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Radiohead

Uma instituição, um renascimento, um feitiço

11.07.2012 - Mário Lopes
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No Optimus Alive, olhamos para trás. Para um passado com história: Radiohead, Stone Roses e Mazzy Star representam três formas de atravessar o tempo

Em 1993, os Radiohead eram banda de uma canção só. Por causa de Creep, claro. Ouvia-se aquilo por todo o lado. Na rádio, nas guitarras do pessoal da escola secundária ou em programas de MTV gravados na Florida, com Thom Yorke a cantar perante corpos tonificados muito festivos na exibição dos abdominais e da coxa bem torneada. Nesse ano, os Stone Roses, banda charneira da festa de drogaria e sorriso sem fim a que chamaram Madchester e que pôs a geração indie a dançar em raves ilegais, mantinha-se nos bastidores, preparando o desastre que seria o seu segundo álbum, Second Coming, editado no ano seguinte. Alheia a isto, uma dupla discreta aparecia-nos aparelhagem dentro com música nos antípodas de tudo. Uma voz que era murmúrio encantatório e canções que eram folk-rock emergindo de um sonho de ópio. Os Mazzy Star editavam o segundo álbum, So Tonight That I Might See e, por um breve momento, tornavam-se visíveis como nunca. A banda fantasma apresentava-se às massas de uma imensa minoria que continuou a carregá-la consigo, ano após ano. Recordação distante. Feitiço poderoso.

Em 2012, encontramo-los aos três entre as dezenas que compõem o cartaz do Optimus Alive. Em 2012, os Radiohead são uma instituição e Creep não tem nada a ver com isso. Tocam domingo e são o nome mais aguardado do festival que arranca esta noite, com os Stone Roses como cabeças de cartaz. Ian Brown, John Squire, Reni e Mani, a banda que podia ter sido enorme para sempre, mas que se ficou por um álbum brilhante que levou recentemente o artista plástico Damien Hirst a escrever inanidades divertidas como "os Stone Roses foram mais importante que Picasso". No Alive, Ian Brown gritará "I am the ressurection". Provavelmente desafinado.

No mesmo dia, domingo, escondidos num dos palcos secundários, encontraremos os Mazzy Star de Hope Sandoval e Dave Roback. Será como que uma suspensão do tempo. Não por revivalismo. Já suspendiam o tempo nos anos 1990 em que os conhecemos. São música das sombras e movem-se segundo os seus desígnios insondáveis. Neles, o mistério é tudo. E um negrume que reconforta o coração dorido não se sabe de quê. É mais fácil compor quando as coisas não correm bem?, perguntaram um dia a Hope Sandoval. "Não sei, as coisas nunca me correram bem", respondeu.

Eis, portanto, que os anos 1990 se reencontram sob um mesmo tecto. Não os anos 1990 do aparato das guitarras do grunge. Aqui, os anos 1990 prenunciados quando os Stone Roses, ainda na década anterior, trataram de lhe fazer o enterro. She bangs the drums: "the past was yours, but the future's mine". Depois chegaria Fool's gold e, entre guitarras wah-wah hendrixianas, sintetizadores em voo picado e balanço de clube acid-house, dava-se o indispensável passo em frente. Aqui, os anos 1990 que os Radiohead, na ressaca da euforia acid-house, brit pop e, porque não, grunge, transformaram na angústia de fim de milénio de Ok Computer, todo ele desolação do homem que não encaixa no mundo anónimo e mecanizado em que se vê aprisionado. Feita a ressaca, entraram de rompante no século XXI com Kid A, constelação de electrónica ambiental, kraut rock arrancado à memória melómana e Charles Mingus como inspiração libertária que daria arranque a uma década em que os géneros explodiram e implodiram em mil combinações.

Por fim os Mazzy Star, que nunca fizeram mais do que expor em canção um dilacerar de alma; sussurrando, ameaçando em blues, encantando mesmo que prevíssemos que, a qualquer momento, podíamos acabar afogados numa poça de sangue. Basta ouvir Hope Sandoval. Canta como se falasse num sopro quente, com uma distância que aquece e intriga. É sereia trágica e cantora folk assombrada, suspirando "be my angel and treat me right" como se esse desejo fosse impossível de concretizar. Como se algo terrível já tivesse acontecido.

Passados reencontrados

Este ano, no Passeio Marítimo de Algés, mantém-se aquela que tem sido a identidade do Optimus Alive. Conjugam-se nomes com história e capazes de congregar multidões - Radiohead, os Cure - com rapazes e raparigas com percurso assinalável em tempos mais recentes - Florence + The Machine ou Mumford & Suns -, uma figura de culto (pode chamar-se Tricky), bandas notadas do cenário indie (Dum Dum Girls, Caribou ou Warpaint) e o contingente português onde se incluem PAUS, B Fachada ou Parkinsons.

