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Aos 22 anos, Nicolas Jaar é um nome de culto das electrónicas
Lara Jacinto/NFactos

Nicolas Jaar é um minifestival, um sonho feito realidade em Lisboa

14.09.2012 - Vítor Belanciano
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O americano Nicolas Jaar sonhou actuar ao vivo numa noite em que também se ouvisse o jazz de Mulatu Astatke, o fado de Gisela João ou o eclectismo de Panda Bear. Hoje, no Lux, o sonho concretiza-se

Há um ano e meio, o norte-americano Nicolas Jaar era desconhecido em Portugal. Apenas os melómanos das electrónicas de dança o seguiam através de singles e remisturas. Em Fevereiro de 2011 saiu Space Is Only Noise, o álbum de estreia, e tudo mudou. Desde então já actuou por cinco vezes em Portugal - duas no Lux e duas em festivais e, este ano, na Casa da Música do Porto, com o projecto Darkside -, atraindo um culto difícil de divisar há pouco tempo.

Hoje, no Lux, para além de se apresentar em palco, é também curador. Foi ele que escolheu os restantes protagonistas: concertos de Mulatu Astatke, Gisela João e Pachanga Boys e sessões DJ por Panda Bear, Acid Pauli e Dave Harrington. Um minifestival, portanto. "Lisboa é uma das minhas cidades favoritas e o Lux um dos meus clubes preferidos do mundo, por isso tinha de aceitar o desafio", diz-nos, contando que, inicialmente, pensou que seria difícil conseguir todos os envolvidos. "Mas com esforço da minha agente e do Lux, os nomes que pensei em primeira mão estarão hoje em Lisboa."

O mais desejado por Nicolas era o etíope Mulatu Astatke, 69 anos, veterano músico de jazz que, nos últimos anos, tem sido resgatado da invisibilidade pelas novas gerações. Nicolas, 22 anos, vê nele uma espécie de mestre. "Fez-me compreender, através da sua música, o que é o ritmo, como se modela, como se desenvolve, como colocar emoção nele."

Mulatu nasceu na Etiópia e estudou em Londres e Nova Iorque, acabando por criar uma música singular que concilia traços de música africana, com jazz ou ritmos latinos. Um som percussivo, ao mesmo tempo festivo e espiritual. Ao vivo, com os Heliocentrics, cria um ambiente de transcendência, como constatou quem o viu em 2009, em Lisboa.

"Os discos dele, principalmente dos anos 60 e 70, continham tanta emoção!", exclama Nicolas, "foi depois de os ouvir que comecei a querer aprender piano mais a sério. Cheguei a aprender escalas etíopes e Will [o saxofonista da sua banda] e eu, com acordeão e percussão, acabámos a tocar nas ruas do Harlem, expondo as nossas influências etíopes."

Os pais de Nicolas - o artista plástico chileno Alfredo Jaar e a bailarina Evelyne Meynard - foram fundamentais na sua aprendizagem. Deram-lhe a conhecer Mulatu. Mas não só. Keith Jarrett e John Cage, mornas e fados, foram outros estímulos transmitidos. Da primeira vez que actuou em Portugal (em Junho de 2011, no Lux), surpreendeu quando convidou a fadista Carminho para subir ao palco. Na véspera havia ouvido a cantora numa casa de fados. Mas não era a primeira vez.

Em anteriores deslocações a Lisboa, na companhia do pai, já tinha ouvido fado e a palavra "saudade" não lhe era estranha. "Em casa dos meus pais ouvia-se muito essa música melancólica, seja ela exposta em mornas ou no fado", explica. "Sei que são géneros diferentes mas ambos conseguem tocar-me de forma intensa. Sempre desejei produzir fado, mas primeiro quero conhecer a cultura e viver aqui por algum tempo. Seria ingénuo fazê-lo de outra forma." Hoje estará em palco ao lado de Gisela João, fadista das novas gerações, nascida no Porto mas revelada em Lisboa, de voz profunda, que actuará antes em nome próprio.

Para além de Mulatu e Gisela, as atenções irão voltar-se para o americano Panda Bear do grupo Animal Collective, que promete uma sessão DJ ecléctica, ou os Pachanga Boys, projecto do alemão Superpitcher e do mexicano Mauricio Rebolledo, duo da música de dança, conhecidos também em nome individual. Uma escolha que não surpreende, porque Nicolas, que viveu alguns anos no Chile, tem uma predilecção por electrónica com algum cariz exótico.

Foi aos 14 anos, através dos pais, que ouviu pela primeira vez o som do chileno, a viver na Alemanha, Ricardo Villalobos, começando quase de seguida, ele próprio, a criar a sua música. A influência das electrónicas de dança sente-se nas produções em single. O seu álbum acaba por ser outra coisa, pop electrónica com vocais de blues, notas de pianos meditativas que remetem para a música clássica contemporânea, batidas lânguidas, elementos de jazz africano, tudo isto exposto em canções mais contidas do que festivas.

Em concerto, as duas dimensões estão presentes. Quando actua sozinho, surge o homem das electrónicas. Quando o faz com o grupo - como hoje -, há mais nuances, vindo ao de cima as influências do jazz, blues, house ou clássica. "Às vezes é óptimo actuar sozinho, é libertador, mas com a banda é quase sempre emotivo, porque existe mais partilha", diz.

Para além dos concertos, do curso de literatura comparada que tenta terminar, e da editora Clown & Sunset que dirige, nos últimos meses foi também notícia por causa do projecto paralelo Darkside, que mantém com o multi-instrumentista Dave Harrington, que também estará no Lux na qualidade de DJ. Trata-se de um projecto instrumental, mas esse facto não significa, segundo ele, que os próximos trabalhos se irão afastar do formato canção.

"Estou interessado em contar histórias apenas através de sons, mas não sei o que vai acontecer no futuro. Às vezes as palavras são supérfluas. Através da música instrumental há mais espaço para imaginar e isso é importante nestes dias de hipertrofia de comunicação, com tanta publicidade, por exemplo." Nesta fase, interessam-lhe mais os ambientes. É uma questão de opção, no momento da criação. E para o explicar recorre às esculturas de Rodin.

"Conhece as esculturas "inacabadas" de Rodin? Ao princípio é assim que o som é. Pode-se moldá-lo de maneira a expor um sentimento ou uma forma, ou deixá-lo inacabado, e teremos qualquer coisa de abstracto. Completar uma canção é decidir o que fazer. É intuição, impulso e definição. É completar um sonho." Hoje o sonho de Jaar para uma noite de música concretiza-se.


Comentários
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comentario19.09.2012 - 00:21 - Luís, Braga
Inveja daqueles que vão ter o prazer, é só o que posso dizer!
comentario15.09.2012 - 17:48 - Adriano, Lisboa
É por causa destas coisas fantásticas que é bom andar por cá.
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