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Polly Jean Harvey quer saber o que é esta coisa de estar vivo

10.02.2011 - João Bonifácio
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"Let England Shake" é, supostamente, um disco político que deixou os ingleses a coçar a cabeça. Mas para ela é trabalho como sempre, é uma escritora e faz o que os escritores fazem: criar personagens

Não há volta a dar: Polly Jean Harvey, música inglesa de 42 anos que há quase duas décadas expele demónios pela garganta, alcançou aquele estatuto em que o simples facto de lançar um disco é, já de si, notícia.

Isto é feito apenas ao alcance dos que fizeram discos que deixaram marcas na pele a quem os ouviu, dos que ofereceram a carne à musa em troca do talento, mas também dos que sobreviveram, dos que perceberam que um dia a fúria ir-se-ia e só restaria o talento e a capacidade de observação.

Foi isso que valeu a miss Harvey. Em 2004, aquando de "Uh Huh Her", o seu segundo disco falhado consecutivo (após o péssimo "Stories From The City Stories From The Sea", 2000), a mulher que deu cabo da cabeça ao senhor Nick Cave podia ser dada, em termos artísticos, como legalmente morta: não havia coração a bater naquelas canções.

A morte serviu-lhe, porque "White Chalk", o disco seguinte, de 2007, parecia uma assombração ao piano, um punhado de canções de embalar tétricas. Quem andava contente com a Polly Jean das mini-saias semi-rockeira deve ter ficado atazanado: quando a moça parecia domada, eis que resolve atirar às malvas o conforto em que a sua música tinha caído.
Voltava a não haver um "som PJ Harvey". Voltava a haver PJ Harvey.

Portanto não admira que tenha havido barulho ao saber-se que Harvey ia voltar a sair da toca, quatro anos depois. Mas quando o nome do disco saltou cá para fora houve um prenúncio de hecatombe que se confirmou quando as faixas começaram a aparecer aqui e ali: "Let England Shake" é daqueles títulos que só se dá ou quando se é muito novo e se tem a arrogância do mundo ou quando se sabe ter uma pequena bomba nas mãos ou quando se tem suficiente peso para fingir que se tem uma bomba nas mãos.

O que quer que tenha passado pela cabeça de Polly Jean nestes últimos quatro anos, foi suficiente para a levar a escrever um disco de acento político - embora a palavra "política" tenha hoje uma conotação simplória quando a sua raiz é bem mais complexa ("como organizar isto").
Como cães esfomeados perante um naco de carne (ou um intruso) a imprensa britânica atirou-se ao disco em abundantes laudas, seguiu com baba pelo queixo cada canção que ia sendo lançada neste ou naquele site, desunhou-se em interpretações sobre cada palavra da musa sobre a pátria-mãe.

Curiosamente, nada disto interessa. Sejamos claros: nunca nenhuma canção fez uma revolução. As canções podem acompanhar e incitar a mudanças, mas por si mesmas não criam movimentos sociais de massas. E não há um único disco que sirva de tratado político, por mais brilhante que a mente que o gizou seja - governar implica mais que juntar rimas em três minutos.

Olhar para ela

O que "Let England Shake" marca para quem não nasceu na velha, decadente e sobrevalorizada ilha (e está-se a borrifar para eles) é a confirmação de uma terceira vida na carreira de Polly Jean, tão fascinante quanto as duas anteriores: a Polly Jean patinho feio dos primeiros discos, que punha intestinos cá fora, deu lugar à Polly Jean "femme fatale" e experimentalista, que havia sorvido o melhor da música popular e brincava a ser mulher e esta, agora, depois de dois discos irritantes, dá lugar a uma mulher por inteiro.

Talvez por isso, mais que estar a discutir as eventuais lições políticas que miss Harvey tenha para nos oferecer, propusemos-lhe o oposto: olhar para ela. E ela, sabida, fugiu por todos os lados.

