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Todo o mito é um drama humano condensado

16.12.2011 - Tiago Bartolomeu Costa
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É tempo de dançar. Em Orphée, a dupla José Montalvo e Dominique Hervieu revisitam uma das mais belas histórias de amor. A peça de 2010 pode ser vista de hoje a domingo

Sabemos que acaba mal. Orfeu não resistiu a olhar para trás e Eurídice morreu. Os deuses não lhe perdoaram, apesar de o terem provocado. Mas o que pode o amor? Orfeu desceu aos infernos para resgatar Eurídice, sob promessa de nunca olhar para trás, mas a tentação foi maior e ela ficou, para sempre, nas mãos dos deuses, rudes, impiedosos, cruéis.

É um mito, sobre o que fazemos por amor, dos mais belos que o tempo guardou e que até domingo se mostra na Culturgest, em Lisboa, através das imagens - no palco pelos bailarinos e projectadas por vídeo -, criadas pelos coreógrafos Dominique Hervieu e José Montalvo, também directores artísticos do Théâtre de Chaillot, onde a peça se estreou em 2010.

A dupla de coreógrafos é, poderíamos dizer, velha amiga da Culturgest onde já apresentou Le Jardin Io Io Ito Ito (2000), Bebelle Heureuse (2003), On Danƒe (2005) e Good Morning Mr. Gershwin (2009). Em todos os seus espectáculos a combinação entre a dança clássica e a contemporânea, entre os efeitos tecnológicos e a coreografia, servem uma estrutura aberta, que convida o espectador a projectar um desejo de evasão nos espaços deixados por preencher pela profusão de elementos. Não é diferente agora. Misturam a dança clássica com o hip-hop, cantores-bailarinos africanos com bailarinos contemporâneos, num gesto que procura ir ao encontro da universalidade artística e filosófica do mito.

A história de Orfeu e Eurídice foi, ao longo dos séculos, e desde Ovídio e Virgílio, objecto de múltiplas adaptações, das óperas de Monteverdi, Gluck e Philip Glass aos filmes de Jean Cocteau e Marcel Camus, do quadro de Rubens aos sonetos de Rilke. Em todas as leituras se procurou dar a Orfeu o mais humano dos rostos, alimentando a ideia de que o seu drama era intemporal e, por isso mesmo, reconhecível por todos. "Poeta divino, mas sobretudo poeta humano", dizem os coreógrafos, para quem a peça se equilibra "entre a força da arte e do amor", onde surge "o encantamento, o caos e a estranha magia da arte do apaziguamento, a perda, o olhar mortal, o inferno e a fronteira entre os mortos e os vivos".

É este "universo físico e mental delirante" que é convocado para um palco habitado por bailarinos que hesitam entre a sua dimensão material e a sua imagem virtual, através de "uma arquitectura subtil e aberta" que entrelaça as diferentes leituras feitas ao longo dos séculos. "Tudo acontece como se a obra jogasse com júbilo com as últimas interpretações do mito", explicam. "A obra apresenta-se como um mergulho, não exaustivo, na riqueza abundante das interpretações", sugerindo "um labirinto extravagante" através do qual se pode percorrer "uma parte da história da cultura europeia".

É essa dimensão de permanente recontextualização que interessa aos coreógrafos, que aqui conseguem pensar "o modo como a intriga se desenvolve em múltiplos estilos" e permite revelar "o virtuosismo e a força inventiva" do próprio mito.