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Bastam uns minutos em Francisca de Manoel de Oliveira para ver como é indescritível uma representação quando é única

Cecília Guimarães, obrigado

04.07.2012 - Jorge Silva Melo
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Houvesse um teatro por cá, houvesse um teatro, e todos os anos veríamos a sua luminosa ironia. É que houve tantos poetas, de Shakespeare a Coward, de Miller a Duras que para ela, sem o saber, escreveram personagens que só ela saberá desdobrar, com inocente paixão, com a sua maliciosa teimosia. O Festival de Almada presta-lhe homenagem.

Houvesse, em Portugal, um teatro já nem digo nacional, um ou dois teatros com datas e peças, horários e repertório, actores e autores, e todos os anos haveríamos de ver, pelo menos uma vez, direita, sóbria, mulher independente nas peças de Shaw (podia ter sido Santa Joana...), Lady Bracknell de Wilde, autoritária, preconceituosa, mãe casamenteira de Jane Austen, governanta mórbida, missionária na China, viajante no Oriente Expresso com jóias e animais, secretária de James Mason, no cinema de Mankiewicz, sogra da Taylor, a Henriqueta desse romance extraordinário que é A Morgadinha dos Canaviais de Júlio Dinis, que fez na televisão, dama extravagante da Côte de Azur quando as rosas eram rosas e os amantes, mesmo na bancarrota, tinham dinheiro sabe-se lá de onde.

Sim, houvesse por cá um teatro e nenhum conseguiria dispensar uma actriz como Cecília Guimarães, baronesa, mulher do povo, detective, criminosa, preceptora, rainha Gertrudes que também não fez, mulher de João Gabriel Borkman, perfeita.

Tê-la-ei visto, pela primeira vez, em 62, no D. Maria, no Para Cada Um a Sua Verdade de Pirandello, peça extravagante, o que eu gostei daquela tramóia siciliana ronronando especulações infindáveis sobre a identidade dos forasteiros, o que eu gostei da voz clara de Cecília duvidando, contrapondo versões ("Será?... Não será? Quem é a senhora Ponza?"), como desde então a admiro (ui, há 50 anos!)

Fora em 53 a sua estreia profissional, com Alves da Cunha, em digressão do inevitável Duas Causas. Por esses anos, na Lisboa onde brilhava ténue esperança do pós-guerra, nasciam os teatros experimentais, o Salitre e derivados, juntava-se gente, irreverentes uns, conservadores outros, poetas, artistas plásticos, insatisfeitos todos, e pensando que seria possível um outro mundo menos arrebicado, de cabelo curto, um mundo mais claro. E foi num deles que Cecília se estreou, num desses espectáculos que romperam com as tradições do cenário com as três paredes e o sofá ao centro, A Qualquer Hora O Diabo Vem, de Pedro Bom, na Rua da Fé. Mas também representou no Salitre, em peça de David, e cedo Jorge de Sena a saudou no insólito Filipe II de Alfieri, e foi enorme o seu triunfo na Antígona de Anouilh da primeira vez que Jacinto Ramos a fez, no Teatro Experimental de Lisboa que teve êxito retumbante e vida curta no Clube Estefânia. António Pedro chamou-a para o TEP, onde foi uma das mulheres tremendas de O Crime da Aldeia Velha de Santareno. E, durante anos, esteve no Trindade, fazendo Priestley (o Já Aqui Estive!), a Yerma com a Lalande, as primeiras Três Irmãs, Cortez...

Em 1962 entrou para aquela que será sempre a sua casa, a Companhia Amélia Rey-Colaço/Robles Monteiro, foi fazer as Oito Mulheres de Robert Thomas, tão divertida. E no D. Maria foi ficando, até ao incêndio; no Avenida depois e foi aí que fez Equilíbrio Instável, de Albee, com Amélia, Mariana (maravilhosa cena do acordeão) e Lurdes Norberto. E veio o segundo incêndio, e a companhia mudou-se para o Capitólio, depois para o Trindade, finalmente para o São Luiz. Cecília lá estava até às últimas horas, no Sábado, Domingo e Segunda, extraordinário De Filippo. Na companhia de Amélia - a que ainda chama "Senhora Dona Amélia" -, Cecília foi fazendo, brilhantemente sempre, Kataev, Maugham, Frisch (o Biederman!), Dürrenmatt (A Visita!), Tennessee Williams (O Eléctrico..., sim), Shakespeare (mas não fez a Emília do Othello, e eu diria que foi feito para ela esse papel secreto...), Valle-Inclán...

Mas terá sido a odiosa Juliana de O Primo Basílio de Lopes Ribeiro o que a marcou, que maravilha de trabalho (actriz perfeita!) em filme tão fraquito, vejam bem o seu olhar, o verdadeiro ódio, o rancor, a humilhação, a vergonha. E sempre que surge no cinema, como é transparente tudo o que faz, que incrível a sua relação com a câmara, vê-se tudo. E há uma cena de Francisca de Manoel de Oliveira, no interior de um barco onde, criada ou lavradeira, acompanha a combalida heroína, e bastam esses minutos para ver como é indescritível uma representação quando é única.

Isso soube bem Carlos Avilez que, durante seis temporadas, a foi colocando nas fantasias macabras de Gombrowicz, em Witkiewicz, em Naum Alves da Silva. Isso sabe Benite que a chamou para Almada, onde fez Lorca e Peter Schaeffer (Felicidade e Erva Doce que lhe valeu prémio). E onde fez aquela personagem que eu tanto gostaria de a ter visto fazer (não estava cá...), a mãe de Dias Inteiros Nas Árvores de Marguerite Duras, a mulher que foi barragem contra o Pacífico, que peça tão linda.

Vinda, por certo, de outros tempos, de outros saberes, herdeira de uma tradição que veio dos antigos, daquilo a que ela insiste em chamar "disciplina", Cecília Guimarães sempre prezou, na sua arte ferozmente discreta, a naturalidade, a observação, a simplicidade, não há tremolo na sua voz, não há pathos no seu drama, representa com o corpo inteiro e a dedicação de uma vida.

Nem sabem o prazer que é trabalhar com ela (só consegui duas vezes, a vida é injusta), vê-la testar o papel, avançar muito devagar (não é actriz que se precipite para receita já feita), vê-la inventar, brincar, sim, brincar, espevitar-se, a graça lisboeta que tem ao olhar, ao olhar para todo o lado, tão expressiva, ela que é o teatro todo e essa coisa tão rara, uma grande, mesmo muito grande actriz.

Cecília Guimarães! Houvesse um teatro por cá, houvesse um teatro, e todos os anos veríamos a sua luminosa ironia, é que houve tantos poetas, de Shakespeare a Coward, de Miller a Duras que para ela, sem o saber, escreveram personagens que só ela saberá desdobrar, com inocente paixão, com a sua maliciosa teimosia, para nosso imenso prazer.