Os cabeças de cartaz, a força congregadora de um festival de diversidades, não deixam dúvidas: aponta-se ao passado, à história construída. E, nesse aspecto, Radiohead, Stone Roses e Mazzy Star representam de forma eloquente três formas de atravessar o tempo. Os primeiros são os independentes, a banda arty que, a contragosto, se transformou em instituição. Os segundos levantam a eterna e insolúvel questão melómana "do que poderia ter sido" e são uma das mais pungentes ilustrações de como exercer o direito à autodestruição. Os terceiros são um sonho indie que chegou aos nossos dias intocado desde a adolescência, quando os partilhávamos apenas e só com quem mostrasse merecer conhecê-los.

Os Radiohead chegam ao Optimus Alive com um álbum invisível chamado King Of Limbs, investida 2011 pela síntese rock-fora-deste-mundo/electrónica-subaquática que originou Kid A e o seu irmão gémeo Amnesiac. "Percebo que [King Of Limbs] tenha alienado as pessoas. Não tinha compreendido que habita o seu próprio planeta", suspirou Thom Yorke à Rolling Stone. Ora os Radiohead são hoje muito deste planeta. Chegaram ao patamar banda de estádio e hão-de saber o que fazer com isso, mesmo que não correspondam de todo a esse perfil. Andaram por Glastonbury no ano passado, foram cabeças de cartaz no Coachella deste e, enquanto Steve Reich, um dos pioneiros do minimalismo, anuncia que irá apresentar em Março de 2013 uma peça inspirada em Everything in its right place e Jigsaw falling into place, têm de lidar com as consequências do estatuto que não pediram.

Em Portugal, onde a dor existencialista de Thom Yorke toca fundo no coração das gentes, não deverão sofrer com tais expectativas. Em 2002, na última passagem, encheram três Coliseus de Lisboa e dois do Porto. Dez anos depois, King Of Limbs é um pormenor discográfico e a ideia de que têm de ser banda de estádio um absurdo - isso é para os Colplay, rosnarão os fãs. Tudo estará bem se, pelo menos, tocarem Karma police. Ou, vá lá, Paranoid android. Não vale pedir Fake plastic trees.

Os Stone Roses são toda uma outra história. Em Inglaterra, desde que confirmaram a reunião, em Outubro de 2011, a nação entrou em parafuso. 250 mil bilhetes para três datas em Manchester voaram em 68 minutos, noticiaram-se filmes e documentários em preparação e, por fim, chegaram os concertos. Alinhamentos de 19 canções, todas clássicas e reconhecíveis aos primeiros segundos, e um momento tipicamente Stone Roses pelo meio: em Amesterdão, Reni desapareceu antes do encore e um irritado Ian Brown teve de explicar que o concerto acabaria ali porque "o cabrão do baterista foi para casa". Em Manchester, por sua vez, a consagração. Alexei Petridis, crítico do Guardian, escreveu que as canções soam tão contagiantes quanto há duas décadas e que Ian Brown continua a desafinar olimpicamente. Nenhum problema quanto a isso: o público estava a cantar tão alto as letras que, de qualquer maneira, Brown era apenas mais uma voz desafinada entre dezenas de milhar.

Em Portugal, a memória da última passagem dos Stone Roses por Portugal é particularmente dolorosa - quem esteve não esqueceu o trágico concerto de Vilar de Mouros em 1996, quando a banda estava em fervilhante processo de desagregação.

Em Portugal, onde são apenas banda de culto a quem é reconhecido um merecidíssimo lugar na história - I wanna be adored, She bangs the drums, Fool's gold, Waterfall, Love Spreads: brincamos ou quê? -, terão de fazer a sua voz ouvir-se de forma convincente. Têm as canções para isso. Não têm a seu favor, naturalmente, o caldo cultural que os elevou em Inglaterra ao panteão dos grandes (mas terão os ingleses todos que cá vêm).

E os Mazzy Star? Lá surgirão, discretos na presença em palco mas imponentes pela força evocativa das canções. No último Primavera Sound em Barcelona, passaram pelos três álbuns da sua discografia, She Hangs Brightly (1990), So Tonight That I Might See (1993) e Among My Swan (1996). Tocaram Blue flower, Halah ou Fade into you. Hope Sandoval refugiou-se no copo de vinho entre as canções e reclamou com quem falava quando devia ouvir. Ela e Dave Roback preparam um novo álbum há uma eternidade e é provável que o ouçamos até ao final deste ano. Por agora, não queremos saber disso. Queremos ver as sombras tornarem-se corpo. Por fim. Queremos os Mazzy Star tão despidos de aparato, enigmáticos e encantadores como os ouvimos na música que sobrevoou o tempo.