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A vida privada das plantas

20.06.2012 - Tiago Bartolomeu Costa
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De um lado do ringue, a economia; do outro, a ecologia. Hortus, de Patrícia Portela e Christophe De Boeck, é um teatro para ver e tocar, atrás dos arbustos do Palácio do Beau-Séjour, em Lisboa.

Por favor, acredite só nos seus olhos". Porque será que nos lembramos das palavras do realizador húngaro Béla Tarr ao atravessar os jardins românticos do fim do século XIX do Palácio do Beau-Séjour, em Lisboa? Talvez porque aquilo que Patrícia Portela e Christophe de Boeck procuram dar-nos em Hortus, que a partir de amanhã, e até 1 de Julho, o Maria Matos - Teatro Municipal instala naquele jardim em Benfica, é da ordem da experiência, do ver para crer. Mas o que há para ver? À partida nada: apenas algoritmos, dados recolhidos por sensores escondidos em ramos de árvores, atrás de arbustos, na relva que, à passagem de alguém, criam uma paisagem sonora que interfere com a paisagem já existente. Pássaros artificiais e outros reais, o vento como medidor de intensidade, as nuvens baixas como capacete de som, os raios de sol como estimulantes auditivos.

Antes de chegar a Lisboa, Hortus, a nova criação de Christophe de Boeck e Patrícia Portela, esteve na Bélgica, onde se apresentou em Bruxelas e Kortrijk. Depois de Lisboa, passará por Évora, onde integrará o programa do festival Escrita na Paisagem (17 a 23 Julho), e por Liubliana, a capital da Eslovénia, onde se apresentará no festival Mlada Levi (24 Agosto a 2 Setembro). Não é um espectáculo, nem uma instalação: diríamos tratar-se de uma ocupação se o termo não estivesse, de momento, carregado de uma simbologia quase contrária às ideias de partilha, efemeridade e regeneração que De Boeck e Portela quiseram explorar. O espectador, a que chamam visitante, é convidado a percorrer um espaço onde um equipamento de ponta, especialmente criado para o efeito, o faz interagir com a natureza. Há a intenção de o fazer reflectir sobre o potencial económico das plantas, como se através delas pudéssemos ler sistemas financeiros e, ao mesmo tempo, confrontá-los com a liberdade que apenas existe na natureza. É um jogo de oposição de sistemas. De um lado do ringue, a economia. Do outro, a ecologia. No meio, o visitante que, explorando sons, mensagens e micro-histórias, cria o seu próprio percurso - a sua própria história.

Querer ver

Christophe De Boeck, que há anos constrói performances em que investiga, qual arqueólogo, a relação entre o conteúdo e a forma do som, queria, agora, alargar a investigação ao imaterial; lembrou-se, por isso, de trabalhar a fotossíntese. Diz-nos que as políticas de percepção que caracterizam a relação do espectador com o espectáculo esbarram num impedimento anti-natural: como se nos esquecêssemos de que há uma vida a acontecer à nossa volta, antes e depois da nossa passagem. Para dar conta dela, argumenta, é preciso abandonar o lugar privilegiado que é a cadeira numa sala de espectáculos, onde dominamos o que temos à nossa frente; construir uma narrativa panorâmica implica sair e olhar em frente, mas também para os lados, para cima, para trás.

Patrícia Portela, talvez porque esta recusa da linearidade narrativa lhe seja tão cara - lembremo-nos da trilogia Flatland (2004-2006), ou de O Banquete (2007) -, queria, por seu lado, construir um labirinto. Seja nos textos que escreveu, como Odília (2006), ou nas peças que criou - da inaugural Wasteband (2003), onde a ideia de deslocação da realidade estava na base de um teatro inquisitivo, à alegadamente infantil Anita vai a nada (2008), com Cláudia Jardim, divertido exercício de imaginação para meninas apanhadas a caminho da emancipação -, o que parece importar-lhe é a criação de um canal de comunicação que estabeleça, de forma permanentemente mutante, a relação entre a palavra e o discurso público.

Para os dois artistas, Hortus é uma experiência de partilha do sensível, onde a interacção entre o visitante e a natureza se sustenta num jogo de não-premeditação. As regras não são nem as de uma obra de land art nem as de uma performance interactiva. O que importa é estabelecer um território comum para uma reflexão. É por isso que Hortus é, ao mesmo tempo, uma instalação e uma intervenção sobre a ideia de comunidade. Um teatro para ver e tocar, e não apenas para estar. Induzindo uma reflexão sobre o que damos como adquirido, do sol ao dinheiro, do vento ao consumo, da efemeridade do colectivo à resistência da natureza.

Dizíamos que, à partida, em Hortus nada está à vista. Não porque já tudo esteja "lá", mas porque é preciso querer ver. De Boeck lembra como a nossa relação com o que nos envolve depende tanto do tempo que lhe queremos dedicar. E Portela fala de partilha, para dizer que o que vemos é comum a tantos e que devemos saber que o que nos pertence, na verdade, é nosso apenas durante o tempo que durar a nossa atenção. Ver, portanto, para acreditar - afinal, não é de provas físicas que precisamos.

Além da componente jardim, Hortus terá também um salão literário que juntará, neste fim-de-semana e no próximo, artistas, políticos, ecologistas e arquitectos. O dirigente da Quercus Francisco Ferreira, o arquitecto paisagista Gonçalo Ribeiro Telles, o crítico literário Miguel Real, a filósofa Alexandra Moura, a artista plástica Bárbara Assis Pacheco e o encenador André e. Teodósio são alguns dos intervenientes agendados para as conversas com o público.