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Um festival global no Porto

01.06.2012 - Vítor Belanciano
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Quando se diz Primavera Sound pensa-se em música actual, em melómanos de todo o mundo, em cidades estimulantes, numa experiência onde a qualidade suplanta a obsessão pela quantidade. A partir de 5ª feira, o Primavera Sound é do Porto

Muito mais do que um festival de música." Quantas vezes ouvimos esta frase? Tantas que a mesma se tornou mero adereço. Saudemos por isso um festival que se assume como sendo de música. E nessa dinâmica, gerada a partir da música, é mais do que um festival de música.

Não porque faça qualquer esforço para sê-lo, mas porque o seu impacto - artístico, económico ou de projecção da imagem da cidade onde se realiza - está para além da música. Ao longo de mais de uma década de vida, com arrojo, profundidade e esforço, tornou-se numa identidade credível e reconhecida em todo o mundo. Falamos do Primavera Sound que se realizará pela primeira vez no Porto, o tipo de festival a que se vai antes mesmo sem saber os nomes que integrarão o cartaz. Porque foi construída uma relação de confiança entre público e festival.

Um outro festival com origem em Barcelona, o Sónar, também conseguiu esse feito de se tornar numa identidade - ou uma "marca", como se tornou habitual dizer - com vocação global.

É aliciante comparar a evolução dos mais conhecidos festivais espanhóis com portugueses. Há muitos anos invejavam-nos. Aqui as estruturas e os cartéis eram deficientes, mas um país pequeno, com uma indústria musical estreita, concretizava eventos para milhares de pessoas, apostando em grupos de culto como Portishead, PJ Harvey ou Sonic Youth.

No espaço de meia dúzia de anos tudo mudou, porque o Sónar, o Primavera Sound e o Bénicassim se afirmaram para todo o mundo. Os dois primeiros, em particular, criaram uma dinâmica imbatível. Experimentá-los é sentir que se está num espaço onde circulam pessoas de todas as latitudes com música, ideias e estilos misturados, que fazem sentido hoje. Devolvem-nos o mundo na sua complexidade, no presente.

A solução é sair

A comparação com Portugal poderá ser, à superfície, injusta: o mercado espanhol é maior, o poderio económico também e o país possui uma outra centralidade geográfica, que lhe permite apostar nos mercados próximos.

Mas, antes, existe um problema de identidade. O Sónar é o mais credível festival de músicas electrónicas do mundo e o Primavera Sound um exemplo de consistência em todas as áreas das músicas alternativas pop-rock, ambos apostando em propostas consolidadas e emergentes.

Mais do que a quantidade de público - nos últimos anos, em ambos os casos, a procura foi superior à oferta - interessa-lhes a fidelização, para que quem gostou possa regressar e confiar em quem programa. Ambos lidaram com o problema do crescimento, apostando além-fronteiras.

Este ano o Sónar teve uma primeira edição no Brasil e o Primavera Sound expande-se para o Porto. Não surpreende que o primeiro se tenha imposto nos últimos anos da década de 1990 e primeiros da década de 2000, quando as diversas linguagens electrónicas tiveram grande impacto. Já a credibilização do Primavera Sound coincidiu, em parte, com o renascer do rock alternativo na alvorada dos anos 2000.

Ambos são indissociáveis de Barcelona, tendo acompanhado a transformação de uma cidade que, nas duas últimas décadas, passou do papel de urbe meio esquecida a uma das metrópoles mais desejáveis da Europa e que, na actualidade, vive o conflito da superlotação turística.

Quer o Sónar, quer o Primavera Sound, têm o mesmo problema. A sua capacidade de crescer esgotou-se, até por causa dos espaços físicos onde ambos decorrem. A solução é sair. "Em Barcelona não queremos passar das 40 mil pessoas diárias", dizia-nos Gabriel Ruiz, director do Primavera Sound, "e a consequência natural foi começar a pensar noutro sítio."

Propostas não faltaram, mas a opção foi o Porto, cidade com potencial mas ainda pouco conhecida (como Barcelona, anos antes), portanto passível de ser descoberta com surpresa. A ligação com a produtora portuguesa Ritmos (do festival Paredes de Coura) e o parque da cidade foram outras mais-valias tidas em conta.

Entre 5ª feira, dia 7, e sábado, dia 9, evoluirão pelos quatro palcos do parque da cidade nomes como Atlas Sound, Suede, The Drums, The Rapture, Beach House, Chairlift, The xx, Black Lips, M83, Rufus Wainwright, Flaming Lips, The Walkmen, Wilco, Yo La Tengo, Demdike Stare, Forest Swords, Gala Drop, John Talabot, Kings Of Convenience, Lee Ranaldo, Saint Etienne, The Weeknd, Spiritualized ou Washed Out. Domingo, dia 10, é a Casa da Música e o Hard-Club que receberão nomes como Best Youth, James Ferraro, Kindness ou Olivia Tremor Control.

Não é um festival para espectadores passivos. Pede-se-lhes que não tenham receio de se perder nas escolhas. Pode-se ir atrás do grupo que já se conhece ou do desconhecido. O cartaz funciona como uma síntese dos grupos que deram que falar nos últimos meses, com os que irão dar que falar nos próximos, e consagrados à mistura.

Mas não é apenas pelo cartaz que o Sónar ou o Primavera Sound se diferenciam. O artista e músico João Paulo Feliciano, convidado para a direcção artística e cenográfica do Primavera Sound no Porto, é da opinião que a maior parte dos festivais assenta numa tipologia genérica, semelhantes no modelo, na distribuição dos palcos, na presença visual dos patrocinadores e nas infra-estruturas. Com algumas excepções - como o Sónar, onde a comunicação da imagem é também uma operação artística - a maioria não se diferencia. "O meu trabalho é procurar a especificidade de uma conjugação de factores (o patrocinador, o parque, o festival e o Porto), potenciando-os, para que a experiência seja um todo. A comunicação gráfica, a escolha de parceiros, a relação com a cidade, o respeito para com o público", tudo isso definem o que é o festival.

"As diferenças mais substanciais que as pessoas vão sentir têm a ver com o tipo de estruturas presentes e a forma como elas definem uma paisagem visual" diz. "Os palcos principais não vão ter telas impressas com o nome do patrocinador, a presença das marcas será diferente e a linguagem dos materiais visuais estará em sintonia com o parque e o tipo de música."

Na maior parte dos festivais o cuidado estético é descurado em favor da eficácia operativa. No Primavera vai-se tentar conciliar as duas dimensões, de forma a optimizar o impacto visual do recinto, ao nível da aparência dos palcos ou da iluminação, segundo princípios de leveza, transparência, simplicidade e economia de meios. A ideia não é impressionar pela presença visual esmagadora, mas sim pela clareza e respiração.

Os brindes, por exemplo, "são coisas que têm uma utilidade dentro do recinto", diz Feliciano, "como sacos que se transformam em mantas para as pessoas se sentarem na relva ou sacos de lixo e toalhetes descartáveis." A intervenção no espaço tem em conta a especificidade ambiental e a racionalização dos recursos, em sintonia com os tempos em que vivemos.

Este tipo de intervenção, defende, só é possível quando existe sintonia entre o conceito do festival e os outros intervenientes. "Na listagem de bandas, a Bjork (entretanto cancelada) surge com o mesmo tamanho que o Rafael Toral. Não se estabelece uma importância do artista em termos de público. Ora isto só é possível quando se chega a um patamar em que se percebe que o público vai aderir, não por ter o nome da Bjork destacada, mas porque está lá Primavera Sound." Nem mais.