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Uma diva no divã

23.05.2012 - Inês Nadais
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Soy la Otra (La Diva), de Alba Sarraute, é um cabaré sobre um lugar de vida ou morte: o palco. Chega terça-feira ao 35.º FITEI, no Porto

Alba Sarraute, a Alba Sarraute que aos seis anos foi fazer teatro de rua com o pai (sendo que a rua tanto podia ser mesmo ali ao virar de uma esquina de Mataró, ou a milhares de quilómetros, por exemplo na Alemanha) e que agora se liga ao Skype a partir de Bruxelas, não coincide exactamente com a mulher cuja cabeça nos será servida numa bandeja na próxima terça-feira em Soy la Otra (La Diva). Há zonas da biografia desta diva que constam do mapa da vida da artista catalã, mas Alba Sarraute foi buscar muitos outros materiais, muitas outras vidas, muitas outras mortes, para o espectáculo que apresentará às 22h da próxima terça-feira no Teatro Helena Sá e Costa, Porto, na 35.ª edição do FITEI - Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica.

Eis Alba Sarraute, a verdadeira, tirando a máscara: "Comecei por procurar esta mulher em mim, na minha história, no que vivi na rua com o meu pai. Mas também a procurei em figuras como Nina Simone, Madonna, Lady Gaga, Beyonce, Amy Winehouse. No Michael Jackson... Na minha irmã, também". A intenção, diz, nunca foi fazer disto uma autobiografia - mas que a há, há. "Depois de o espectáculo estar feito, olhas para trás e vês: isto está muito parecido comigo. Mas enquanto estás a criar a história que decidiste que ias contar, não te dás conta. Enquanto estás no processo não entendes nada; vais esperando que no último dia entendas finalmente alguma coisa. No fundo, isto é um trabalho de auto-ajuda [risos]... Uma maneira de lidares com os teus bloqueios, as tuas memórias, as tuas frustrações, as tuas feridas", conta.

Alba, claro, não é a diva auto-destrutiva que temos à nossa frente neste musical negro, "cabareteiro", descabelada, desfigurada, na montanha-russa entre a euforia e a petite morte de cada noite em cima do palco. Mais do que o seu próprio retrato, este é o retrato de um mundo - melhor, de um mercado - implacável, uma visão da fama como máquina de extermínio. "Interessa-me muito este ponto em que o mercado acaba por danificar, por destruir mesmo, as pessoas de que se alimenta. O ponto em que tentar ser deus se transforma em suicídio", explica.

No caso desta diva, é uma história que começa antes desse ponto - no ponto em que, perdida a referência do pai, uma miúda dá por si sozinha no mundo, incapaz de medir forças com ele. Daí saiu esta espécie de drag queen em busca da sua "feminilidade perdida" - e que todas as noites conta a sua história num cabaré, agarrando-se aos aplausos do público como à derradeira tábua de salvação.

Um cabaré vivo

Tal como para a protagonista do espectáculo, cada noite é uma noite para Alba Sarraute - a personagem muda a cada apresentação, absorvendo a energia do lugar, dos espectadores, da actriz que está por trás dela. "Soy la Otra (La Diva) é um espectáculo vivo. Os poemas e as canções de que vive este cabaré são sempre os mesmos, mas o público é diferente, o lugar é diferente, eu sou diferente", argumenta Alba. Quando chega a um festival como o FITEI, faz o seu trabalho: passa alguns dias a aproximar-se das pessoas e das suas questões. "É importante perceber qual é o conflito mais forte em cada momento. Isso faz com que o espectáculo nunca arrefeça, com que a comunicação nunca se perca. Tenho obrigação de estar aberta e desperta para perceber o que move os espectadores", diz. Sobre o Porto, onde vai chegar com dois dias de antecedência, já sabe algumas coisas: "Falei com as pessoas, sei que há uma escola comunitária que foi despejada, que as pessoas ficaram revoltadas. Como artista, alimento-me desse tipo de coisas. E muito disso passa-se involuntariamente".

Também se alimenta - não só neste espectáculo em particular, mas na vida em geral - das canções e dos poemas que constituem o material de Soy la Otra (La Diva). "Uso standards de jazz e canções que me recordam o que fiz com o meu pai e que andam à volta do tema - depois levo-os para outros lados, para o canto lírico, para o drum'n'bass. Mas faço questão de que esses materiais estejam não apenas no meu imaginário pessoal como na memória colectiva dos espectadores. Porque esta peça já é tão íntima que se a fizéssemos só com as minhas coisas ficaria demasiado longe do público. É uma questão de identificação - estas canções também marcaram os espectadores, nalgum lugar do mundo, nalgum momento da sua vida".

Tragédia com swing

Formada em artes circenses, Alba Sarraute convoca todas as técnicas em que se especializou - canto, dança, teatro de rua, acrobacia, música, clown, variedades, vídeo - para compor, com os três músicos que a acompanham no palco, esta tragicomédia sobre uma diva decadente, capaz de morrer e matar pela devoção de um espectador.

É um lugar de vida e de morte, o palco, e Alba Sarraute tem bem noção disso - a mulher que nos traz ao Teatro Helena Sá e Costa exibe as feridas da idade e da exaustão, do desamor e do abandono, da mentira e do teatro permanente em que se transformou a sua vida. Mas, diz a artista, Soy la Otra (La Diva) não é a crónica amarga de uma derrota, de um funeral: "Falamos de problemas, mas com jazz, com swing, com música ligeira. Como se os puséssemos em cima da mesa para nos rirmos da tragédia que temos pela frente".

Como artista, a tragédia que ela tem pela frente é profissional: "Nestes anos de profundíssima crise cultural que estão aí, é muito importante perguntarmo-nos como voltar a encher os teatros, como voltar a encontrar os espectadores. A crise não é só financeira, também é de paradigma: nesta era da Internet em que toda a gente tem o último filme à disposição no computador de casa...".

Mas sendo a história pessoal de uma artista, Soy la Otra (La Diva) é sobretudo a história colectiva de uma comunidade tragicamente problemática. "Esta exigência de sucesso que faz com que os seres humanos não aceitem nem a fragilidade nem as coisas duras que fazem parte da vida - foi disso, não de mim, nem desta mulher, que quis falar".