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20.07.2012 - João Bonifácio
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Depois de anos a brincar com sintetizadores lo-fi, Nite Jewel rendeu-se à nostalgia pop do lado obscuro da década de 1980

É preciso ter cuidado com as palavras. Uma palavra designa uma coisa, outra, aparentada da primeira, pode comportar um mundo de distância. Recentemente, Ramona Gonzalez, mais conhecida por Nite Jewel, irritou-se ligeiramente com um jornalista que qualificou One Second of Love, o seu mais recente disco, lançado no primeiro trimestre do ano, como soft. "Chamar soft a um disco é sexista, no sentido em que a softness é percebida como uma qualidade feminina. Não sabem o que eu sou. Sou soft e hard e cold", explicou-nos Gonzalez ao telefone, há uns dias, quando a confrontámos com a mencionada entrevista. Ela está a viver os seus 12 minutos de fama e vai tocar quinta-feira, 26, na ZDB, em Lisboa, e um dia depois em Guimarães, no festival Manta do Centro Cultural Vila Flor. Nos dois casos, vem com banda completa (bateria, baixo, guitarra, teclas).

Tentemos então uma palavra aparentada que exprima a sensualidade escorregadia que atravessa One Second of Love (tanto o disco como o single com o mesmo nome, uma canção perfeita, já agora - aquilo que Goldfrapp anda a tentar fazer desde que largou a tragédia que marcava o primeiro disco, Felt Mountain) Experimentemos smooth.

"Ah, não. Smooth é bom. De smooth gosto. Smooth lembra-me a Sade e eu gosto muito da Sade".

Isto pode não ser muito óbvio para quem conheceu a Nite Jewel de Good Evening, o disco de 2009 que a fez sair do buraco escuro do anonimato: era um estranho cruzamento de gravação lo-fi - captado em cassete - com sintetizadores vintage, dance-pop e experimentação desbragada. Não era propriamente dançável, não havia muitas melodias memoráveis, mas era o som de alguém a tentar chegar a um sitio passando por todos os caminhos imagináveis.

Nos anos seguintes, dedicou-se a colaborar com uma data de gente - entre os quais Dâm-Funk, num projecto a que chamaram Nite Funk e que merecia mais canções - e a flirtar com imensos géneros, do r'n'b ao italo disco, que surge descaradamente em In the dark, um dos temas do novo álbum. Como resultado, em One Second of Love Ramona parece uma diva de sensualidade distante. Há canções com estrutura, ritmo e melodia, sendo que a estrutura pode não ser óbvia, o ritmo fugir ao 4/4 e as melodias a pedirem mais do que um par de audições para se revelarem - uma forma de dizer que a estranheza ainda lá está.



As modas que não estão na moda

Mas esta revisitação da pop electrónica mais obscura dos anos 80 é uma espécie de elo perdido entre o ambientalismo de Brian Eno e a seda de Sade - e é uma viragem tremenda na carreira de Nite Jewel. "Este disco tinha um conceito no início, porque havia temas que eu queria que estivessem muito presentes: nostalgia vs. modernidade, tecnologia vs. mudança. A nostalgia desempenha um papel muito grande, porque muitos destes sons fizeram parte de uma época, mas não foram usados nas músicas que ficaram mais conhecidas então. Há algo de mágico e de muito isolado na nostalgia: é como lembrar um tempo em que ainda não existíamos e perdermo-nos nesse imaginar. Quando sentes nostalgia não estás centrada na realidade, no agora. Musicalmente, sendo um disco nostálgico, vai beber às modas que não estão na moda. Faz-me estar deslocada do meu tempo e isso agrada-me", diz-nos.

O som super-produzido e slick de One Second of Love, muito L.A. na década de 1980, surgiu como reacção ao passado lo-fi de Gonzales. "Muito do que eu queria fazer neste disco era negar o que estava para trás". Para trás na sua própria carreira, não na história da pop, porque ir para trás na história da pop é exactamente o que lhe interessa. "Há certas épocas na música que foram deitadas fora e que me interessam. Em particular as correntes mais marginais do disco ou da pop electrónica. Adoro recolher singles dessas épocas. É como ir a uma loja de antiguidades e comprar um objecto que já ninguém usa, mas que fica perfeito na nossa sala. Gosto imenso das coisas que não funcionam".

Gonzalez diz que antes sempre fora "uma artista muito constrita", com receio de se expor. Colaborar, diz, libertou-a. "Como vocalista, como frontwoman, eu era muito assustadiça, muito auto-consciente. Não havia razão para isso porque eu canto há muito tempo. E sempre cantei coisas muito sentidas e variadas. Cantei jazz na universidade e ninguém associaria isso a mim". Acrescenta depois que "queria soar bonita e poderosa". A sua costela competitiva não demora a surgir: "E acima de tudo, não queria que ninguém me apontasse nenhum defeito. Queria cada nota perfeita. Porque sei cantar".

Apesar de todo este desabrochar, não se espere que a partir de agora Nite Jewel se torne uma artista mainstream. O seu próximo passo será editar em single uma versão jam de One second of love, a canção, com mais de 12 minutos - algo difícil de imaginar quando conhecemos a concisão pop da versão em disco. "Sabes, essa versão de 12 minutos é a versão original. A canção, que é pop, nasceu de uma jam. Tínhamos baixo, sintetizadores, nem percussão tínhamos, e pusemo-nos a tocar algo muito krautrock - eu andava apaixonada pela fase Berlim do Bowie. Fizemos a versão final editando essa jam".

Da experimentação nasce a melodia pop. Ao vivo, ela promete ser ainda mais pop do que no disco: "Ao vivo é melhor. É mais aventureiro e mais mexido. Tudo se junta e fica mais espesso. É muito mais dançável". Pelo menos durante 12 minutos.