Podia ser apenas mais um pacato instrumentista de orquestra, mas Carlos Alves também
gosta de explorar outros mundos. Acredita que a música pode ajudar a superar a crise, já fez teatro e é director artístico de um festival. Em Agosto grava um CD nos EUA e amanhã toca num concerto de homenagem a Benny Goodman em Paços de Brandão.
Músico polivalente, o clarinetista Carlos Alves recusa-se a viver imerso na sua arte sem olhar o mundo. "O clarinete é a minha arma de luta", diz, com a consciência de que a música também deve ter uma missão social. "Os artistas têm um papel muito mais importante no mundo do que aquele que lhes é dado."
Instrumentista da Orquestra Nacional do Porto, docente em várias instituições e solista com uma sólida carreira, este clarinetista nascido em Portalegre há 37 anos já colaborou com Ricardo Pais em várias peças de teatro e assumiu em 2008 um novo desafio: a direcção artística da Festival Internacional de Música de Paços de Brandão, que termina amanhã com uma homenagem a Benny Goodmann, clarinetista de jazz nascido há 100 anos que também despertou a imaginação de muitos compositores clássicos.
"Como músicos também somos programadores da nossa carreira, mas um festival coloca outros desafios. Tratando-se de um evento inserido numa região, faz sentido pensar de que forma podemos contribuir para o seu desenvolvimento. Por isso procurei juntar artistas consagrados com as estruturas musicais locais e pensar num conceito temático." O facto de o orçamento ser pequeno foi também um desafio à imaginação. "Com mais dinheiro podia contratar uma série de grandes nomes, mas isso também seria fechar portas a alguns jovens músicos portugueses talentosos."
O resultado tem sido gratificante. "O festival tem 32 anos mas sinto uma grande evolução. Tivemos cerca de 200 pessoas por concerto e mais de 900 na abertura com o pianista António Rosado e a Orquestra Sinfónica da ESART (Escola Superior de Artes Aplicadas de Castelo Branco), no Europarque."
Fazendo um paralelismo com a crise actual, a edição deste ano faz uma homenagem à cultura americana dos anos 20 e 30 do século XX, lembrando como esta serviu para ultrapassar a Grande Depressão. "Hoje há uma crise de valores, uma crise financeira e uma crise de confiança. Mas acredito que através da música podemos ganhar energia e passar uma mensagem de esperança. O facto de os americanos terem conseguido ultrapassar a crise e converter-se numa grande potência mundial deve-se também à criatividade."
A florescente criatividade da época foi retratada no festival que hoje termina através da presença do jazz, da composição erudita e de um tributo a Benny Goodman nos dois concertos de encerramento. Amanhã, às 18h30, Carlos Alves, o violinista Emmanuelle Baldini (concertino da Orquestra Sinfónica do Estado de São Paulo) e o pianista brasileiro Caio Pagano interpretam obras escritas para Goodmann por compositores clássicos. "Vamos apresentar o programa que acompanhou a estreia dos 'Contrastes' de Bartók - uma encomenda do referido clarinetista de jazz e do violinista Joseph Szigeti - há 70 anos no Carnegie Hall, que incluía também obras de Debussy e Poulenc. À noite será a vez do swing, pois vou tocar os improvisos do Benny Goodman com a Corleone Big Band."
O exemplo do jazz
Apesar de se considerar um músico clássico, Carlos Alves tem grande admiração pelo jazz. "Os grandes músicos são aqueles que conseguem olhar para uma partitura e transformá-la. Também no repertório clássico tento fazer a música soar como se estivesse a ser improvisada. Por isso tenho a imagem dos instrumentistas de jazz como exemplo."
Um dos acontecimentos marcantes da carreira de Carlos Alves foi a colaboração com o encenador Ricardo Pais e o desafio de musicar ao vivo peças como "Figurantes", de Jacinto Lucas Pires, e o "Don Juan" de Molière. "Ao Ricardo Pais devo muita desta minha formação polivalente. Ele deu-me um crescimento dentro do 'Don Juan' tão importante como o das personagens principais. Eu estava presente em todas as cenas, improvisando e sublinhando cada palavra. Foi extraordinário, mas também o maior desafio que tive até hoje em termos de espectáculo."
Outra colaboração importante dos últimos tempos tem sido a parceria com o pianista Caio Pagano, com quem gravou um CD em conjunto com outros músicos de nível internacional: o violinista Daniel Rowland (antigo concertino da Orquestra Gulbenkian), a violoncelista Catherine Stinx e o pianista Paulo Álvarez. "Registámos os 'Contrastes' de Bartók e o 'Quarteto para o Fim do Tempo', de Messiaen, como um cartão de visita da ESART, pois todos somos docentes no curso superior de música dessa instituição", explica. "No lançamento do CD, num espectáculo encenado por Ricardo Pais no Mosteiro de São Bento da Vitória, o Caio Pagano convidou-me a fazer uma série de recitais com ele nos EUA e a dar uma 'master class' na Universidade do Arizona, onde ele é catedrático. A digressão foi em Janeiro e abriu outras portas, já que após uma apresentação na Katzin Hall, uma editora americana (Soundset-Recordings) quis gravar o programa do recital." O CD sera registado em Agosto e inclui as Sonatas de Brahms, Debussy e Poulenc e as Quatro Peças op. 5 de Berg.
"A Universidade do Arizona tem 66 mil alunos e o nível musical é muito alto mas não é muito diferente do que temos hoje em Portugal", diz o clarinetista. "As grandes instituições deviam prestar mais atenção aos músicos portugueses, pois nos últimos anos houve um grande salto qualitativo. Não tem havido o cuidado suficiente com a minha geração nem com as gerações posteriores."
A qualidade dos jovens instrumentistas é também constatada por Carlos Alves no seu dia-a-dia como professor, uma actividade que considera um importante complemento do seu desenvolvimento artístico. "Tudo funciona em círculo. Ensino música, que é aquilo que eu também faço todos os dias com a ONP. A experiência com os grandes maestros e com os meus colegas faz-me aprender muitas coisas que aplico depois nas aulas, onde também aprendo muito com os meus alunos... Há um complemento geral de crescimento intelectual, artístico e humano. A vida é um espelho daquilo que fazemos dentro do palco no diálogo que é a música."