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O Porto já merecia um festival assim

08.06.2012 - Vítor Belanciano
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Os primeiros concertos do Optimus Primavera Sound(Suede, The Drums, The Rapture) não foram propriamente memoráveis, mas depois da primeira noite não restam dúvidas: o Porto já encontrou o seu festival de música ao ar livre.

Vamos direitos ao assunto. O Optimus Primavera Sound não é o primeiro festival ao ar livre de música do Porto de âmbito pop-rock. Mas recuemos no tempo: alguém se lembra de algum outro que se tenha realizado na cidade, que tivesse sobressaído pela sua identidade, por apresentar ideias de programação sólidas para lá das opções estéticas de cada um, por ser credível pela sua consistência e perseverança e por ter um espectro internacional? Não. Claro que já houve muitos festivais no Porto e, no entanto, a sensação que se tem é que o Primavera Sound é o primeiro.

Falando com as pessoas - sim, são suspeitas, porque são aquelas que estavam dentro do recinto - percebe-se que existe orgulho em receber um festival assim. Ainda bem, porque realmente o Porto, nos últimos anos, ao largo da maior parte das políticas institucionais, foi-se afirmando com uma geração empreendedora na música, nas artes e na vivência da boémia e das sociabilidades, com a reabilitação da Baixa a servir de bandeira dessa ideia. O Primavera Sound acaba por ser a súmula de tudo isso. E isso é bom. 

Não surpreende por isso que, num festival conhecido pela música, tenha sido o espaço a principal atracção da primeira noite, não só para os muitos estrangeiros presentes que dão um colorido diferente ao ambiente, mas essencialmente para os locais. São esses que parecem ter percebido que a cidade só teria a ganhar com um festival que aposta numa ideia de diferença. Não é uma diferença radical. Mas é uma diferença que importa sublinhar, assente num certo minimalismo de formas no recinto, respeitando o enquadramento do espaço, em vez da saturação comunicacional dos festivais semelhantes. E não, não se trata de fazer um festival desligado da lógica comercial. Isso não existe. Trata-se de tentar ser eficaz comercialmente, mas ao mesmo tempo respeitando o espectador, sem que este sinta que é sujeito de uma acção que não domina.

A primeira noite foi isso. Excelente ambiente, cerca de 20 mil pessoas deambulando tranquilamente pelas diferentes zonas sem esforço, posicionamento magnífico dos dois palcos em funcionamento - sexta e sábado serão quatro - e uma zona Vip funcional, sem requintes desnecessários,  enquadrada com o resto. E até alguns espaços especiais mais escondidos, como aquele que está perto do palco ATP, uma espécie de zona de piquenique onde é servido vinho a copo.

É um festival perfeito? Claro que não. Por exemplo, a zona de comes e bebes é reduzida e pouco diversificada para o número de pessoas presentes. Ontem viram-se filas desnecessárias. Mas é um festival atento ao seu tempo e que quer estar de acordo com ele, não se sobrepondo a ele isso é muito. Respeita o espectador. E o espectador percebe isso.

E a música na primeira noite? Nada de especial, na verdade. Sim, os Suede foram empáticos, os Mercury Rev esforçados e os The Rapture competentes, mas nada mais do que isso. E houve até desilusões, como o habitualmente excelente Bradford Cox, que se apresentou com a identidade Atlas Sound, num concerto solitário que não chegou verdadeiramente a arrancar. O americano lá foi dizendo que o Porto era a sua cidade favorita - e dito por ele, acredita-se - mas nunca conseguiu a simbiose com a assistência. O mesmo se poderia dizer do francês Yann Tiersen e respectiva banda, com uma performance mais empenhada. 

Os americanos The Drums foram, como habitualmente, funcionais. A sua música não falha, composto descontraído de diversas referencias dos anos 60 à actualidade, que acaba por desembocar numa pop desengonçada, saltitante e lúdica. Em palco são assim também, com o irrequieto vocalista Jonathan Pierse, bamboleando-se sensualmente para satisfação da imensa massa feminina que está lá à frente.

Quem ainda mantém a carga erótica quase intacta é o cantor Brett Anderson, que nos anos 90 levava à histeria qualquer palco onde os seus Suede pusessem os pés. Hoje já não é bem assim, mas a verdade é que mantém a elegância - no sentido mais lato da expressão - sem que ele e o grupo tenham perdido a impetuosidade romântica. Mesmo para quem nunca lhes reconheceu relevância, não foi difícil constatar que continuam uma banda que é capaz de se colocar em causa, apresentando canções como "So young", "Still life", "We are the pigs", "Everything will flow" ou "The wild ones" como se fosse a primeira vez.  Brett desceu ao público várias vezes e o rock encorpado de alguns temas provocou mossas na assistência, mas esta nunca se deixou enredar totalmente.

O mesmo se poderia dizer dos Mercury Rev, autores de alguns dos melhores álbuns de psicadelismo pop da década passada. Mostraram grande empenho, com um espectáculo cénico e musical barroco, mas nunca conseguiram contagiar realmente. Para final de noite - começaram às 2h da madrugada - estavam guardados os americanos The Rapture que, para muitos, eram a banda mais aguardada. Mas também não entusiasmaram. Foram apenas medianos.

O composto vitamínico que os projectou no início dos anos 2000, assente na energia do rock e na fisicalidade da música de dança (lá ouvimos "House of jealous lovers"), foi sofrendo variações com os anos, mas essa continua a ser a sua identidade. Já lhes vimos concertos frenéticos, mas não foi o caso. Os agudos do vocalista e guitarrista Luke Jenner fizeram-se ouvir, tal como as linhas de baixo sincopadas que parecem suportar tudo o resto, mas faltou na maior parte do tempo ao espectáculo um outro alento, um suplemento de alma, que era precisamente aquilo que os companheiros de editora, os já extintos LCD Soundsystem, tinham de sobra.

Hoje, já com os quatro palcos a funcionar em simultâneo, haverá muito mais por onde escolher (Rufus Wainwright, Wilco, Flaming Lips, The Walkmen, Beach House ou M83), o mesmo acontecendo amanhã com Kings Of Convenience, Spiritualized, Lee Ranaldo ou The xx. Para já, depois do primeiro dia, a notícia é que o Porto tem um grande festival de música a decorrer no seu centro. Uma grande novidade.


Comentários
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comentario13.06.2012 - 05:20 - Luis Oliveira, Lisboa
É espantosa a ignorância dos jornalistas e críticos musicais portugueses. Dizer que os M. Rev são relevantes é uma questão de opinião. Dizer que fazem "psicadelismo pop" é não saber do que se está a falar e mandar para cima dos leitores um chavão vazio para encher papel.
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