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Miguel Madeira

Não é um golpe de estado, é uma peça de JP Simões

22.06.2012 - João Bonifácio
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Em "Íntima Farsa" há casais em decomposição, um escritor que não sabe quem é o pai, morfina, visões, swing, psicanálise, levitação, violência e casais. É JP Simões-Bergman-apocalíptico

Não se pode dizer que JP Simões seja alheio ao teatro. Escreveu e compôs a Ópera do Falhado e muito antes disso estava presente uma ideia de encenação como a imensa galeria de personagens das canções dos Belle Chase Hotel provam. Nem sequer se pode defender que interpretar, "fazer de", lhe é estranho, como é visível no vídeo de São Paulo 451, single de Fossanova, o segundo álbum da banda, em que faz de mulher, cantando com sotaque brasileiro. Pelo que ser o protagonista da peça que escreveu - Íntima Farsa estreia quarta-feira, 27, na sala principal do Teatro São Luiz, Lisboa - não é uma surpresa. Para o autor, é mesmo o que lhe é natural: "Isto é o que sempre fiz: não tenho formação musical, gostava de ser escritor, e acabei a fazer canções", disse ao Ípsilon, há dias, num intervalo dos ensaios.

Como na Ópera do Malandro, há canções dele e escritas de propósito para a peça, uma solução pragmática para a união entre os seus dois universos preferidos: "Fazer teatro musical tem um grau de exequibilidade prática epermite-me escrever". Ainda assim, talvez se possa dizer que amúsica não ocupa um lugar tão central quanto ocupava em Ópera do Malandro.

Há muita coisa dentro de Íntima Farsa: morfina, ataques de pânico, visões apocalípticas, traições, levitação, swing, pornografia, psicanálise, violência. O seu centro, contudo, é ocupado pelas relações entre dois casais. Um é composto por João (JP Simões) e a Mulher (que é actriz, e tem vários nomes). "O facto de ela ter vários nomes é simbólico de uma certa normopatia. Chamam-lhe vários nomes e ela responde sempre como se fosse ela", diz Simões. A mulher é actriz e João é escritor - foi criado pela mãe e não conhece o pai. O segundo casal é composto por Joana (actriz) e Manuel (radiologista).

João tem em mãos duas obras: um livro chamado Íntima Farsa, que é a história da mãe - que ele conta no psicanalista. "Uma espécie de Antígona", diz Simões. Também está a escrever uma peça, que acha que podia ser profilática para a Joana. Esta sofre de visões e ataques de pânico. Manuel, que segundo JP, "é o mais equilibrado de todos", é mais ou menos dependente da morfina: "usa-a para relaxar: o momento em que chuta é o único momento de paz que tem". Em última instância fica sempre em aberto a hipótese de uma parte do que vemos ser a Íntima Farsa que João escreve.

A peça passa-se em dois planos temporais. Por um lado temos os casais, que são acompanhados em situações quotidianas em que, segundo JP, "a normalidade está sempre na iminência de se desmoronar". "A instabilidade dos casais é aplacada com químicos - caso contrário são acometidos por sonhos". Por outro, há uma série de cenas de João no psicanalista, que ocorrem num plano temporal posterior à narrativa dos casais. Pelo meio os casais cantam sobre o que é o amor, como era ao longo dos tempos, cantam sobre poligamia, etc.

Determinante é osub-texto simbolizado pela instabilidade das personagens, o facto de elas serem acometidas por sonhos horrendos: "É a ideia de que a instabilidade exterior deflagra no interior de cada um. É dentro de cada cabeça que os dilemas gerais acontecem", diz Simões, para quem as cenas no psicanalista, que decorrem sob o signo da ausênciado pai e loucura e iminência da morte da mãe de João, criam um paralelismo com a nossa época: "A ausência do pai é um símbolo do vazio institucional em que vivemos".

Em última instância Íntima Farsa decorre "na profunda fragilidade da informação". "Não tens acesso à verdade", diz o autor, acrescentando: "Podes é criar uma narrativa funcional". A insegurança das personagens, a sua fragilidade, a sua incapacidade para descobrirem de onde vieram realmente, tudo isso "anda em torno da nossa infinita limitação enquanto pessoa".

