Videoclips

Nunca se viu tanta música em Portugal

29.10.2009 - Vítor Belanciano
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Em todo o mundo, graças ao YouTube ou ao Facebook, o videoclip renasce, afirmando-se como território artístico autónomo. Em Portugal acontece o mesmo. Uma fornada de realizadores, com percursos e motivações diferentes, dá vida nova a um formato que parecia moribundo.

Os canais de TV clássicos eliminaram-nos quase por completo das suas grelhas de programação. A MTV, cada vez mais alicerçada em programas de tele-realidade, reduziu a sua difusão. As editoras de música quase não têm dinheiro para eles. Muitos músicos olham-nos ainda pejorativamente, convencidos de que criar uma imagem é sinónimo de prostituição artística. E os cinéfilos, quando querem denegrir um filme, argumentam que possui linguagem de videoclip, como aconteceu com o polémico e último vencedor dos "scares, "Quem Quer Ser Bilionário?". 

Os videoclips têm costas largas. São tratados com paternalismo. Mas nunca se viram tantos como agora, na Internet, no YouTube, no Vimeo, nas redes sociais. Os orçamentos são mais reduzidos, mas há mais ideias. Há desejo de cinema, nalguns casos mais do que no próprio cinema. Mesmo aqueles que nunca ligaram ao formato são agora seduzidos por ele. Nunca se consumiu tanto o género. Tornaram-se senha de identidade, passam de ‘wall" em "wall" nas redes sociais. Já não ilustram música. Já não querem demonstrar nada. São objecto artístico, por si.

É assim em todo o mundo. Em Portugal também, onde as transformações na indústria do entretenimento reabriram a porta da criatividade aos videoclips, formato que parecia moribundo. Há meses reflectíamos aqui que o novo cenário estava a proporcionar a afirmação de uma nova geração de realizadores como Patrick Daughters, Jonas & François, Encyclopedia Pictura ou Andreas Nilsson, herdeiros dos já firmados Spike Jonze, Michel Gondry, Chris Cunningham, Mike Mills, Anton Corbijn ou Stéphane Sednaoui.

Por cá, nomes como Pedro Cláudio, Rui de Brito ou José Pinheiro já não necessitam de apresentações e são citados como referência, mas nos últimos anos outros têm feito trabalho válido. Falámos com sete desses novos realizadores, com percursos, aspirações e motivações estéticas distintas, mas outros poderiam ser nomeados (Pedro Lino, João Pedro Moreira, Paulo Abreu, Eduardo Matos, produções Uzi Filmes, etc), de tal forma existe um estilhaçar de actores neste território.

Apesar das inúmeras diferenças entre eles, existe qualquer coisa que os une: a paixão pela música. André Tentúgal é músico, tocando com Weatherman e encontrando-se a gravar o álbum de estreia do seu projecto Wingman. Paulo Segadães foi até há semanas o baterista do grupo rock Vicious 5. Pedro Maia, Rodrigo Areias e Paulo Prazeres já fizeram parte de bandas. Joana Linda estuda música desde pequena e Joana Areal confessa ter um fascínio especial por grupos femininos, aspirando até a formar um.

Do que todos não parecem ter dúvidas também é que a crise da indústria da música, as ferramentas para filmar a preços mais acessíveis, e a Internet, enquanto meio difusor, alteraram por completo o panorama dos videoclips. Com leituras para todos os gostos. "A crise da indústria e a Internet impulsionaram a criatividade", refere Tentúgal. "Hoje qualquer pessoa pode ter os meios para fazer um vídeo, as câmaras de filmar são baratas" aponta Segadães. "Antes do YouTube até se podiam fazer coisas, mas acabavam invariavelmente na gaveta" afirma Linda. "Não havia maneira de mostrar. Agora não. É uma revolução. Hoje vêem-se coisas óptimas feitas por miúdos. Claro que existe um excesso de coisas, mas o tempo imporá uma selecção, separando o que é lixo e o que vale a pena."

Baixo orçamento

Mas existem efeitos colaterais. As editoras escudam-se na realidade do baixo custo para investirem cada vez menos, argumentando, precisamente, que é possível fazer muito com pouco. Sim, a invenção é hoje muito mais preponderante do que a sofisticação dos meios, mas não vale a pena romantizar. "As editoras não arriscam", espelha Prazeres da produtora Droid-id, uma das mais activas no mercado. "Boas ideias, muito baratas, é coisa rara. Claro que existem rasgos, mas é necessário existir uma produção média de qualidade e isso só se consegue com dinheiro."

"As editoras acham que os vídeos não têm expressão, mas estão enganadas. O YouTube é um canal incrível" aponta Segadães. "A Internet, o fácil acesso à produção, permitem que se façam coisas fantásticas com pouco dinheiro. As editoras sabem-no e acabam por aproveitar-se disso." "Escudam-se na história de que não existem sítios para os passar, mas hoje a Internet faz mais por qualquer videoclip do que a TV" acrescenta Prazeres. "As coisas são mais canalizadas e as bandas têm noção disso, de tal forma que são elas que investem nos vídeos, mais do que as editoras."