Polly Jean tem tiques que lembram um rapazinho. Isto não é alusão à ambiguidade sexual com que ela surgiu em 1992, com o magnífico "Dry", antes uma constantação: sendo por norma bastante ponderada em cada resposta, ganha um entusiasmo juvenilesco e vagamente totó quando se põe a falar de música, de como faz música, de como trabalha o som.

Começa a notar-se uma mudança de tom quando explica que "desde o início sabia que tinha de encontrar um som único", ganha entusiasmo quando afirma que "não queria que soasse a nada de específico nem a ninguém em concreto" e torna-se definitivamente adolescente quando entra pelo território musical adentro: "Não sei se notou, mas usei muito a auto-harp [espécie de mini-harpa], que tem um som distinto". Dito isto, resolveu explicar as virtudes da auto-harp, o seu efeito de bordão - se não a dedilharmos ganha uma espécie de camada de harmónicos que quase cobre as mudanças de acordes. Polly Jean parece ter um certo amor a perder-se na descrição de instrumentos que considera esquisitos. A dada altura diz: "Usei instrumentos que se adaptassem às letras. Por isso também queria muitos efeitos, para transformar o som". E assim parte para nova divagação acerca de efeitos e como gravar efeitos e a função dos efeitos.

Por mais aborrecido que isto pareça, existe algo a retirar daqui: a noção de que nas entrelinhas de cada nota tocada há um "efeito" emocional que se quer criar, isto é, que mais que estar em jogo uma sequência de notas está em jogo a forma como se apresenta essa sequência de notas. Portanto: teatro. Algo que está presente de forma explícita na carreira de Polly Jean desde o soberbo "To Bring You My Love", algo que ela refinara em 1997 quando fez uma tremenda versão de "Soldier's Wife", de Kurt Weill, acompanhada de magnífica coreografia.

A hipótese posta era simples: algures no caminho Polly Jean deixou a catarse biográfica e começou a encenar - aqui a encenar-se a si própria, ali a encenar outros.

"Há uma tendência das pessoas para acharem que tudo um compositor faz é autobiografia", diz, no seu jeito lento de falar, como quem caminha sobre um território de minas e teme ficar sem uma perna. "Isso é-me estranho porque antes de mais vejo-me como escritora". Há uma ligeira pausa e podíamos jurar ter notado na sua voz de menina - voz tremendamente frágil que nos faz pensar como é possível sair tanta raiva daquela caixa toráxica - e ela diz: "O que faço é trabalhar uma ficção. Uso personagens para descrever uma acção".

Seja ou não verdade, este é um ponto importante para Polly Jean: afirmar-se como escritora. Está presente em várias das suas frases. "Há pouco estava a falar de como trabalho o som. Bem, esse lado só vem depois. Antes de mais sou uma escritora". Ou então: "A razão pela qual o disco é variado em termos sonoros, pela qual a música tem muita energia e é inspiradora, é que as palavras são muito pesadas".

Realça o seu lado de demiurga objectiva olhando para trás: "Não acho que tenha mudado com 'To Bring You My Love'. Sempre criei uma dimensão teatral, sempre criei personagens para as canções. Isso sempre lá esteve". E como se a ideia ainda não estivesse explícita, a frase seguinte começa com "Como escritora": "Como escritora tenho de habitar as personagens, imaginar diferentes vidas, encontrar ângulos diferentes". A frase seguinte é ainda mais reveladora: "Usar a imaginação é o nosso trabalho".

Podíamos partir do princípio que aquele "nosso" era Polly Jean a pôr-se em bicos de pés, mas se nos ativermos ao tom de humildade que ela usa quase sempre (ou de susto, depende da interpretação de cada um) mais se diria corresponder a uma diluição: ela é uma escritora entre milhares de escritores e o que os escritores fazem é criar. "Não tomei uma decisão consciente de ser teatral, nem descobri essa dimensão em ninguém, isso vem de raiz, está na génese do trabalho".

