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Não tocaram juntas quando a No Wave emergiu, juntam-se agora: a guitarra e a voz de Kim Gordon em duelo com os loops e os blips de Ikue Mori. Uma tareia

Se alguém perguntasse em que época é que Kim Gordon, baixista e vocalista dos Sonic Youth, e Ikue Mori, que foi baterista dos DNA, se juntaram em palco para um concerto a dois, o mais provável é que a maioria das pessoas desse como resposta o final da década 1970 ou o início da década de 1980. A resposta estaria errada.

Gordon e Mori editaram um álbum, SYR5 (juntamente com DJ Olive) em 2000 e raras vezes actuaram em conjunto. Pelo que os concertos que darão na terça, 31 (ZDB, Lisboa) e na quarta, 1 de Agosto (Centro Cultural Vila Flor, Guimarães) não farão o revivalismo de um encontro histórico, antes a festa de encerramento da No Wave.

No Lower East Side de Nova Iorque, entre o final da década de 1970 e o início da de 1980, uns quantos não-músicos juntaram-se nos mais variados projectos - música, vídeo e performance - unidos por uma vontade comum: derrubar as categorias estéticas e formais do mundo convencional da arte. Nada de canções com princípio, meio e fim, nada de guiões. O resultado desse período curto mas intenso foi a chamada No Wave, representada por grupos como os DNA, Mars, James Chance & The Contortions ou Teenage Jesus. Não havia propriamente uma estética comum - Chance era um saxofonista que acabou a flirtar com o funk, os DNA eram por vezes puro ruído -, mas havia uma ética, em particular nos palcos: a experiência era para ser sempre levada ao extremo e o público estava ali para ser agredido.

Os Sonic Youth, que devem muito à No Wave em termos de atitude e programa, surgiram em 1981 numa altura em que esse não-movimento já estava a chegar ao fim - os DNA, por exemplo, encerram actividade em 1982. Tendo em conta que a "cena" era minúscula, seria de esperar que Gordon e Mori se conhecessem e fossem amiguinhas. Mas não. Durante esse período não terão trocado mais do que o ocasional olá.

"Conhecíamo-nos de vista e sabíamos perfeitamente o que cada uma andava a fazer", conta Mori, ao telefone desde Nova Iorque, "mas a cidade é grande, havia imensas coisas diferentes para fazer e no fundo os nossos mundos acabavam por não se cruzar: ela pertence mais à cena rock, sempre esteve mais perto da canção, e eu trabalhei mais com a improvisação e com o jazz, pelo que acabámos por não nos cruzar durante muito tempo", recorda. "Curiosamente, conhecemos mesmo muita gente em comum".

É difícil deixar passar aquele "os nossos mundos acabavam por não se cruzar". Para muitos os Sonic Youth nunca foram verdadeiramente No Wave, ou deixaram de o ser pelo caminho - à medida que se aproximaram do registo canção, foram sendo mais e mais vezes acusados de se venderem. Ouvir Mori dizer que efectivamente o mundo de uma e de outra não se cruzavam é reavivar essa velha discussão. Mas Mori não vai em provocações. Quando lhe perguntamos se ela acha os Sonic Youth mariquinhas e demasiado pop, ri-se e responde com bom humor: "Não, não. Eu gosto dos Sonic Youth, gosto mesmo. Acho impecável que façam canções, acho que as fazem bem e acho espantoso manterem-se juntos há tanto tempo". O caminho dela, precisa, foi outro: "Seguimos caminhos opostos. Eu comecei cedo a tentar tocar com electrónica - não queria instrumentos tradicionais. Também não estava interessada no registo canção, mas sim na improvisação, e nesse sentido tocar com músicos de free jazz era o mais lógico, porque era mais experimental, mais aberto, mais intuitivo. Comecei a ser convidada para tocar com músicos muito particulares, que me aceitaram. Nem todos são assim. Acabei a ter uma carreira de colaborações".

Trinta anos de ruído

Foi em 2000 que as duas se cruzaram pela primeira vez num estúdio. Um dia o telefone de Ikue Mori tocou e era Kim Gordon a convidá-la a colaborar. O resultado foi o tal SYR5, um disco negro, abstracto, pejado de ruído - e em que pouca gente consegue perceber a origem da maior parte dos sons. De lá para cá Mori e Gordon colaboraram pouco: "Experimentámos alguns projectos diferentes, mas nunca gravámos. Fizemos uma residência na Califórnia há um ano e disso resultou um concerto. E mais nada".

Por "mais nada" entenda-se: não compuseram nada. Não há "temas" a apresentar no dois concertos, nem novos nem antigos, pelo que não vale a pena sacar o disco: o concerto será improvisação do princípio ao fim.

Gordon terá a seu cargo a guitarra, mas "a guitarra dela não vai soar a uma guitarra convencional". Também vai cantar, mas não esperem melodias. Mori irá controlar beats e ruído "a partir do computador": "Gero sons a partir do laptop em resposta ao que a Kim fizer, e esse é o lado menos improvisado, porque os sons são preparados". Há loops rítmicos prontos a lançar, sem ordem prevista. O resultado, diz, "é de uma amplitude sonora bastante grande": "um som enorme", associado a um "elemento visual", da autoria da japonesa - que, nos últimos anos, tem vindo a trabalhar cada vez mais com animação (e que quando chegou a Nova Iorque, conta Arto Lindsay, então guitarrista dos DNA, comunicava os padrões de percussão aos restantes membros da banda através de desenhos). "Aquilo que fazemos é a banda-sonora das animações visuais que criei e vamos projectar", explica.

Mori sublinha que não houve nem haverá até à data dos concertos nenhum ensaio: "Encontrámo-nos para um café e falámos, mas não ensaiámos nem previmos todos os detalhes". E não é preciso: "Bem, nós temos uma história de 30 anos a usar estes elementos, e o ruído em particular".

Fica então o aviso: não esperem cantigas, que o mais certo é abater-se sobre vós um pequeno inferno. E não levem o inferno a peito - não há nele um grama de provocação. "Não queremos chocar ninguém. Não tenho nenhum objectivo a não ser criar sons que nunca ouvimos antes. Gosto de sons que parecem coisas a partir, é tudo. Não é assim tão estranho".