Bode expiatório

As primeiras versões de Íntima Farsa eram diferentes. Começaram a ser escritas em 2008, após um concerto no São Luiz que resultou no [disco ao vivo] Boato. "Na altura o [Jorge] Salaviza [então director do São Luiz] propôs-me que fizesse mais qualquer coisa com eles. Passada uma semana entreguei uma ideia. Há cerca de um ano, quando o José Luís Ferreira tomou conta do teatro, ligou-me a dizer que tinha encontrado o Íntima Farsa e que queria que eu acabasse isto".

Nessa altura "era uma coisa épica". A tese central ainda era a mesma: a de que "o pensamento individual é composto por arquétipos". Quando JP Simões e Victor Hugo Pontes, o encenador, se encontraram, foi essa a primeira carta em cima da mesa: "O sub-texto foi o mote da nossa primeira conversa", diz Victor Hugo."Foi sobre a ideia de o pensamento individual ser uma construção do colectivo. As pessoas são mais porosas do que têm coragem de acreditar", acrescenta JP.

Foi já durante os ensaios que a peça tomou a forma final. "Ele escreveu uma primeira versão e depois quando começámos os ensaios levantámos todos questões, fizemos um quadro de análise dramatúrgica e ele foi encontrando soluções de oralidade, tirando palavras que não eram precisas porque há os corpos", conta Victor Hugo.

Inicialmente JP tinha pensado Íntima Farsa "só com projecções e música", o que o encenador achou "demasiado ilustrativo". Houve ainda mais um par de problemas: o primeiro era uma tendência de JP para escrever "como se fosse um guião de cinema" e "no cinema podes passar de uma cena exterior para uma interior num segundo", explica Victor Hugo.

O segundo decorreu da presença de JP nos ensaios: "Como estava presente ficava insatisfeito com o que estava a ver e reescrevia. Pelo que atrasou até à última a versão final". Victor Hugo, que no seu trabalho está habituado a colaborações que envolvam música, diz que "a peça foi uma grande aprendizagem para o JP".

Curiosamente, o mais difícil para Pontes não foi dirigir JP enquanto actor. "Não tentei que ele fosse outra coisa. Tentei que usasse o que lhe é natural - ele tem pequenos gestos, das mãos, em particular, que são muito naturais e que eu queria que ficassem assim. Mas tem a mania de andar de um lado para o outro e isso tentei eliminar". O pormenor técnico mais complicado, assevera, foi a projecção de voz: "Há uma consciência do corpo no espaço, consciência de que se fala para pessoas, que ele não tinha". Pontes diz que queria fazer com que "as pessoas acreditassem que aquilo é o JP Simões: aquilo que as pessoas acreditam que é o JP Simões tem a ver com aquilo que é o João".

Simões evita leituras autobiográficase acaba a conversa a resumir Íntima Farsa assim: "A peça fala de um bode expiatório colectivo: de quem é a culpa desta merda toda?". Depois, e porque talvez o seu próprio discurso lhe parecesse sério demais, atira: "Mas isto é entretenimento, não é um golpe de estado, nem ajuda humanitária".


Comentários
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comentario02.07.2012 - 12:40 - Diana, Lisboa
Fui ver esta peça. Gostei da naturalidade do JP, apesar da péssima dicção (imperceptível na maioria da peça). Gostei de algumas melodias que traziam um pouco de claridade e boa disposição à peça. Mas na generalidade, resumo-a como má. Por vezes a meio e já caminhando para o final, perguntávamo-nos se estaríamos num espectáculo de La Féria, de tão mauzinho que era. Enfim, desejo-lhe sorte e melhores dias de inspiração.
comentario28.06.2012 - 18:03 - Anónimo, Porto
A obra a que o segundo parágrafo se refere é a "Ópera do Falhado" - e não a "... do Malandro" -, ainda que se trate de erro compreensível.
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