensa desculpa, que tinha uns homies a dormir lá em casa, que isto é gente sem educação, etc.

Percebe-se a zanga de SpaceGhostPurrp. Este é um momento importante para ele: há dois anos ninguém sabia o seu nome, mas após um par de mixtapes bem recebidas e algumas faixas produzidas para A$AP Rocky tornou-se uma das esperanças do hip-hop americano mais desvairado. O seu som, sujo, no-fi, grave, minimal e doentio, criou tantos amantes quanto detractores.

Há coisa de um ano começou a ser badalado após um perfil na LA Weekly. Foi visto como o último dos experimentadores, dos bad boys, e conparado ao puto charila Tyler The Creator. "Lembro-me desse mothafuckin' texto como se fosse ontem", diz SpaceGhost, empenhado em quebrar o recorde mundial de palavrões. "Num dia eu não existia, no outro estava a um passo de ser uma estrela". Entre as várias afirmações que proferiu conseguimos perceber três: "A partir de então tornei-me quente"; "De repente toda a gente me queria"; "Estava por todo o lado".

Não é fácil perceber o que ele pensa acerca das comparações com Tyler - metade do tempo Purrp lembra Mutley a ruminar. Pelo meio conseguimos ouvi-lo dizer que "não faz sentido ser comparado com o Tyler", depois houve um par de frases incompreensíveis e logo a seguir acusou os jornalistas de serem preguiçosos: "Comparam-nos por causa da idade e da rebeldia". "Somos novos e não sabem como rotular-nos, por isso acham que somos iguais". Os jornalistas, diz, "não fazem nada na vida, não criam nada, por isso podem ir-se foder". Mas acaba a confessar que Tyler é seu "mano". "Temos muito amor um pelo outro", diz.

O beat como metafísica

O importante é que chegados a Junho a expectativa à volta do que SpaceGhostPurrp faria com a sua estreia oficial - o agora lançado Mysterious Phonk - é muita. É composto por faixas que já tinham saído [nas mixtapes] mas regravadas de propósito para este disco, e alcança uma espécie de limpeza sonora que antes estava ausente. Ainda assim não é um som fácil e Purrp está chateado com algumas reacções.

"Não estou zangado o mundo todo, mas com toda essa gente cheia de inveja que [despeja] ódio porque tem inveja". Aparentemente há quem o acuse "de ser um vendido". "Não sou nenhum vendido. SpaceGhostPurrp nunca se vende, só faz o que quer", diz, num tom gutural que é a imagem de marca do seu rapanço e parece ser condição sine qua non para falar ao telefone em sua casa.

Não é fácil tirá-lo do assunto "vendido", que o faz soltar abundantes impropérios. A dada altura diz: "Que eu saiba ninguém ouvia as mixtapes. Quem é que as ouvia? Dois mothafuckas que ouvem tudo o que sai? Ninguém as comprou. Tanto quanto eu sei, esta é a primeira vez que o mundo ouve SpaceGhostPurrp. Eu não existia e agora existo". E deixa um aviso cheio daquela testosterona de que só a juventude é capaz: "Aos que não gostam do meu novo som, fiquem a saber: quero que vocês se fodam".

Mais calminho, explica que não mudou, continua a ser o mesmo mothafucka fodido de sempre. "Eu gravei tudo de novo, alterei os samples, mudei os temas por completo e fi-los como sempre tinha imaginado fazer. As pessoas dizem que eu era o rei do underground, que o meu som era isto ou aquilo, que antes eu era fodido e agora não, mas as mixtapes era eu em casa a fazer música sem material decente. Era o que eu podia fazer. O que está em Mysterious Phonk é o que eu quero fazer".

E o que é que SpaceGhost quer fazer? É simples: "Legitimar um som fodidão. Eu sou de Miami, bro, sou do Sul, isto é o que nós sempre fizemos", diz, com notório orgulho bairrista, por assim dizer.

SpaceGhost quer que vocês saibam: ele é fodido e vai continuar fodido. "Não que não gostasse de ser pop. Eu gostava de fazer um beat bem pop e pôr todas as latinas a dançar ao meu som. [Seguem-se frases incompreensíveis.] Algumas já dançam. Mas não consigo fazer beats pop, bro. Quem me dera. Só que eu sou fodido, eu faço o beat da minha mente a pensar".

Neste momento aproveita para lembrar o seu génio: "Sabes, este som vem do rap do Sul, mas assim como está fui eu que o criei. Ando a criar este som desde os meus mothafuckin' 16 anos". SpaceGhost informa também que já ultrapassou "a cena de fazer um beat individual" e já está a pensar "no beat como um todo", no beat, no fundo, como metafísica: "O beat que te faz pensar: este beat é gangsta e adoro esta merda".

A ligação gangsta-Sul volta quando lhe falamos das rimas que costuma fazer. Ao contrário de alguns rappers, ele não procura entregar mil linhas com rimas maravilhosas, antes repete meia-dúzia de frases até à exaustão. Há uma explicação: "Eu podia ser lírico, mas para quê? É assim que a gente aqui fala". Purrp diz que "isso é gangsta. Isso é o Sul". É estranho ouvi-lo repisar o assunto porque o som de SpaceGhostPurrp não é aquilo que se associa imediatamente a Miami. "Esta cidade é mais negra do que parece. Isto não é só praias", diz, a dada altura, explicando que "sempre quis mostrar esse outro lado de Miami".

Continua a explicar o que há em Miami que por norma quem está de fora não vê e como isso entra no seu som doentio, mas metade do que diz perde-se na linha de telefone: não é fácil perceber SpaceGhostPurrp à conta do seu timbre - chamar-lhe "grave" é eufemismo. É suposto que o Purrp do seu nome artístico seja um acrónimo das drogas que prefere, o que poderia em parte explicar o som que lhe sai da garganta, tanto em disco como em conversa, mas o rapper de Miami diz que "SpaceGhostPurrp agora está limpo" e que "é por isso que agora os temas se ouvem bem".

No fim da conversa diz que em vez de as pessoas fazerem barulho à sua volta deviam era "vibe out" Mysterious Phonk. "Quero que a minha música passe na rádio. Quero todas as ladies a abanar o rabo ao meu som, porque quem sabe de música dança a isto".

Um tipo deseja-lhe boa sorte, diz-lhe que ele fez um grande disco e que tenha calma que um dia há-de conseguir o seu milhão de dólares. E aí, milagre, milagre, SpaceGhostPurrp muda de registo, e com uma voz de adolescente pergunta:

"A sério? Achas mesmo que vou ficar rico".