A história actual dos videoclips em Portugal é uma história de baixo orçamento: "Não me importo, por vezes, de trabalhar com pouco dinheiro, porque é aliciante estar com músicos, mas tem de haver um mínimo e em Portugal nunca há", analisa Areal, cuja primeira experiência com videoclips aconteceu em Los Angeles, em 2001, com um grupo cimentado, os Los Lobos. O orçamento era reduzido para o padrão americano, mas superior à realidade portuguesa. "Foi uma experiência importante porque são uma banda específica - fundamental para a comunidade hispânica de L.A., que representa 40 por cento da população -, enquadrada num ambiente que era importante que fosse reflectido. Hoje gosto de fazer vídeos por isso: gosto de perceber a banda, como se enquadra socialmente, o que quer dizer. É fundamental essa compreensão e atenção pelos músicos."

Experiência inicial diferente teve Linda. Há dois anos adicionou Marissa Nadler, cantora pop-folk americana que admirava, à sua página do MySpace. Nessa altura, a cantora fez saber que desejava para a canção "Bird on your grave" um vídeo artístico, onde ela não entraria. Linda, que na altura havia começado a fazer experiências com uma máquina fotográfica digital, tentou a sorte, filmando-se a si própria por entre imagens de rigoroso preto e branco. "Era uma boa oportunidade para experimentar, fiz o vídeo, ela gostou, mostrou à editora, também gostaram muito. 24 horas depois, estava a receber emails da editora a dizer que o tinham mostrado à MTV e que tinham gostado bastante. De repente, aquilo tomou proporções surpreendentes e as MTV de todo o lado transmitiam um videoclip feito a partir de uma máquina fotográfica."
Fez mais dois videoclips para a mesma cantora, apesar de nunca se terem conhecido pessoalmente. "Só comunicamos por email" explica Linda. "É engraçado ter confiança em mim, mérito da Internet e das redes sociais de que tanto mal se fala, inclusive eu. Mas a verdade é que se não fosse o MySpace nada disto teria acontecido."

Em "River of the dirt", o último vídeo que fez para Marissa Nadler, pegou em dez actores e meteu-os num autocarro. "Fiz questão de pagar a todos e o que sobrou foi ridículo", afiança. "A não ser que a Beyoncé me peça para fazer um vídeo, não estou a ver como é que se pode ganhar dinheiro com isto. Mas o mesmo se passa no cinema. Quem ganha dinheiro no audiovisual trabalha em TV ou publicidade."

Vida paralela

Nenhum realizador subsiste só dos videoclips, mas todos ganham a vida a realizar ou a fotografar. Maia realiza imagens para concertos, trabalha em cinema, faz instalações vídeo, está ligado ao Curtas Vila do Conde. Areal faz publicidade e instalações vídeo, já encenou teatro, prepara o primeiro filme. Tentúgal faz projecções em concertos, publicidade, vídeos institucionais, documentários. Prazeres, no contexto da Droid-id, confecciona documentários, vídeos institucionais, filmes. Linda e Segadães têm a fotografia.

Para a maior parte, os vídeos parecem ser uma etapa para a feitura de uma longa-metragem. Alguns, como Areias, até já alcançaram esse patamar. "Os videoclips são uma realidade paralela na minha vida" diz, realçando que os que mais o satisfizeram foram aqueles onde sente desejo de cinema. "O vídeo que fiz, por exemplo, para o Sean Riley, é parte de um filme. Fiz uma coisa muito específica, a preto e branco, com a qual me identifico."

Nas suas curtas e na longa "Tebas", a música é omnipresente. É uma constante no seu trabalho. "A minha última curta tem música do Sean Riley e a longa tinha música do Tigerman. Por norma as pessoas para quem faço vídeos são as que trabalham comigo no cinema. É como se fizesse vídeos dentro de filmes, ou filmes dentro de videoclips." No caso de Areias, a cumplicidade com os músicos é fundamental. O último videoclip que realizou ("Life ain't enought for you" de Legendary Tigerman) foi filmado em Roma com a actriz Asia Argento. O ponto de partida era fazer um mini-filme "com a Argento e o Paulo Furtado [Tigerman]" explica. "Quando estava a montar, telefonei ao Furtado a perguntar-lhe se avançávamos com um primeiro plano de 50 segundos. Ter mais de quatro segundos já é crime. Mas ele riu-se e disse que sim. Ou seja, é necessário ter alguém do outro lado que esteja disposto também a arriscar e que não deixe que a editora interfira no trabalho do realizador."

Paulo Furtado é unanimemente apontado como alguém que possui sensibilidade para o trabalho da imagem. Percebe o seu alcance e participa no processo criativo. Há outras excepções, principalmente entre as novas gerações (Sam The Kid ou X-Wife são apontados como exemplos por Segadães e Tentúgal). "Há inclusive quem já componha a pensar em imagens e tem ideias sobre o que deseja", refere Prazeres. Mas a regra ainda parece ser a desconfiança em relação ao que fazer com a representação e a imagem.

