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Comprimidos para a memória

25.05.2012 - Gonçalo Frota
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O funk/soul/hip-hop instrumental solidifica no segundo álbum dos Orelha Negra. Um botão de refresh na história da música negra, pressionado por um quinteto português

C34!", berra João Gomes. E berra porque a sua voz tem de furar uma espessa camada de groove formada pela bateria agitada de Fred Ferreira, os beats em loop disparados por Sam the Kid, os samples de vozes a capella atirados para o ar por Cruzfader, os baixos ou as guitarras serpenteantes de Francisco Rebelo e os seus próprios teclados que andam sobre fogo. Na verdade, é precisamente por causa dos teclados que João Gomes berra. Porque naquele ensaio de prospecção musical encontrou mais uma pérola que não pode permitir ser desbaratada pela memória e perder-se para sempre. "C34, filtro X" indica, portanto, o som de teclado, assinala com uma estaca a descoberta e fixa a sonoridade perfeita para aquele pedaço de música gerado em tempo real no estúdio dos Orelha Negra. João Gomes berra porque os ensaios são sempre gravados - para registar os temas em evolução, para agarrar estas ideias chegadas na hora e resgatar outras de que ninguém se dá conta no momento.

Só que esta medida profiláctica contra o esquecimento não é garantida a 100%. "Já aconteceu o desaparecimento de um ou dois ensaios míticos", conta Fred. Um ensaio onde sabiam estar a salvo qualquer pedaço de uma importância quase vital mas que se perdeu para sempre. "Havia lá uma coisa incrível. Procura aí no computador, Chico". Mas, como Francisco Rebelo nos esclarece, às vezes o portátil cede às suas reservas de energia, apaga-se sem aviso prévio e assim que dão por isso desenrascam uma solução de emergência com o telemóvel. "Mas depois", diz o baixista/guitarrista, "fica um buraco em que se perdeu uma cena e já não se consegue ligar uma parte à outra". E sem gravação não há respostas, porque a música dos Orelha Negra, como facilmente se percebe nos seus dois discos homónimos, assemelha-se a uma entidade viva que não se limita a fazer suceder a secção C à secção B à secção A. É uma música que tem um princípio e um fim, e no meio vai acontecendo.

Nesta abordagem em que todos dão palpites sobre as partes dos outros, as linguagens de origem de cada um cruzam-se por vezes de forma pouco estudada pelos livros de produção. O fundo hip-hop de Sam the Kid, por exemplo, faz com que na sua cabeça as músicas se desenrolem sempre como loops, mesmo que de uma dimensão pouco habitual: "O Golden Hotel, por exemplo, para mim é um loop enorme de 32 barras, mas faz-me sentido aquela volta de minuto e meio que depois se repete. É minha forma matemática de pensar na música e é assim que comunicamos. E comunicamos bem porque já nos conhecemos. Quando um gajo diz cinzento, o outro tem de saber o que é cinzento". "Isto porque às vezes a cabeça de um de nós vê algo que os outros ainda não viram", acrescenta Francisco. No caso de Samuel, não só está sintonizado nos loops como é capaz de efectuar samples da forma mais primitiva possível. Ouve uma linha de baixo e identifica imediatamente um pequeno excerto que sabe funcionar se recortado e extraído do ambiente inicial. "Mas para mim", explica Rebelo, "aquilo ainda não era nada, ainda nem sequer tinha encontrado o meu espaço dentro da música. E, de repente, tenho de partir da gravação, ouvir algo que para mim não tinha contexto nenhum, absorver um bocado o pensamento dele e torná-lo meu. Isto de nos apossarmos das coisas uns dos outros é fixe".

Vindo também do hip-hop, Cruzfader assume um papel diferente dos demais. Cruz senta-se na sala de ensaios com uma mala de ferramentas - que é como quem diz um banco de tools, um armazém digital de samples de onde vai retirando pequenos elementos colocados cirurgicamente sobre a música preparada pelos outros. É um mestre de acabamentos. E foi também uma das vítimas daqueles excertos com fama de perfeição e que, de forma quase inexplicável, se atascam no pântano do olvido. "Encontrei a tool na sala de ensaio mas depois não lembrei mais", diz Cruz. A tool não desapareceu, Sam lembra-se até que era um a capella em que se ouvia "here he comes to me"; desapareceu sim o caminho para chegar até lá - à falta de migalhas ou de berros para registar o atalho.