Arruma o assunto de forma curiosa. "Na prática isto é uma coisa simples que sempre foi feita: questionar o que é isso de estar vivo, numa época, num momento". Depois acrescenta: "Espero que isto não soe demasiado arrogante. Apenas tento resolver questões que me coloco. Ou não as resolver".

De acordo com miss Harvey é esta a razão pela qual demora tanto a escrever um novo disco a solo. "Com o passar do tempo estudei mais e mais. No que toca a fazer discos há uma parte que é de estudo, de investigação. Naturalmente com cada disco é necessária muita pesquisa para fazer um trabalho fortel, para o tornar coerente. E isto leva tempo".

(Ainda e sempre à procura de uma nesga biográfica, perguntamos-lhe se a toda essa investigação corresponde uma tendência para a obsessão. Harvey ludibria-nos mais depressa que Messi na Playstation de um puto anti-social: "Não penso que isso faça de mim mais ou menos obsessiva que qualquer outra pessoa - é o que o trabalho precisa para ser bem feito e é isso que eu faço". Toma lá que é para aprenderes, pá.)
É curioso verificar como o discurso de Harvey sobre o seu trabalho é hoje próximo do ex-namorado Nick Cave: ele tem um escritório onde trabalha das nove às cinco, ela diz que trabalha "todos os dias, com um horário, como toda a gente". "Não vejo grande diferença entre o que eu faço e ter um emprego normal".

Também não vê qualquer diferença entre o seu método e o de um romancista. "O que faço é escrever, e alguns desses poemas chegam a canções. Outros ficam para trás", atira, naquele tom de quem tem um pé fora da porta para poder fugir a qualquer momento.

Já a notar que a ideia de falar do conteúdo político do disco teria de ficar para outro dia, perguntámos-lhe como é que se dá esse processo de escolha dos textos que acabam em canção ou não. "Todos os escritores têm uma linha que traçam e optam por deixar textos por publicar. Por questões de discrição ou pudor ou exposição. Há coisas que não publico ou então que destruo, mesmo. Bem, só destruo quando é mau".

Esta quantidade de palavras seguidas é, para Harvey, uma coisa imensa. O monólogo acaba numa frase sintomática: "Se um texto for demasiado rente ao osso aí o que lhe faço depende - depende se é sobre mim ou sobre os outros". É uma ideia que tem de ser lida à luz do que ela sempre afirmou sobre as suas canções: nenhuma era sobre uma pessoa em concreto, ideia que repisou aquando da separação de Nick Cave (que pelo contrário fez de "Boatman's Call" toda uma ladainha de saudade em louvor à moça).

"Sempre adorei os artistas que continuam a experimentar, sejam escritores sejam músicos. Respeito imenso pessoas como Neil Young e Björk - ela anda sempre para a frente, não há nostalgia com ela".

E com Polly Jean, há lugar a nostalgias? "Ouço os meus discos antigos muito poucas vezes. Dou-lhes valor, não renego o que fiz, há coisas que gosto muito, mas interessa-me mais o agora, o que posso fazer a seguir ou o que estou a descobrir no momento. Quando está feito é passado".

A isto chama-se classe.


