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13.09.2012 - Rodrigo Amado
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Dedicado às várias facetas da obra do pianista e compositor, arranca esta quinta-feira no Teatro São Luiz, Galeria 3+1 e Teatro do Bairro - no Chiado, em Lisboa - um ciclo de homenagem a Bernardo Sassetti.

Aclamado como um dos mais importantes criadores nacionais das últimas décadas, Bernardo Sassetti cultivou um espírito livre, onde a pesquisa e experimentação de novas formas de expressão artística ocupavam um lugar de destaque. Em 2009, por ocasião de um dos muitos espectáculos realizados com o seu trio, escrevia: "É recorrente questionarmo-nos sobre para que serve a música logo depois de a fazermos ou de a ouvirmos; ou procurarmos uma explicação sobre o seu significado, sobre um momento ou sobre um todo musical de divina beleza, sobre o que fica realmente deste irremediável prazer no acto de compor e de interpretar diante de uma plateia, sobre de onde vem a energia da música... Será mesmo necessário fazermo-nos tantas perguntas?" Ironicamente, foram precisamente estas questões que levaram o pianista e compositor a viver num permanente estado de inquietação artística, imprimindo uma marca indelével no jazz nacional e nas relações da música com as artes de palco e o cinema, sobrando-lhe ainda tempo e energia para o vídeo e a fotografia, a sua mais recente e explosiva paixão. 

Na música, como compositor ou como intérprete, o seu contributo foi imenso, dando origem a clássicos incontornáveis da nossa história musical como Nocturno (2002), Índigo (2004), ou Alice (2005), banda sonora original do filme com o mesmo nome. Deixou-nos ainda obras de alguma forma inclassificáveis cujo alcance e importância estão ainda por apurar. É o caso, por exemplo, do conceptual Unreal: Sidewalk Cartoon (2006), considerado por muitos uma das suas mais extraordinárias criações. E que dizer da sua colaboração com Carlos do Carmo? Do magnetismo e empatia musical que se instalava entre ambos e que tornou precioso cada momento da música que realizaram em conjunto? 

Mas a atenção transformadora de Sassetti não se focava exclusivamente na música, pelo contrário. Tinha uma paixão cinéfila que tudo abrangia - dos mais acessíveis blockbusters a obscuros filmes de autor. E como em Sassetti tudo era intenso e de alguma forma excessivo, não havia meios termos; o seu interesse por determinada área artística era demonstrado com infinita curiosidade e com um rigor de pesquisa e experimentação pouco usual. Foi isso que aconteceu com a sua aproximação à fotografia. 

Das primeiras declarações de interesse sobre o assunto à realização de um ambicioso espectáculo multimédia em que sequenciou milhares de imagens, num todo que fazia a ponte entre música, fotografia e cinema, foi um ápice. Era essa a velocidade da determinação criadora de Sassetti - conhecer, apreender e criar. Um processo em que, mais do que o resultado final, o que importava era o percurso transformador, um turbilhão de ideias e inspirações que não deixava ninguém indiferente, tocando tudo e todos. 

Tudo isso está no ciclo Fragmento. Movimento. Ascensão, que, quatro meses após a sua morte, se dedica às diversas facetas da sua obra e com actividades repartidas entre o Teatro São Luiz, a Galeria 3+1 e o Teatro do Bairro. O arranque assinala-se hoje, às 19h, na Galeria 3+1, com a inaguração da exposição de fotografia ...E ainda por cima está frio, uma mostra - auto-retratos de Sassetti - comissariada por Daniel Blaufuks (até dia 16). Também hoje, tem início no Teatro do Bairro um ciclo de cinema onde serão apresentadas as obras mais significativas para as quais Sassetti compôs a banda sonora. É o caso de A Costa dos Murmúrios, de Margarida Cardoso (hoje, 21h), Um Amor de Perdição, de Mário Barroso, e Alice, de Marco Martins (sábado, às 14h30 e 16h30, respectivamente), O Milagre Segundo Salomé, de Mário Barroso, e Quaresma, de José Álvaro Morais (domingo, 14h30 e 16h30).

Amanhã e durante todo o fim-de-semana, têm ainda lugar no Jardim de Inverno do Teatro São Luiz, sempre às 18h30, uma série de debates dedicados a temas da obra do pianista, a primeira das quais, intitulada Composição (amanhã), reúne António Curvelo (moderador), Luís Tinoco, Pedro Moreira e Carlos Azevedo. Seguem-se Música para Cinema (sábado), com Maria João Seixas (moderadora), Vasco Pearce de Azevedo, Filipe Melo, Marco Martins e Margarida Cardoso, e Trabalho (domingo), com Francisco Sassetti Corrêa (moderador), Mário Laginha, Alexandre Frazão, Carlos Barretto e Perico Sambeat.

Por fim, como não poderia deixar de ser, há a música, com três concertos programados para a sala principal do São Luiz, sempre às 21h. São eles: Music Around Circles (amanhã), espectáculo concebido em torno de imagens do filme Como Desenhar Um Círculo Perfeito, de Marco Martins, com música original de Sassetti e interpretação a cargo de João Paulo Esteves da Silva (piano) e Filipe Quaresma (violoncelo); Trio Bernardo Sassetti (sábado), um espectáculo onde Alexandre Frazão (bateria) e Carlos Barretto (contrabaixo), companheiros de Sassetti no seu celebrado trio, convidam uma série de outros músicos que com ele se cruzaram (Perico Sambeat, Carlos Martins, Ajda Zupancic, André Fernandes, Filipe Melo, Luís Figueiredo e Pedro Burmester); e Canções (domingo), espectáculo que reúne alguns dos mais importantes cantores que colaboraram com o pianista e compositor, entre eles Carlos do Carmo, Rui Veloso, Camané, Sérgio Godinho, Marta Hugon, Luís Represas, Carminho e Filipa Pais.

Quatro dias onde as palavras de ordem são celebrar a arte e a vida de Bernardo Sassetti.