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09.03.2011 - Luís Miguel Queirós
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Dois ex-dirigentes do Black Panther e um militante que esteve quase 30 anos em regime de solitária numa prisão norte-americana estiveram no Porto a recordar o legado do movimento que inflamou a juventude negra dos EUA na década de 1960

Uma impressiva pantera negra, em tamanho natural, adorna o passeio fronteiro ao estádio do Boavista, no Porto. Numa noite da semana passada, quem ali passasse um pouco depois das onze da noite, poderia ver um homem dos seus 70 anos montado na dita pantera, de braços abertos e rindo à gargalhada, enquanto outro, bastante mais novo, deitado com as costas no chão, o fotografava.

O homem sorridente chama-se Robert King e não é um veterano adepto do Boavista em romagem sentimental. Na verdade, o próprio facto de ser ainda capaz de se rir com um riso tão contagiante é digno de nota. King passou metade da sua vida na prisão, incluindo 29 anos em regime de solitária. Nunca ouvira falar do Boavista nem da sua claque, os Panteras Negras, mas divertiu-o vir encontrar no Porto o símbolo do seu antigo partido, o Black Panther Party, a organização de jovens negros americanos que, na segunda metade dos anos de 1960 e no início da década seguinte, deixou o FBI de J. Edgar Hoover à beira de um ataque de nervos.

O homem deitado no chão é Ricardo Gouveia, nome civil do muralista e artista de intervenção Rigo 23, há muito radicado em São Francisco, Califórnia, EUA. A ele se devem os contactos que permitiram a vinda a Portugal de Robert King e de dois outros activistas dos Black Panther (BP), nada menos do que os ex-ministros da Informação e da Cultura do partido, respectivamente Billy X Jennings e Emory Douglas. Este último é também um artista conceituado e o principal responsável pela poderosa dimensão gráfica dos BP, divulgada em murais e através do jornal do partido, que chegou a distribuir 250 mil exemplares por semana, embora os militantes inscritos nunca tenham ultrapassado os cinco mil.

Jennings, cujo "X", tal como o do célebre Malcolm X, evoca o tempo em que os escravos negros não tinham direito a nome de família, tornou-se uma espécie de arquivista do partido. Criou um site (www.itsabouttimebpp.com), com mais de cinco milhões de visitantes, e está empenhado em garantir que "os miúdos de hoje saibam o que realmente aconteceu" naqueles tempos.

Todos eles vieram a Portugal participar num programa dedicado aos Black Panthers pelo Museu de Serralves, integrado no ciclo de actividades que acompanha a exposição Às Artes, Cidadãos!

Além de uma retrospectiva da obra gráfica de Emory Douglas, Serralves apresentou um ciclo de filmes sobre os Black Panthers, que incluiu vários documentários filmados na época.

O ciclo integrou ainda alguns filmes recentes, como In the Land of the Free, de Vadim Jean, com narração de Samuel L. Jackson, que conta a história dos "Angola 3", um trio de ex-militantes dos BP encarcerados durante décadas na prisão Angola, no estado da Luisiana, que se chama assim por ter sido construída nos terrenos de uma vasta plantação onde outrora trabalhavam escravos negros vindos da ex-colónia portuguesa.

Os três de Angola

Dado que os presos são hoje obrigados a trabalhar nos campos que continuam a rodear o edifício, King argumenta que na prisão da Luisiana se continua a praticar "escravatura legal". E sabe do que fala, já que ele é um dos "três de Angola". Passou 29 anos em regime de solitária, acusado por uma testemunha de ter colaborado na morte de um outro detido.

O facto de o crime ter sido assumido por outro preso, que ilibou King, e de a testemunha em causa ser virtualmente cega, como veio posteriormente a demonstrar-se em tribunal, não o impediu de ser condenado. A sentença só foi revista em 2001, e King viu-se obrigado a declarar-se culpado de conspiração criminosa para conseguir o acordo judicial que levou à sua libertação.

"A prisão é a pior coisa do mundo, e estar em regime de solitária é uma humilhação, uma coisa na qual não se deve ver nenhum tipo de glamour". Confinado à sua cela de três metros por dois, 23 horas diárias, durante mais de dez mil dias, passava o tempo a ler, quando o deixavam, ou a jogar xadrez, num tabuleiro e figuras construído em papel. "Lia para me entreter, sobretudo textos teóricos e obras de Direito". Tornou-se, na verdade, uma espécie de advogado amador, auxiliando outros detidos a apresentar queixas.

Agora, o seu objectivo é conseguir tirar de Angola os seus dois antigos camaradas do BP, Albert Woodfox e Herman Wallace, que estão desde 2008 num dormitório de alta segurança, mas que permaneceram mais de 36 anos na solitária. Woodfox e Wallace foram acusados da morte de um guarda prisional, ao que tudo indica com base em testemunhos forjados. Ouvida no filme de Vadim Jean, a viúva do guarda afirma: "Acredito que eles não são culpados e que estão a viver um pesadelo".

Um tribunal já ordenou a repetição do julgamento, alegando ter havido "discriminação racial, má conduta processual, defesa desadequada e supressão de provas", mas a decisão está suspensa de um recurso interposto pelas autoridades.

King não tem dúvidas de que os amigos são, como ele o foi, presos políticos, ainda que todos tenham tido antecedentes criminais. King praticou roubos de pouca monta e sem recurso a violência, Woodfox foi acusado de um roubo à mão armada e Wallace assaltou um banco.

