Escolhas de Jorge Louraço Figueira e Tiago Bartolomeu Costa
1. Villa+Discurso de Guillermo Calderón
Encenação de Guillermo Calderón
Teatro en el Blanco (Chile)
Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1 a 3 de Julho (Próximo Futuro)
"Villa" e "Discurso" são duas peças distintas. Na primeira, três raparigas discutem o destino a dar um dos centros de tortura e extermínio da ditadura de Pinochet, argumentando a favor e contra a monumentalização do terror. Em "Discurso", as mesmas três actrizes encarnam a ex-presidente chilena Michele Bachelet, num discurso de despedida que todos gostaríamos de ouvir. Calderón é um dramaturgo capaz de criar as mais originais ficções para traduzir em experiência teatral íntima a experiência social contemporânea. A sua poética dá conta de todas as contradições dos temas propostos, usando o maravilhamento perante a fulgurância das falas para conduzir o espectador ao coração do debate político. J.L.F.
2. Woyzeck on the Highveld
de William Kentridge
Encenação de William Kentridge
Handspring Puppet Company (África do Sul)
Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 16 a 18 de Junho (Próximo Futuro)
O encontro entre o artista plástico e encenador William Kentridge e o universo das marionetas da Handspring Puppet Company transformou a secular história de Woyzeck, homem iludido que se perde, num exercício de imaginação plasticamente irrepreensível. Clássico moderno criado em 1992, mostrou um mundo multireferencial a partir da África do sul no tempo do apartheid. T.B.C.
3. Ela
de Jean Genet
Encenação de Luís Miguel Cintra
Teatro da Cornucópia (Portugal)
Teatro do Bairro Alto, Lisboa, 16 de Junho a 24 de Julho
Luís Miguel Cintra revelou ao público português esta obra, mantida inédita, a pedido do autor, Jean Genet, até à sua morte. A peça mostra uma sessão de fotografia do Sumo Pontífice. O actor apresentou um Papa jocoso e carnal, que dança e faz caretas ao espelho, numa reflexão profunda sobre o poder dos ícones. J.L.F.
4. Fim de Festa
de Samuel Beckett
Encenação de Krystian Lupa
Teatro de la Abadía (Espanha / Polónia)
Teatro Municipal de Almada, Almada, 14 e 15 de Janeiro
Fiel ao espírito de Beckett, esta versão resiste tanto ao óbvio como ao rebuscado. As personagens têm consciência da actuação, sublinhando a comicidade da peça. Hamm está numa espécie de bunker, cuja entrada está cheia de areia. Nell e Nagg estão em relicários de vidro. E Clov, no final, vem de vestido anunciar a partida. J.L.F.
5. Eu Sou o Vento
de Jon Fosse
Encenação de Patrice Chéreau
(França / Reino Unido)
Teatro Municipal de Almada, Almada, 17 e 18 de Julho (Festival de Almada)
A descoberta da escrita de Jon Fosse (tardia, admitiu Chéreau) trouxe um olhar renovado sobre a máquina teatral. Jogo de actores a descoberto, numa encenação despojada de artifícios a partir de uma tradução exemplar de Simon Stephens, revelou um encenador minucioso que, partindo da palavra, reencontrou o corpo. T.B.C.
6. Desvio da Missão
de the TEAM
Encenação de Rachel Chavkin
the TEAM (EUA)
Culturgest, Lisboa, 14 a 16 de Julho (Festival de Almada); Oficina Municipal do Teatro, Coimbra, 22 e 23 de Julho
Os factos reais e as personagens míticas do imaginário "made in USA", num musical que alterna entre a viagem de dois imigrantes holandeses para o Novo Mundo, no século XVII, o apogeu de Las Vegas no pós-guerra e a crise financeira de 2008, com uma articulação impecável entre texto, canções e actuação. J.L.F.
7. El Gallo
de Cláudio Valdés Kuri e Paul Barker
Encenação de Cláudio Valdés Kuri
Teatro de Ciertos Habitantes (México)
Mosteiro de São Bento da Vitória, Porto, 3 de Junho (FITEI)
Uma "ópera para actores" que reproduz um processo de criação, começando com a audição dos intérpretes, passando pela autêntica luta de galos que são os ensaios e culminando na estreia. O elenco age como se tivesse a vida em jogo. A música, as situações criadas e as interpretações são impagáveis. J.L.F.
8. Third Generation
de Yael Ronen & The Company
Encenação de Yael Ronen Schaubühne
Habima National Theatre (Alemanha / Israel)
Theatro Circo, Braga, 20 de Maio; Teatro Nacional São João, Porto, 21 e 22 de Maio (Odisseia: Teatro do Mundo)
"Third Generation" é como uma sessão de terapia de grupo entre jovens alemães, israelitas e palestinianos, que põe a cabeça dos espectadores a andar à roda com o verso e o reverso dos assuntos em questão. A plateia torna-se o objecto da encenação, dada a forma certeira como a representação age sobre os espectadores. J.L.F.
9. Israel
de Pedro Penim e Catarina Campino
Teatro Praga (Portugal)
Teatro Maria Matos, Lisboa, 22 a 27 de Setembro
Parábola extraordinária sobre o amor como condição geográfica e exercício de flagelação teatral, "Israel" deu a ver, em topo de forma, um actor-autor que, ao longo dos anos, instituiu, no seio do Teatro Praga, uma reconfiguração do teatro pós-dramático. Peça política, com certeza, a testar os limites das
programações. T.B.C.
10. A Missão - Recordações de uma Revolução
de Heiner Müller
Encenação de Mónica Calle
Casa Conveniente (Portugal)
Casa Conveniente, Lisboa, 21 a 31 de Julho
Corolário de um ano intenso, o ciclo dedicado a Heiner Müller mostrou o teatro de Calle como um teatro de vertigem, abraçando o risco, assumindo o perigo. Viagem sem regresso ao fundo de um autor e de uma ideia de sociedade, feita com os corpos negros de actores acabados de o ser, "A Missão" é Mónica Calle em carne viva. T.B.C.
Escolhas de Jorge Louraço Figueira e Tiago Bartolomeu Costa