"Não existem regras quando trabalho com os músicos", verbaliza por sua vez Areal, "umas vezes são eles que têm uma ideia, outras não. Todos os processos são diferentes e a piada é essa. Gosto do trabalho com músicos, de estar com eles e de os tentar compreender. Inspira-me, dá-me ideias, põe-me a pensar de outra forma, com outros tempos."
Nenhum deles fez um videoclip sem que algo - não necessariamente a música - os motivasse. Prazeres aponta que é "necessário um estímulo qualquer", assumindo que já passou por experiências fracassadas. "Já tive dissabores, do género desistir a meio, porque não acreditava naquilo." Areal explica que aquilo que a fascinou nos ingleses Selfish Cunt foi o seu lado performativo. "No segundo vídeo que fiz para eles tirei-os do seu habitat, o palco, para realçar precisamente essa presença cénica, num outro contexto."

Vale tudo

Nas décadas de 80 e 90, a MTV simbolizava a estética videoclip, em que os meios de produção eram fundamentais. Parecia existir um padrão: montagem fragmentada e acelerada, planos curtos justapostos, narrativa não-linear, multiplicidade visual e forte carga emocional nas imagens.

Actualmente, a existir alguma coisa, é uma fortíssima dispersão, um vale tudo onde ainda existe espaço para a sumptuosidade, mas onde o principal são as ideias. Agora são plataformas da Internet, blogues, comunidades virtuais (pitchfork, stereogum, videos.antville, videostatic, promonews) que ditam tendências audiovisuais, estreando, difundindo e propagando videoclips feitos com meios escassos e, normalmente, assentes em conceitos simples. 

"São um objecto artístico" reflecte Tentúgal. "Dantes havia pragmatismo, agora é possível acrescentar qualquer coisa à música, como se actuassem num terreno de grande experiência. Hoje um vídeo é como uma tela em branco." "Não há regras", aponta Segadães, "e de tal forma assim é que muitos videoclips funcionam como pequenos filmes. Já não pertencem a esse território MTV. São laboratórios." "Aquilo que criei para a Marissa Nadler está mais próximo da ideia de curta-metragem ou da vídeo-arte do que de uma estética videoclip", reflecte Linda. Areal corrobora mas realça que o tratamento de um videoclip é diferente: "O guião é a música e a banda. É necessário compreender com quem e para quem estamos a falar."

Num período histórico em que os meios de produção são quase universalmente alcançáveis, todos podemos fazer um bom videoclip, tal como qualquer indivíduo pode tirar uma boa fotografia. Mas isso não faz dele um artista. É a consistência de um percurso, e a afirmação de características próprias, que terá de provar se estamos perante alguém com possibilidades de afirmação. Nos videoclips não é fácil acontecer, até porque os realizadores são muitas vezes incógnitos do público.

Mas há excepções, como o festival ViMus, da Póvoa de Varzim, tentou provar ao longo de dois anos, com uma programação dedicada a realizadores de videoclips. "Quando se vê algo do Rui de Brito percebe-se que ele tem uma linguagem", diz Segadães, "o mesmo acontecendo com o Pedro Cláudio, que é alguém criativo, que valoriza as ideias e que, com poucos meios, faz vídeos fantásticos."

Prazeres acentua o juízo de que os realizadores continuam a ser secundários em relação à música: "Fala-se muito do Michel Gondry, do Chris Cunningham ou do Spike Jonze porque alguém teve a ideia de juntar os seus vídeos num DVD, mas para sabermos quem realiza a maior parte dos vídeos é preciso investigar", diz. Foi isso que Linda fez com Sophie Muller, quando percebeu que havia uma série de videoclips (Sade, Shakira, Beyoncé, Lily Allen) que partilhavam um universo semelhante. "A música não me interessava, mas os vídeos, não sendo coisas as coisas que faria, tinham qualquer coisa, um universo romântico, feminino talvez, que me prendeu, e que me levou a ela."

Em Portugal também há uma nova fornada de realizadores de videoclips com vontade de serem descobertos. Provavelmente até já passámos os olhos, no YouTube, no Vimeo ou no Facebook, pelas imagens em movimento de muitos deles e não o sabíamos. Agora já não há desculpas.


Comentários
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comentario03.11.2009 - 19:33 - Maria João Carvalho, Lisboa, Portugal
Obrigado pelo comentário acima. É simpático ver quem defenda o nosso trabalho, que fazemos por vezes a tanto custo e sempre com o máximo empenho de fazer o melhor que conseguimos. Gostávamos de saber a quem agradecer pelo comentário uma vez que neste contexto não nos favorece, à Moopie, ter um comentário destes publicado anonimamente. Obrigada, Moopie Videos.
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