O vocalista

Orelha Negra, colheita 2012, distingue-se primeiramente de Orelha Negra, colheita 2010, porque começou pela ponta oposta. Quando o quinteto arrancou com o projecto, a hora de inscrever o nome na produção nacional chegou na altura em que Fred marcou um concerto no Musicbox e os Orelha Negra tiveram de ser assumidos perante terceiros. O álbum foi uma consequência do concerto, ao perceberem que a música que tinham em mãos já era crescidinha que chegasse para se fazer à vida. No caso do segundo tomo, a evidência de que um disco estava a tomar forma chegou mais cedo do que a exigência do palco. Mas acontece que: "O concerto é daquelas coisas de que precisamos para fixarmos um objectivo e apertarmos mais connosco".

A decisão, tomada com meses de antecedência, só começou a pesar-lhes em cima da data reservada para o Centro Cultural de Belém (CCB), em meados de Janeiro. E nesse momento impôs-se-lhes o esmagamento de "trabalhar num disco novo e simultaneamente preparar um espectáculo com coisas que nunca tinham sido tocadas fora da sala de ensaios". Esboçaram então um plano impossível que fez jus à sua impossibilidade. "Se estivermos das 10h ao meio-dia no disco, depois pararmos do meio-dia à uma para almoçar e da uma e meia às 3h da manhã voltarmos a ensaiar conseguimos tocar no CCB no sábado e na segunda seguimos para estúdio para fazer as misturas". A impossibilidade tornou-se libertadora e acabaram o disco sem prazos ameaçadores, desprezando as datas recomendadas pelo calendário da indústria, para capitalizar mediatismo, agenda de concertos e vendas de discos. Algo que, de resto, Sam the Kid diz nunca ter compreendido totalmente, quando lhe apresentavam a saída de discos de Celine Dion em período natalício como potenciadora de um resultado menos brilhante para o seu próprio álbum. "Mas há cenas que se forem adiadas acabam por ser mais eficazes", concede. "Dou o braço a torcer - é assim que o sistema está montado". E, aproveitando a embalagem, envia um abraço ao ex-presidente do Sporting, Dias da Cunha, pelo uso imoderado da palavra "sistema".

Nessa noite de CCB, apesar de alguma insegurança na estreia dos temas novos, na sala lotada para assistir ao concerto de uma banda instrumental vivia-se um clima de euforia. Em palco, os Orelha Negra pareciam uma revelação da ordem do milagre, uma máquina de groove tão bem calibrada que lembrava grandes nomes que existiram e outros que teimam em não existir - Funk Brothers, Booker T. and the MG's na primeira categoria; na segunda a incrível quantidade de bandas medianas que falham em acompanhar cantores de primeira linha como Aloec Blacc e que o quinteto português substituiria superiormente. E essa ideia, podendo ser uma simples miragem, não o é afinal. "Temos na gaveta um projecto inteiro com um cantor", Samuel em modo confissão. "Esperámos fazer um segundo álbum, para consolidarmos também, antes de trabalharmos com esse cantor". Claro que a banda só prevê esta previsível colaboração de uma forma pontual. Como um convidado a quem, no fim da noite, se leva à porta e se diz "adeus, até qualquer dia".

Até porque, continua Francisco sem evitar o riso, "os vocalistas são sempre seres complicados". "Eu gosto muito dos Orelha Negra também porque finalmente não tenho um vocalista para aturar". Fred assume prontamente o papel: "Aqui não têm vocalistas mas têm-me a mim, que sou mais refilão. Sou quase um vocalista - sem as manias, mas com os refilanços todos".

Em Orelha Negra, não há vocalistas, mas há Viriato Ventura - nome artístico do pai de Sam the Kid. Em Espelho ouve-se a sua voz declamando um poema resgatado a um caderno dos seus escritos dos 20 anos. Mas na bateria de entrevistas de promoção, alguém corrigiu a informação, esclarecendo que aquelas "luas de Júpiter" eram afinal de Jimi Hendrix. "Nem o meu pai sabia", diz-nos Sam. "É uma adaptação e onde ele diz Arizona o meu pai diz Alentejo", "Realmente, como é que eu escrevi isto aos 20 anos?", ter-lhe-á dito o pai. Mas faz todo o sentido na vida dos Orelha Negra. Ou não fossem eles exímios recontextualizadores do passado transformando-o num excitante e novo presente.