Uma boa parte dos mais de 35 mil presentes na noite de sábado do Festival estava lá para os Faith No More, que foram iguais a si mesmos. No plano oposto, apenas umas centenas de fiéis assistiram ao extraordinário espectáculo dos baladeiros da Flor Caveira
Ainda não há números oficiais, mas é certo que a noite de sábado do Festival Sudoeste bateu, em termos de assistência, a de sexta, o que significa que houve mais de 35 mil espectadores no recinto da Zambujeira do Mar. E é quase certo que uma boa parte das razões do acréscimo se deveu ao principal concerto do palco principal: o regresso dos Faith No More.
A banda de Mike Patton, em termos objectivos, fez jus à condição de cabeça de cartaz, tendo sido talvez a única banda a ter mantido o grosso da população festivaleira longe das barracas de comida, dos saltos de elástico, dos karaokes, do carro-fantasma, da montanha-russa, do rapel ou das bicicletas de spinning.
Estes elementos de entretenimento pareceram ter tanta adesão quanto as atracções musicais. A fila para o carro-fantasma (uma espécie de versão "mini" dos famosos comboios-fantasma das feiras populares) ocupava, desde o início da noite, uns valentes metros. Ao lado, havia uma torre que servia para a prática de rapel. Num palco adjacente à torre havia uma espécie de baile. O palco estava cheio, ouvia-se Bomba (um êxito de há uns verões, cuja letra pícara incita a passos de dança de contornos vagamente erotizados) e um Mestre de Cerimónias apelava às massas que cumprissem os itens prescritos na letra da canção, dizendo: "Agora as meninas para baixo, vai, vai." Alguns concertos do Palco Sudoeste tinham menos público e menos festa.
A mistura de eventos musicais de grande dimensão com os elementos de entretenimento e com as imensas barraquinhas de comida torna o Sudoeste numa espécie de cruzamento entre Feira Popular e Queima das Fitas, aproximando-o, se quisermos ser críticos, mais do Rock In Rio que do espírito do rock.
A noite começou com os X-Wife, banda do Porto que lançou este ano o seu terceiro disco, Are You Ready For The Blackout. Objectivamente, tinham um pequeno grupo de seguidores a quem ofereceram pós-punk nervoso, cuja mais-valia consiste na tensão entre a eficácia da secção rítmica e a electricidade neurótica da guitarra e das teclas. Têm breaks de bateria sacados ao disco-sound, linhas de baixo funk branco, sintetizadores disfuncionais que lembram o rock germânico dos anos 70 e paira por ali o fantasma de Brian Eno.
Os X-Wife trouxeram mais frenesim que os (igualmente portuenses) Blind Zero. A banda de Miguel Guedes, que se prepara para regressar com Luna Park, ainda conserva resquícios dos tempos em que soava a Pearl Jam pelos riffs e pelo tom de lamento agoniado prolongado que o vocalista recorrentemente adopta. Fizeram uma versão de Enjoy the silence (dos Depeche Mode) e apresentaram um novo single bonitinho e limpo.
Dezenas em palco
Dez anos após a separação oficial, a banda de Mike Patton (Faith No More) fez uma demonstração de força: se outrora eram apelidados de "funk-metal" pelo idiossincrático pout-pourri de riffs de guitarra agressivos, funk, teclas distópicas e vocalizações que iam de um proto-rap ao pleno urro, agora, e em termos, digamos, meramente objectivos, mantêm essas características, pelo que quem gosta ficou bem servido e quem não gosta não mudou de ideias.
Em noite de "não mais fé", pode dizer-se, usando alguma liberdade de linguagem, que Deus também esteve do lado dos crentes, mais propriamente da Flor Caveira, editora de músicos protestantes sediada em Queluz. Actuaram em modo "uns por todos e todos por um": houve concertos de Samuel Úria, João Coração, Tiago Guillul, Os Pontos Negros e Bruno Morgado, e houve dezenas de músicos em palco, trocando instrumentos, cantando e tocando nas canções dos outros.
Para assistir ao Giro Flor Caveira houve que abdicar de grande parte do concerto dos Jet. Para assistir ao concerto dos Faith No More assistiu-se apenas às prestações de Úria, Coração e Guillul. Que foram, em termos subjectivos, extraordinárias. Úria (e banda) lembraram a mítica The Band. Coração apresentou-se de preto, e a dado momento virou as costas ao público, com a guitarra de pernas para baixo nas costas: era a imagem decalcada de Johny Cash. Fiel ao espírito do Man In Black, Coração acelerou as canções fazendo-as ganhar um ritmo vertiginoso, gritou as letras, dançou de pernas abertas e converteu gente que perguntava "Quem é este tipo?" ou exclamava (acreditem) "Mas isto é português!".
Na magnífica Muda que muda, as gentes da Flor Caveira invadiram o palco, cantando, dançando, no que se presume ser espírito comunal e festivaleiro. Tiago Guillul não quis ficar atrás e em três canções (Isto é folclore, Beijas como uma freira e Dentes de lobo) deu uma lição de como fazer canções em português e mostrou como a pop se pode unir ao gospel.
Umas horas depois do concerto, Úria confidenciava que "Deus iluminou a Flor Caveira" - e de facto para uns quantos houve ali uma epifania.