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01.08.2012 - Mário Lopes
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Kim Gordon & Ikue Mori Lisboa, Galeria Zé dos Bois 31 de Julho, 22h40 Lotação esgotada ***

“Não tenho acompanhado o percurso dela”, ouvia-se. “Basta-me olhar para ela”, acrescentava-se. Interessava, portanto, vê-la. Kim Gordon, ícone do rock’n’roll como arma de vanguarda, via Sonic Youth, via percurso no meio artístico nova-iorquino desde o final da década de 1970, chegou a Portugal, acompanhada de Ikue Mori, quando os Sonic Youth vivem um hiato que não sabemos se terá alguma vez um fim.

 
E, tal como aconteceu na passagem de Thurston Moore por Lisboa e Guimarães há alguns meses, fomos vê-la para sorver um pouco daquilo que se perdeu com o pousio da banda de Bad Moon Rising. Mas não só: seria injusto para com o percurso de Thurston, de Lee Ranaldo ou de Kim Gordon, que assim fosse – têm uma criatividade com assinatura vincada. Esta terça-feira, na ZDB, comprovámo-lo (veremos o que acontecerá esta noite no Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães).
 
Ontem, na ZDB, Kim Gordon e Ikue Mori, a antiga baterista dos DNA, que transferiria depois a sua pesquisa musical para a exploração electrónica, juntas num concerto sem rede. O banco de sons de Mori respondendo aos esparsos riffs de guitarra de Gordon. A segunda como guia da performance, a primeiro moldando a matéria sonora criada. E ambas respondendo às imagens que iam sendo projectadas atrás de si, de manchas de cor a imagens que pareciam definir-se sem se fixar: de tons de azul ou colorido pixelizado a uma fachada de catedral, ao corpo de uma guitarra. O som, nesse sentido, correspondeu à imagem. Enquanto se erguiam iPhones e máquinas fotográficas para fixar o momento – havia um pouco essa sensação, a de estar ali, feliz e atento, para ver Kim Gordon, independentemente do que Kim Gordon fizesse -, a guitarrista ia cruzando curtos riffs e uma voz espectral debitando frases curtas, palavras ambíguas, quase imperceptíveis, sobre o som de osciladores e os ritmos incertos, inquietos, vagamente hipnóticos, disparados por Ikue Mori.
 
Era um concerto sem ensaios prévios, sem rede e isso, que representa um risco sempre fascinante, também obriga a uma disponibilidade diferente: aceitando os momentos de procura, a tentativa de encontrar um ponto de contacto entre voz, guitarra, ritmo e electrónica, acabamos progressivamente sugados para aquele fluir livre de som. Uma violenta sessão de hipnose, por vezes errática, com lampejos de rock exploratório, com Kim Gordon, figura poderosa em palco, com o cabelo tapando-lhe o rosto, a extrair feedbacks da guitarra, a usar um fino cilindro como para slide demoníaco, a lançar palavras que apanhamos como farrapos de algo que não compreendemos verdadeiramente: “sleepwalking” e a guitarra zumbindo enquanto um insecto “cronenberguiano” (seria um insecto?) ocupa o ecrã em grande plano; “the west is the best” quase no final (os Doors de The End?) e as frases que Ikue Mori multiplicou, uma vez mais, num coro de espectros.
 
O espírito da no-wave, na sua quebra de barreiras, na sua atitude confrontante, confundindo e provocando o público, esteve presente no concerto de Kim Gordon e Ikue Mori. Mas não foi, não podia ser, um verdadeiro confronto – o estatuto da mulher em palco não o permitiria. Foi uma experiência que cativou e, sem deslumbrar, inebriou a espaços. Não podíamos perder a oportunidade de ver Gordon. Vimo-la.