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15.06.2012 - Paula Varanda
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Hoje em Guimarães 2012 - Capital Europeia da Cultura, uma experiência a não perder, na Caixa Negra da Fábrica ASA, às 19h

A divindade às vezes sentida na natureza humana é difícil de explicar. Keersmaeker, porém, mostra como a dança pode ter essa faculdade, que volta a evidenciar-se em beleza nestas criações com a música polifónica do século XIV.

En Atendant (2010) decorre na expectativa da morte e revisita a enfermidade que se abateu sobre a Idade Média. Do flautista que abre o espectáculo com um ininterrupto sopro esperamos o fim iminente do seu fôlego; é um prelúdio simbólico para uma peça muito bonita, com um elenco notável.

Impõe-se um formalismo que define em rigor a velocidade, direcção, desenho e distribuição do movimento pelo grupo corporal e a sua tendência espacial: linhas paralelas ao proscénio, como caminhos inevitáveis, onde círculos e diagonais são efémeras emancipações. A coreografia reflecte uma estrutura de composição musical, perceptível até nos silêncios, como denota o requinte da marcha ritmada, decisiva num bailarino e contagiada a todo o grupo.

Da forma exímia emerge uma qualidade expressionista e significante. Ela aparece nas arquitecturas móveis de corpos que se agarram e se apoiam - evocações de pinturas trágicas de povos desfazendo-se em sofrimento comum; acentua-se nas relações tensas entre os intérpretes, que acusam conflito social; e por meditações isoladas onde despontam dramas pessoais. A peça, sem narrativa, leva o colectivo à extinção, acabando com um espírito revoltado contra o destino que, obstinado, eleva com saltos para o céu o seu corpo nu e só.

Cesena (2011) é o acordar da noite para o dia e carrega, não figurativamente, a disputa de soberania religiosa da França sobre a Itália que originou, em 1377, um massacre na cidade homónima. Colaborando com Schmelzer, aqui Keersmaeker fundiu admiravelmente a companhia Rosas e o coro Graindelavoix.

Na penumbra um homem grita um canto repetidamente. Por trás avança um grupo, com andar síncrono e poderoso, cantando de mãos dadas; é uma imagem de resistência e coesão, que, mais tarde, comandará outras esculturas corporais unificadoras que transpõem grandes distâncias no palco despido. Numa escuridão quase total, a pele de pessoas que correm, saltam e deslizam enérgica e sensualmente traça desenhos incompletos. Esta ocultação demorada e inquietante anuncia uma amplitude e profundidade muito interessantes, transmitidas pela deslocação horizontal da voz, que faz imaginar a dança.

A luz aumentará, trazendo outras conquistas, como, por exemplo, um magnífico solo masculino, cercado por frases de maiorias que o espelham ou contrapõem. A comunidade, revelada, expande-se também na vertical, galgando pelo reflexo da sua força terrena e descentralizadora o espaço aéreo e infinito.

En Atendant e Cesena partilham vários aspectos: intérpretes catalisadores de transformações; belos movimentos das massas; trios, duetos ou solos virtuosos; sobreposição de objectividade e subjectividade; figurinos escuros; vocabulários ricos mas específicos; e pausas absolutas que suspendem a intensidade contínua. Lindas, na sua exposição tão intangível quanto edificante, estas obras distintas juntam-se na perfeição; uma, mais bidimensional, cria um corpo cheio de música; outra, mais tridimensional, compõe uma música cheia de corpo.

Os agentes culturais que viabilizaram a ocasião deram ao público um excelente díptico que elogia o poder construtivo das artes do corpo e é inspirador; tentemos nós agraciar a marcha quotidiana e reparar mais nas vidas anónimas que formam connosco uma sociedade.