Com percursos semelhantes, todos eles se deixaram cativar pelos BP no início dos anos de 1970. "Percebi que a moralidade estava do lado deles, e não dos políticos de Washington", diz King. Wallace, num texto escrito na prisão, conta que entrou em contacto com os BP em 1971 e que estes lhe deram a ler Mao, Marx, Engels, Fidel, Che Guevara, Lenine e Estaline, entre outros, "e especialmente Franz Fahnon", um psiquiatra e escritor nascido na Martinica que se tornaria uma referência fundamental dos movimentos de libertação africanos, a quem afirma dever a sua "transição de uma mentalidade criminosa para uma mentalidade revolucionária".

Prioridades do partido

A educação dos seus militantes, e da comunidade negra em geral, foi sempre uma das prioridades do partido. E Jennings explica por que é que as principais referências teóricas eram um tanto eclécticas: "Interessava-nos gente que tivesse liderado revoluções bem sucedidas, como Mao ou Che, mas não éramos dogmáticos, até porque a nossa situação era muito específica, nós lidávamos com um racismo feroz".

Se King aderiu ao partido com pouco menos de 30 anos, Jennings era um estudante de 17 anos quando se tornou um Pantera Negra. "Nos primeiros anos do partido, tínhamos quase todos entre 16 e 22 anos", diz Emory Douglas. Os filmes exibidos em Serralves confirmam-no: quase todos os rapazes de casaco de cabedal preto e as raparigas de cabeleira encarapinhada - numa época em que a esmagadora maioria das jovens negras esticava o cabelo - parecem muito novos, quase adolescentes. E em várias cenas, todos eles trazem espingardas e cantam: "The revolution is come/It"s time to pick up the gun [A revolução chegou/ É tempo de pegar na arma]".

Jennings diz que a sua "grande inspiração para aderir aos BP foi Bobby Hutton, que ainda em 1966, aos 16 anos, se tornara o primeiro militante recrutado por Newton e Seale. Morreu dois anos depois, assassinado num confronto dos Panther com a polícia de Oakland.

Nessa ocasião, Hutton estaria desarmado, mas, na Califórnia, os BP, que começaram por se chamar Black Panther Party for Self-Defense, andavam geralmente armados, aproveitando a lei estadual que permitia que os civis usassem arma desde que estivesse à vista.

Todo o programa político do partido era deliberadamente "legalista". Os célebres "dez pontos" que os militantes tinham que aprender de cor não faziam mais do que exigir para os mesmos direitos que a Constituição garantia, em teoria, a todos. O primeiro objectivo do partido era defender os bairros da brutalidade policial. "Os assassínios de negros eram constantes e os jovens, embora respeitassem Martin Luther King, achavam que já não bastava dar a outra face, que era preciso ir mais longe", diz Douglas.

Obama não é solução

Fundado em Outubro de 1966 com dois únicos membros, Newton e Seale, fortemente inspirados em Malcolm X, assassinado num comício no ano anterior, o BP já tinha, pelo final da década, 48 núcleos em todo o país. E se o número de militantes nunca foi muito alto, Douglas explica que a prioridade era "convencer as pessoas a juntar-se à luta, e não necessariamente ao partido". Contavam, explica, com cerca de vinte mil simpatizantes que compareciam às manifestações. Supriam ainda a falta de militantes pela articulação com outros movimentos, como o Peace and Freedom Party, que ainda existe, ou organizações de estudantes brancos de extrema-esquerda.

"Nós tínhamos gente de todos os meios e crenças", diz Jennings. "Havia estudantes, intelectuais, proletários, baptistas, ateus, muçulmanos, rastas, e todos eles puseram tudo isso de parte em nome da unidade do partido, o que era um testemunho muito forte". Outra singularidade era o poder das mulheres, representavam metade dos militantes, andavam armadas, e chegaram, em muitos casos, ao comité central do partido.

No final dos anos de 1960, muitos famosos apoiaram e financiaram o movimento, como Marlon Brando, Jane Fonda e John Lennon. Ou a banda Grateful Dead.

O prestígio dos BP ficou também a dever-se à acção social. Promoveram um programa de pequenos-almoços escolares, que o Governo veio a institucionalizar, e criaram 11 centros de saúde gratuitos, dois dos quais ainda funcionam, garante Jennings, embora o partido tenha deixado oficialmente de existir em 1982.

"Éramos todos muito novos e caiu-nos em cima o FBI, a CIA, todos", diz Douglas, justificando a dissolução do partido. A repressão policial, a prisão e, em alguns casos, o assassinato de militantes - em 1968, Hoover afirmou publicamente que os BP eram "a principal ameaça à segurança interna" - é uma parte da história. A outra foi o CoIntelPro, o programa de contra-informação do FBI, que conseguiu provocar graves cisões no BP.

Para King, enquanto esteve preso, um dos momentos mais difíceis foi saber que o partido estava a desmoronar-se. "Fiquei muito zangado, mas depois pensei: o BP acabou? E depois? Eu não aderi a um partido, aderi a uma luta, e a luta continua". E fala também do presente. "O capitalismo e o racismo são os fundamentos da América, o capital financeiro é que manda, com ou sem Obama, e enquanto isso não mudar, não há mudança verdadeira". King admite que Obama possa ser bem intencionado, mas a crise que hoje se vive é pior do que a de 1929 e "Roosevelt fez, na época, mais do que Obama está a fazer agora", lamenta.