Comentários
comentario 1 a 10 de um total de 12
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comentario20.02.2011 - 13:49 - jose, porto
Nem deviam ter publicado esta crítica. Está muito má.
comentario19.02.2011 - 19:23 - etp, Lx
A lógica é uma coisa que não abunda na cultura portuguesa. Acerca da geração Facebook ela tem algumas coisas boas: despertou uma revolução no Egipto (ver caso Wael Ghonim), uma verdadeira revolução do povo, não de militares. Acerca de ter inveja pela "profissão de crítico": nunca me passou pela cabeça tal coisa, tenho uma profissão bem mais interessante. Agora uma coisa é certa: leio, e pago o Público com regularidade e como leitor pagante tenho o direito de criticar aquilo que compro. E o que aqui estou a comprar é uma crítica mediocre. Não me interessa se a pessoa gosta ou não do album, o que me interessa é uma boa crítica. E esta é muito má!!!!!!!
comentario19.02.2011 - 13:57 - Anónimo, Lisboa
Nada como passear pelos comentários para constatar mais um dos muitos efeitos da geração facebook, a quem já nem passa pela cabeça pagar (e, logo, ter de ter critério e selectividade) para ouvir música: não é por terem 100 gigas de música no computador que são críticos de música. Têm inveja do autor deste artigo ter a profissão que tem? Azar. A crítica dele é só dele, vocês não têm que concordar com ela e muito menos têm voto na matéria sobre se ele está "certo" ou "errado". É uma crítica, e ele é um crítico de música. Enforquem-se com isso.
comentario19.02.2011 - 03:45 - Afonso, Porto,Portugal
A primeira metade do artigo está medíocre, a segunda não quis ler... fico meio mal-disposto...
comentario19.02.2011 - 03:22 - etp, Lx
Esta crítica não tem nível, é um completo absurdo. Continuo a não compreender estes críticos pseudo-contemporâneos quer de música quer de cinema. Em todas as comunidades as críticas são feitas pelos "colegas" de profissão (conhecido pela designação anglo-saxonica de "peer reviewed"). Cientistas avaliam o trabalho de cientistas, historiadores avaliam o trabalho de historiadores... Não percebo por que é que nas artes em geral tem de existir esta figura esfíngica do crítico como profissão. Para mim este texto não tem crédito e como tal vou de ouvir o album com atenção. A PJ teve ser a capacidade de me surpreender.
comentario19.02.2011 - 01:56 - PJB, Harvington
meu caro, na sua escrita e nas destilarias de malte, um rótulo - JB
comentario18.02.2011 - 18:42 - flint, es
Os críticos de musica estão falidos, deixaram-se falir na sua ansiedade da criação de mitos. Blá blá blá cada um toma o que quer. Já pensaram dedicar-se a assuntos interessantes?
comentario18.02.2011 - 18:02 - Anónimo, Lisboa
Críticos vaidosos acabam por se pôr em bicos de pés, tentando que o leitor se maravilha com o texto que escrevem em vez de analisar a obra. E achar que Stories From The City Stories From The Sea é péssimo revela desconhecimento sobre PJ Harvey. A própria PJ o considera um trabalho comercial e fê-lo intencionalmente. Mas os doutos críticos devem sempre arrasar o que é comercial. Stories From The City Stories From The Sea é um trabalho de excepção e os seus lado b põe a um canto a maior parte do produção discográfica actual.
comentario18.02.2011 - 03:06 - Pedro Loureiro, Amora
Concordo com o autor desta ''crítica'': político tem hoje em dia uma conotação simplória! No entanto, ''crítico'' tem uma conotação de ainda pior índole: aberrante, despropositado, pseudo-intelectual! Populam neste jornal indivíduos desta espécie, que utilizam o espaço que lhes é concedido para deambulações despropositadas sobre as mais variadas questões mais ou menos acessórias relacionados com o objecto da crítica, dissertações pseudo-intelectuais de quem se tenta fazer passar por conhecedor profundo mas que no seu íntimo sabe que é uma fraude. Desta ausência de verdadeira conteúdo decorre a necessidade de desviar as atenções do essencial, que torna um artigo de crítica musical (ou de cinema, já agora) num exercício inútil e ridiculamente asbtracto e subjectivo, pejado de referências a outros músicos (cineastas), discos (filmes) cujo contributo para o objectivo pretendido é nulo. Um grito de ajuda e ao mesmo tempo um exercício de exibicionimos como quem tem necessidade de gritar em público: "Já repararam nas inúmeras referências, citações e informações triviais e inúteis que eu conheço no mundo da música (cinema)?". Só para terminar, considerar o "Stories from the city, stories from the sea" um álbum péssimo é peregrinamente idiota, sem dúvida! Haja paciência!
comentario17.02.2011 - 18:16 - Anónimo, Leiria
O "Stories From The City Stories From The Sea" péssimo? Gostava de ver o teu caixote do lixo...
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